Esta é uma semana de glória para o ministro Crato e os seus apaniguados. Foi solenemente inaugurada a série Século XXI dos Exames da Quarta Classe.
Já aqui escrevi sobre os exames nacionais e também sobre a cruzada contra o "eduquês", que mais parece um projeto de restauração da escola novecentista e da escola salazarista, ordenadas para disciplinar e adaptar à civilização a massa rude que eram os filhos dos iletrados camponeses e operários.
Os velhos tempos
Há mais de 50 anos também eu me sujeitei a este caminho, com mais dureza do que hoje. Pela primeira vez dormi fora da minha casa. Mudei-me com os meus colegas para uns apertados quartos que a professora arranjou na cidade e lá ficámos dois ou três dias (não me lembro quantos), para fazermos o exame da quarta classe, no imponente edifício do "Liceu Nacional". Ao segundo dia recebi a visita do meu pai para saber se estávamos bem e provavelmente acertar as contas da hospedagem. Digo provavelmente, porque de contas não ouvi falar. Embora tratados como pequenos adultos, nas questões de dinheiro éramos perfeitamente crianças.
Naquele tempo isto fazia algum sentido. A "quarta classe" nem sequer era obrigatória (passou a sê-lo para os rapazes em 1957 e para as meninas em 1960). Apenas era obrigatória a "terceira", que se chamava o "primeiro grau do ensino primário".
Para a grande maioria dos meus companheiros terminou ali a carreira académica. Tive o privilégio de pertencer ao restrito número de menos de 10% que prosseguiu estudos. Para os outros o "exame da quarta", ou o mais modesto "exame da terceira", foi o passaporte para a vida laboral. Na fragilidade dos seus 10 ou 11 anos, passaram a ser, nos campos, nas oficinas e nas fábricas, mão-de-obra disponível e, mais do que isso, mão-de-obra qualificada. Porque os adultos com quem iam aprender as artes práticas eram, quase metade deles, analfabetos (taxa de analfabetismo em 1950: 42%).
Eram na verdade uns "doutorzinhos" que tão bem interiorizaram a mais-valia da sua qualificação que ainda hoje ouvimos alguns afirmarem: "Aprendi mais na minha quarta classe do que estes moços agora na universidade".
Hoje isto é uma memória importante para bem percebermos os condicionamentos e fragilidades da nossa história educativa. Mas é uma aberração ressuscitar este modelo. A dinâmica dos tempos empurrou sucessivamente a escolaridade obrigatória até aos 18 anos, alavancando consigo ao mesmo tempo a idade legal para trabalhar.
Uma coreografia do poder
Uma coreografia do poder
Introduzir uma certificação pública nacional no fim do primeiro terço da escolaridade obrigatória traz vantagens ilusórias e tem claros inconvenientes.
É ilusório que aumente a responsabilização dos docentes. Os docentes já tinham a eficácia avaliada há alguns anos pelas provas de aferição.
É duvidoso que este aparato seja uma via adequada para desenvolver o sentido de responsabilidade e de cidadania em crianças de 9 e 10 anos. As crianças respondem perante os pais e perante quem eles delegaram o poder parental: os professores, os catequistas, os monitores de atividades de desporto e de artes. É através dessas figuras, que são em diferentes graus, esteios de proteção, de instrução, de afeto e de autoridade, que as crianças entranham os valores civilizacionais e fazem a sua caminhada para a autonomia cívica.
Introduzir numa idade tão precoce este ritual de sujeição a uma avaliação num local estranho, sob a vigilância de estranhos é um capricho de adultos que utilizam as crianças para uma exibição de poder. Faz-me lembrar os rituais para-militares a que éramos obrigados na "Mocidade Portuguesa". Na minha ingenuidade adolescente até achava piada àqueles desfiles, cânticos e exortações patrióticas. Só em adulto percebi que tinha feito parte duma coreografia do poder.
Um detalhe particularmente chocante deste exibicionismo do poder é a exigência feita aos putos dum compromisso de honra escrito de que não são portadores de telemóvel nem de outra tecnologia de copianço.
Os pais normais ensinam os filhos a cumprirem com honestidade as instruções dos responsáveis por uma atividade. Na presente situação os "engenheiros" do sistema parecem convencidos de que as crianças são uns energúmenos empedernidos em esquemas fraudulentos. Assim, não se contentam em deslocá-las para sítios estranhos, sob a severa vigilância de pessoas que nunca viram.. Arrancam-lhes o suplemento dum juramento escrito de honestidade, sob pena de impiedosa reprovação. Uma cena destas contém uma perigosa mensagem: "Vais viver num mundo fraudulento; olha como eu sou hábil a controlar-te; terás de ser mais hábil do que eu se quiseres escapar de ser controlado".
Estranha forma de estimular a responsabilidade pessoal. Quem inventou este esquema não tardará a propor que as crianças de 9 anos sejam sujeitas a responsabilidade criminal.
Os germes da exclusão
O exibicionismo do poder do Estado perante as criancinhas não é o aspeto mais gravoso desta deriva.
Reconheço que este exame é irrelevante para a maioria dos alunos que seguem sem percalços a carreira escolar. Mas traz uma carga dramática àqueles 10 ou 15% que já têm de lidar diariamente com o sofrimento da sua percebida menos-valia na sala de aula. Para estes é sempre um momento de especial ansiedade aquele em que se decide ou não a repetição do ano.
Até aqui cabia essa delicada tarefa ao conselho escolar. No limite era uma decisão arbitrária. Mas era uma decisão informada, com a participação de vários docentes e por vezes o recurso ao parecer de psicólogos e terapeutas.
É este processo que a atual cruzada anti-romântica chama "facilitismo". A ele opõem o "rigor" duma prova cega que no espaço duma hora separa o trigo do joio.
À arbitrariedade informada dos que são próximos da criança contrapõe-se uma arbitrariedade burocrática e sem rosto. Talvez a criança saiba reconhecer aqui o primeiro alerta para os poderes ocultos que irá encontrar na vida adulta.
Por mim, vejo antes os malefícios secundários que se perfilam.
Em vez dos programas personalizados de recuperação, o sistema tenderá a aplicar receitas genéricas para a massa indiscriminada de "burros" de forma a conter os danos de contágio e de perturbação sobre o alegre curso dos bem sucedidos.
A escola, ao invés de se tornar o laboratório da inclusão, tenderá a replicar os mecanismos de segregação e estigmatização existentes na sociedade.
O ambiente da sala de aula tenderá a moldar-se à ansiedade da avaliação externa ao invés da alegria da aprendizagem e da descoberta.
À execrada "pedagogia romântica" sucederá a pedagogia do calculismo e da eficácia, da qual nascerá o homem novo, disposto a calcar tudo e todos para conseguir os seus objetivos.
Acredito que os professores do meu país não se deixarão arrastar por este perigoso caminho.
É duvidoso que este aparato seja uma via adequada para desenvolver o sentido de responsabilidade e de cidadania em crianças de 9 e 10 anos. As crianças respondem perante os pais e perante quem eles delegaram o poder parental: os professores, os catequistas, os monitores de atividades de desporto e de artes. É através dessas figuras, que são em diferentes graus, esteios de proteção, de instrução, de afeto e de autoridade, que as crianças entranham os valores civilizacionais e fazem a sua caminhada para a autonomia cívica.
Introduzir numa idade tão precoce este ritual de sujeição a uma avaliação num local estranho, sob a vigilância de estranhos é um capricho de adultos que utilizam as crianças para uma exibição de poder. Faz-me lembrar os rituais para-militares a que éramos obrigados na "Mocidade Portuguesa". Na minha ingenuidade adolescente até achava piada àqueles desfiles, cânticos e exortações patrióticas. Só em adulto percebi que tinha feito parte duma coreografia do poder.
Um detalhe particularmente chocante deste exibicionismo do poder é a exigência feita aos putos dum compromisso de honra escrito de que não são portadores de telemóvel nem de outra tecnologia de copianço.
Os pais normais ensinam os filhos a cumprirem com honestidade as instruções dos responsáveis por uma atividade. Na presente situação os "engenheiros" do sistema parecem convencidos de que as crianças são uns energúmenos empedernidos em esquemas fraudulentos. Assim, não se contentam em deslocá-las para sítios estranhos, sob a severa vigilância de pessoas que nunca viram.. Arrancam-lhes o suplemento dum juramento escrito de honestidade, sob pena de impiedosa reprovação. Uma cena destas contém uma perigosa mensagem: "Vais viver num mundo fraudulento; olha como eu sou hábil a controlar-te; terás de ser mais hábil do que eu se quiseres escapar de ser controlado".
Estranha forma de estimular a responsabilidade pessoal. Quem inventou este esquema não tardará a propor que as crianças de 9 anos sejam sujeitas a responsabilidade criminal.
Os germes da exclusão
O exibicionismo do poder do Estado perante as criancinhas não é o aspeto mais gravoso desta deriva.
Reconheço que este exame é irrelevante para a maioria dos alunos que seguem sem percalços a carreira escolar. Mas traz uma carga dramática àqueles 10 ou 15% que já têm de lidar diariamente com o sofrimento da sua percebida menos-valia na sala de aula. Para estes é sempre um momento de especial ansiedade aquele em que se decide ou não a repetição do ano.
Até aqui cabia essa delicada tarefa ao conselho escolar. No limite era uma decisão arbitrária. Mas era uma decisão informada, com a participação de vários docentes e por vezes o recurso ao parecer de psicólogos e terapeutas.
É este processo que a atual cruzada anti-romântica chama "facilitismo". A ele opõem o "rigor" duma prova cega que no espaço duma hora separa o trigo do joio.
À arbitrariedade informada dos que são próximos da criança contrapõe-se uma arbitrariedade burocrática e sem rosto. Talvez a criança saiba reconhecer aqui o primeiro alerta para os poderes ocultos que irá encontrar na vida adulta.
Por mim, vejo antes os malefícios secundários que se perfilam.
Em vez dos programas personalizados de recuperação, o sistema tenderá a aplicar receitas genéricas para a massa indiscriminada de "burros" de forma a conter os danos de contágio e de perturbação sobre o alegre curso dos bem sucedidos.
A escola, ao invés de se tornar o laboratório da inclusão, tenderá a replicar os mecanismos de segregação e estigmatização existentes na sociedade.
O ambiente da sala de aula tenderá a moldar-se à ansiedade da avaliação externa ao invés da alegria da aprendizagem e da descoberta.
À execrada "pedagogia romântica" sucederá a pedagogia do calculismo e da eficácia, da qual nascerá o homem novo, disposto a calcar tudo e todos para conseguir os seus objetivos.
Acredito que os professores do meu país não se deixarão arrastar por este perigoso caminho.