Para Miguel Relvas, a administração local padece de "uma esquizofrenia",
pois "é a favor de mudanças, mas só para o vizinho", explicando, durante a sua intervenção na conferência, que "quem faz mudanças ganha inimigos".
RTP 18-05-2012
Encontramos aqui um salto qualitativo no rigor psiquiátrico-científico com que os governantes tratam o país. E reparem que desta vez não se trata dum descuido discursivo diante dum microfone de ocasião. O ministro palestrava na Universidade do Minho. O templo da sabedoria para testemunhar uma nova clarividência sobre as moléstias da nação.
Digo um salto qualitativo, porque não é de agora a popularidade do saber psiquiátrico entre o público em geral e os políticos em particular.
Desde a publicação, no século XIX, dos primeiros manuais de doenças mentais, houve um enriquecimento crescente do vocabulário disponível para aqueles momentos em que precisamos duma palavra especial para exprimir um grito de alma.
Palavras ordinárias como palerma, estúpido, filho da p., maluco, chanfrado, foram sabiamente substituídas por idiota, imbecil, débil mental, psicopata, histérico, anormal. Tudo rigorosas categorias científicas que os psiquiatras e psicólogos se viram obrigados a substituir nos manuais ao longo dos últimos cinquenta anos para se furtarem à concorrência desleal dos diagnosticadores de rua, de tribunas e de parlamentos.
A crise veio dar novo impulso à psiquiatria politica. A palavra de ordem dos novos tempos é a criatividade e os políticos não tardaram a dar o exemplo no campo específico do diagnóstico clínico.
Na primeira fase da crise o diagnóstico mais popular foi o de autismo, inicialmente aplicado pela oposição ao governo (ainda no tempo do Sócrates) e devidamente generalizado pelos partidos entre si. É um diagnóstico pesado - uma psicose - mas a nós pouco interessa, porque só estava a afetar a classe política, que tem bons meios para se tratar.
Na fase atual o governo avançou decididamente para a psicoterapia do povo, baseando-se em diagnósticos cada vez mais refinados.
Primeiro foi a denúncia dos acantonados na "zona de conforto", os abulicamente conformados com o gozo do subsidiozinho em vez de se aventurarem pelo mundo fora. Dessa perturbação psicológica aqui deixei o devido testemunho.
Mais tarde, Passos Coelho teve ocasião de aperfeiçoar o diagnóstico e reprovar as atitudes "piegas" (lembram-se?). Usou um plebeísmo para não atrapalhar o povo com o diagnóstico técnico de perturbação de adaptação. A partir daí aproveitou diversas ocasiões para sessões públicas de psicoterapia: abraçar o desemprego como uma oportunidade, acreditar no poder da mente, acreditar no governo, acreditar nos mercados, acreditar na prosperidade futura. Estas são as estrelas que nos guiam na noite escura do empobrecimento presente.
Agora que a generalidade do povo está a habituar-se àquelas terapêuticas, o ministro Relvas resolveu dar o salto em frente e sacar da cartola este diagnóstico radical de esquizofrenia, especialmente dirigido aos seus "inimigos" que se opõem à reforma das freguesias, que pelos vistos são a maioria dos autarcas.
Esquizofrenia, vejam lá. Implica delírios, alucinações, negação da realidade. O tratamento exige medicação neurolética e um internamento temporário. E depois uma psicoterapia prolongada.
Talvez por já se tomar por diretor dum gigantesco manicómio, Relvas terá recentemente ameaçado uma jornalista do Público com a divulgação da sua vida privada. Claro, tem a ficha clínica ali à mão...
Psiquiatras e psicólogos cuidem-se!... Relvas sozinho vale por vocês todos!