terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal


 Por muitos natais que já passei na minha vida, ainda não descobri a atitude certa para este dia tão especial.

Os primeiros cristãos celebravam a morte e a ressureição de Jesus, porque aí se explicitava a mensagem fraturante que Ele trouxe a um mundo dividido entre poderosos e vítimas. 

A celebração do Natal só ganhou relevo no século IV, concentrando a atenção nas narrativas que nos deixaram dois evangelistas sobre o nascimento de Jesus, como preâmbulo simbólico do que viria a ser a sua vida.

Lucas (2,1-18) apresenta-o a nascer fora de casa e da cidade, um sem-abrigo, apenas reconhecido e amado pelos pastores, uma classe desqualificada e sem poder.

Mateus (2, 1-12), que escrevia para os cristãos vindos do judaísmo,  preocupa-se em identificá-lo como o messias anunciado pelos profetas e, tal como os profetas, temido pelos poderosos e incompreendido pelo seu povo. Apresenta-o a ser reconhecido e amado unicamente por estrangeiros ("os Magos vindos do oriente"), e a ter de se exilar logo à nascença para escapar à fúria assassina do rei Herodes.

O Natal faz sentido como festa da fraternidade universal, na esteira deste menino que se anuncia tão perigoso para os poderosos do sistema. Faz sentido alegrarmo-nos com a boa notícia de que a igualdade e a justiça são possíveis e têm hoje e aqui os seus promotores e defensores.

Faz sentido também lembrarmo-nos neste dia de quão longe estamos do mundo anunciado por Jesus, quando vemos a concentração iníqua da riqueza e do poder em poucas e obscuras mãos. 

Faz sentido lembrarmo-nos daqueles que agonizam ignorados e excluídos nas margens das nossas comunidades. Lembrarmo-nos dos estrangeiros que morrem nos mares de Lampedusa em busca do pão da Europa, enquanto oferecemos vistos dourados aos estrangeiros que tragam na mala um monte de dinheiro.