terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Quadras soltas com Amor


O amor não é eterno,
A cada hora se cria, 
É feito de tudo e nada
E salpicos de magia.

O amor que tu me dás
Eu to quero devolver
Com altos juros e rendas
No nosso comum crescer.

O amor é um olhar
Uma escuta, um sorriso,
É entrega sem medida,
É perdão quando é preciso.

O amor é o encontro
De dois corpos duas mentes,
Um halo de eternidade
Nos frágeis dias transientes.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Competitividade à Crato


A notícia é catastrófica para o futuro do país. As bolsas de doutoramento atribuídas pelo Ministério da Educação - Fundação para a Ciência e a Tecnologia, para este ano 2013-14, foram 298 (9% das 3433 candidaturas). Estas bolsas, que chegaram a cerca de duas mil nos anos 2007 a 2010, ficam agora reduzidas a esta miséria.

Por outro lado, as bolsas de investigação (pós-doutoramento) atribuídas foram 210 (10% das 2100 candidaturas). Um corte abrupto em relação às cerca de seis centenas que vinham sendo atribuídas anualmente desde 2005.

Foi sublime a explicação que o ministro Crato deu aos jornalistas. Trata-se, diz ele, de aumentar a competitividade. Perceberam? Eu não. Pensava ingenuamente que ele estava interessado na competitividade do país e a explicação era absurda.

Mas depois meti-me nos meandros daqueles neurónios moldados contra o "eduquês" e descobri. Crato acha que se houver só duas centenas de investigadores reduz o risco de dar guarida a milhares de preguiçosos que só querem medrar à custa do contribuinte e que, se os candidatos forem verdadeiramente competitivos, conseguirão bolsas europeias e americanas.

Crato aplica às bolsas de investigação o mesmo princípio que Darwin enunciou para a reprodução das espécies: dez machos a competir pela mesma fêmea são a garantia da eficiência genética. Esquece-se de que quando as fêmeas são poucas a espécie caminha para a extinção.

Numa outra perspectiva, trata-se de aplicar ao nível da pós-graduação aquilo que o Crato está a adorar fazer aos miúdos de 10 anos: exibir nas pautas dos exames nacionais os pequenos génios que estão a  emergir, e ostracizar os falhados que estão a estorvar os seus brilhantes colegas e desperdiçam o dinheiro dos contribuintes.
 
Triste país que tal Crato atura.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Idiotices


Tornou-se uma banalidade atroz ouvir responsáveis públicos atirarem-nos à cara justificações completamente idiotas. Fazem-no com ar tão sério que nos deixam a dúvida: serão de facto idiotas ou estão mesmo convencidos de que somos suficientemente idiotas para acreditarmos neles?

Num bloco noticioso de hoje não precisei de muita atenção para reter duas amostras.

Numa peça sobre os imensos atrasos de atendimento na urgência do Amadora-Sintra, e bastos testemunhos de doentes sobre a insuficiência de médicos, o responsável do hospital não teve dúvidas em justificar-se: "O problema é haver doentes a mais". Faltou a conclusão: Já emigraram os enfermeiros e os médicos, é tempo de os doentes emigrarem também.

Outra peça prolongava os ecos do tal plano B de resposta ao Tribunal Constitucional, que reprovou o corte generalizado de 10% nas pensões dos funcionários públicos. A resposta luminosa do governo é aumentar mais uma vez a Contribuição Extraordinária de Solidariedade que, como é sabido, é um segundo IRS que incide apenas sobre os pensionistas e reformados.
 Não é a isto que eu chamo idiotice. Isto é simplesmente um confisco.

O que vem à conta de idiotice é a justificação dada por um responsável do governo sobre esta decisão. Dizia ele com seu ar sisudo: "É esta a melhor maneira de diminuir o défice sem retirar  dinheiro da economia". Isto é que é falar. Está-se mesmo a ver que os reformados estão habituados a pegar na enorme mordomia que recebem e a enviarem-na direitinha para as ilhas Caimão...

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Recuperar os sonhos


No virar de mais um ano, quando devíamos cuidar de avivar os sonhos, somos atanazados pelo habitual ruído discursivo dos nossos governantes, a assombrar-nos com os pesadelos da dívida e da austeridade redentora.

Em busca de atalhos para escapar a estas narrativas opressivas, dei por mim a recordar as velhas músicas dos anos 60, que tanto alimentaram os inconformismos juvenis da minha geração.

Trauteei de novo Blowing in the wind (1963), de Bob Dylan (está aqui uma das muitas interpretações) e, não encontrando nenhuma tradução que me agradasse, deixo aqui a minha versão,  sem garantia de que se encaixe satisfatoriamente na música.

Quantas estradas tem alguém de andar
Até que lhe chamem pessoa?
Quantos mares há-de a pomba voar
Até repousar na areia?
Sim quantas armas se vão disparar 
Até serem por fim banidas?
 
 A resposta, amigo, sopra no vento
A resposta sopra no vento.

Sim quantos anos pode o monte existir
Até ser desfeito pelo mar?
Sim quantos anos pode haver pessoas
Esperando se libertar?
Sim quantas vezes vais virar a cara
Fingir que não estás a olhar?

A resposta, amigo, sopra no vento
A resposta sopra no vento

Sim quantas vezes os olhos tens de erguer 
Até que vislumbres o céu?
Sim quantas orelhas precisas de ter
Para ouvir o choro do povo?
Sim quantas mortes tens ainda de ver
Até as achares demais?

 A resposta, amigo, sopra no vento
A resposta sopra no vento.

Que o vento do poeta nos limpe dos fatalismos em que nos querem enredar.
Feliz Ano Novo!