quinta-feira, 31 de maio de 2012

Calculadoras falantes


Anteontem pus aqui os meus remoques ao sermão de Mme Lagarde aos gregos, que obviamente é também para nós portugueses. 

Pois não é que ontem mesmo a comissão europeia, no seu comentário aos planos nacionais de reforma, vem dizer que, depois das alterações na legislação portuguesa, a duração do subsídio de desemprego ainda é demasiado longa!

Aquela gente de Bruxelas não se conforma com a crise preguiceira que atinge mais de 15% dos nossos concidadãos. E tenciona apertar com eles para que se mexam, seus calões.

Volto talvez demasiadas vezes a este tema porque ficar sem um mínimo de recursos de subsistência é um gravíssimo atentado à dignidade humana.

Eles, os arautos da austeridade, não escondem a sua agenda. Altos níveis de desemprego geram uma desvalorização salarial que nos tornará "competitivos".  Como sugeria Lagarde, enquanto não chegarmos ao patamar do Níger temos muito caminho para andar. Ora se as pessoas ficarem atreladas a um subsídio e não ficarem imediatamente disponíveis para o trabalho quase escravo lá se atrasa a "revolução competitiva".

Adicionalmente eles confessam-se surpreendidos com a elevada taxa de desemprego e não lhes sai da cabeça que a malta anda a arranjar esquemas para viver na praia à custa do Estado. 

Calculadoras falantes que se orgulham de ser, nunca poderão admitir que se enganam; os factos é que estão enganados. Com uma boa cura de fome, eles acreditam que os números do desemprego hão-de ir ao sítio e a teoria voltará a ter razão.



terça-feira, 29 de maio de 2012

Compaixões de Lagarde


Está na crista da onda a entrevista de Christine Lagarde ao jornal The Guardian.

Numa longa conversa sobre o destino do mundo visto do miradouro onde se acantona, a  presidente do FMI semeia recados e ideologias, com o pretensiosismo dos embriagados do poder.

Confrontada com o sofrimento dos filhos dos desempregados gregos, a senhora teve uma saída digna de madre Teresa de Calcutá: "Penso mais nas crianças das escolas nas pequenas localidades do Níger  que têm duas horas de aulas por dia, que têm uma carteira para três"

 Que génio de compaixão! Se acaso a frase saísse da boca de qualquer dos muitos militantes, cristãos, muçulmanos ou laicos, que sujam as mãos nesse sofrido continente africano a tentar a cura para os seus males, ficaríamos certamente emocionados e prontos a enviar a nossa ajuda para a melhoria das tais escolas. 

Na boca da presidente do FMI a frase é um insulto a esses militantes. Não sou ingénuo a ponto de pensar que bastaria a Lagarde querer e a miséria seria erradicada. Mas no lugar onde está, com os programas de "assistência" financeira que subscreve, esperava-se naturalmente um mínimo de pudor na exibição de tão inúteis compaixões. O Níger foi intervencionado pelo FMI nos anos 90 e ocupava em 2010 o último lugar do Índice de Desenvolvimento Humano. É mais uma estrela no portefólio daquelas sumidades.

E a ilustre senhora prosseguiu:
"No que se refere a Atenas, penso em todas as pessoas que evitam os  impostos o tempo todo".

Assim mesmo. Porque há-de ela preocupar-se com as crianças gregas? Os contribuintes gregos ainda não se encontram completamente despojados. Tratem de colocar em cima do balcão das finanças o que ainda possuem, em obediência às sábias reformas austeritárias dos insignes pregadores de moral enviados pelo FMI e pela UE. Quando finalmente não tiverem nas escolas de Atenas carteiras para as crianças saberão que D. Christine se comoverá!

Os gregos sentiram com toda a razão que este arrazoado é um insulto ao seu sofrimento. Ao sofrimento de todo o povo grego. Todo, não! Escapam os do costume. Lá como cá. 

Conhecemos bem o filme. Amanhã, quando estivermos ainda mais aflitos  e mais saqueados dos nossos direitos, já sabemos o que é que a senhora tem para nos dizer.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Já estamos no manicómio?



Para Miguel Relvas, a administração local padece de "uma esquizofrenia", pois "é a favor de mudanças, mas só para o vizinho", explicando, durante a sua intervenção na conferência, que "quem faz mudanças ganha inimigos". RTP 18-05-2012

Encontramos aqui um salto qualitativo no rigor psiquiátrico-científico com que os governantes tratam o país. E reparem que desta vez não se trata dum descuido discursivo diante dum microfone de ocasião. O ministro palestrava na Universidade do Minho. O templo da sabedoria para testemunhar uma nova clarividência sobre as moléstias da nação.

Digo um salto qualitativo, porque não é de agora a popularidade do saber psiquiátrico entre o público em geral e os políticos em particular.

Desde a publicação, no século XIX, dos primeiros manuais de doenças mentais, houve um enriquecimento crescente do vocabulário disponível para aqueles momentos em que precisamos duma palavra especial para exprimir um grito de alma.

Palavras ordinárias como palerma, estúpido, filho da p., maluco, chanfrado, foram sabiamente substituídas por idiota, imbecil, débil mental, psicopata, histérico, anormal. Tudo rigorosas categorias científicas que os psiquiatras e psicólogos se viram obrigados a substituir nos manuais ao longo dos últimos cinquenta anos para se furtarem à concorrência desleal dos diagnosticadores de rua, de tribunas e de parlamentos.

A crise veio dar novo impulso à psiquiatria politica. A palavra de ordem dos novos tempos é a criatividade e os políticos não tardaram a dar o exemplo no campo específico do diagnóstico clínico.

Na primeira fase da crise o diagnóstico mais popular foi o de autismo, inicialmente aplicado pela oposição ao governo (ainda no tempo do Sócrates) e devidamente generalizado pelos partidos entre si. É um diagnóstico pesado - uma psicose - mas a nós pouco interessa, porque só estava a afetar a classe política, que tem bons meios para se tratar.

Na fase atual o governo avançou decididamente para a psicoterapia do povo, baseando-se em diagnósticos cada vez mais refinados.

Primeiro foi a denúncia dos acantonados na "zona de conforto", os abulicamente conformados com o gozo do subsidiozinho em vez de se aventurarem pelo mundo fora. Dessa perturbação psicológica aqui deixei o devido testemunho.

Pouco depois o presidente do Banco Central Alemão veio dar o seu contributo clínico, considerando o endividamento dos povos periféricos equivalente à dependência alcoólica.

 Mais tarde, Passos Coelho teve ocasião de aperfeiçoar o diagnóstico e reprovar as atitudes "piegas" (lembram-se?). Usou um plebeísmo para não atrapalhar o povo com o diagnóstico técnico de perturbação de adaptação. A partir daí aproveitou diversas ocasiões para sessões públicas de psicoterapia: abraçar o desemprego como uma oportunidade, acreditar no poder da mente, acreditar no governo, acreditar nos mercados, acreditar na prosperidade futura. Estas são as estrelas que nos guiam na noite escura do empobrecimento presente.

Agora que  a generalidade do povo está a habituar-se àquelas terapêuticas, o ministro Relvas resolveu dar o salto em frente e sacar da cartola este diagnóstico radical de esquizofrenia, especialmente dirigido aos seus "inimigos" que se opõem à reforma das freguesias, que pelos vistos são a maioria dos autarcas.

Esquizofrenia, vejam lá. Implica delírios, alucinações, negação da realidade. O tratamento exige medicação neurolética e um internamento temporário. E depois uma psicoterapia prolongada.

Talvez por já se tomar por diretor dum gigantesco manicómio, Relvas terá recentemente ameaçado uma jornalista do Público com a divulgação da sua vida privada. Claro, tem a ficha clínica ali à mão...

Psiquiatras e psicólogos cuidem-se!... Relvas sozinho vale por vocês todos!


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Criança, mãe e cigana


A notícia  é curta e pouco esclarecedora. Pelo que o meu comentário pode não se ajustar inteiramente à situação reportada.

Uma adolescente de 13 anos, a viver num acampamento cigano, deixou de frequentar a escola por se encontrar grávida. A escola naturalmente participou o caso à CPCJ que, não tendo conseguido o seu regresso voluntário à escola, entregou o processo ao Ministério Público. Este decidiu conformar-se com o comportamento em causa, alegando que "não existe qualquer medida de promoção e proteção que se adeqúe à sua situação".

 Não há dúvida de que todos os intervenientes cumpriram o seu dever de zelo pelo cumprimento das leis da república relativas à proteção da menor. À magistratura cabe em exclusivo a tomada de decisões coercivas sobre as liberdades individuais.

Porque decidiu o Ministério Público contra as expectativas de quem lhe reportou o caso? 

O dilema ético do magistrado, a quem cabe a salvaguarda do superior interesse da menor, é este:

a)  conformar-se com os constrangimentos do ambiente familiar;  ou 

b) colocar a criança numa instituição de acolhimento por um prazo certo ou condicionado a determinadas alterações no contexto familiar.

Na primeira opção, preserva a rede afetiva básica duma adolescente certamente imatura e por acréscimo a enfrentar a experiência existencial duma gravidez para a qual não tem prontidão física nem psíquica. Em contrapartida, desiste do desenvolvimento ativo de outras competências cognitivas e comportamentais.

Na segunda opção assegura um ambiente de apoio sócio-pedagógico e de inculcação dos valores coletivos. Em contrapartida coloca em risco o bem-estar emocional da adolescente.

 Este dilema não é fácil.

Sem conhecer em detalhe os fundamentos da decisão, e os relatórios técnicos em que se baseou, receio que a frase final acima transcrita signifique uma ideia perigosa. Receio que não haver "medida de promoção e proteção que se adeqúe" possa significar: "desisto, são ciganos". 

O multiculturalismo não é a desistência da inclusão. É a inclusão por todos os meios. E a coerção também pode ser necessária, com conta, peso e medida.

domingo, 13 de maio de 2012

Fátima


Mais um treze de Maio. Fátima cheia de gente. Reportagens em vários tons.

 Apontamentos exóticos: queimaram-se 19 toneladas de cera.

Imagens chocantes: peregrinos de rastos na passadeira do cumprimento das promessas.

Nos dias anteriores outras imagens semelhantes: pagadores de promessas no limite da resistência por centenas de quilómetros a caminhar.

Os responsáveis da igreja católica resguardam-se na ambiguidade.

Não se vêem padres ou bispos a imolarem o corpo no cumprimento de promessas. Ora não acredito que eles não passem também por momentos de aflição como os demais crentes. Mas eles sabem que os evangelhos têm muitas censuras à autoflagelação, especialmente quando feita em público. Eles sabem que a penitência advogada por Cristo é socorrer o próximo nas suas tribulações.

Pergunto-me porque não querem ou não ousam dizer a esses penitentes que só um deus sádico poderia comprazer-se com o sofrimento inútil dos homens e das mulheres.

Pergunto-me porque aprovam indiretamente tal degradação do comportamento humano ao construírem no recinto uma passadeira de pedra para tal fim, antecedida de um cartaz com uma sugestão de oração antes de cumprir a promessa.

Pergunto-me porque não ensinam que as promessas sacrificiais feitas no meio duma aflição devem ser convertidas num serviço de amor ao próximo para assim se tornarem agradáveis a Deus e a Maria Sua Mãe.

Sei que há pessoas que resistem a varrer das suas mentes este Deus tirânico, mas é obrigação dos líderes religiosos fazerem uma pedagogia ativa e persistente pelos valores do Evangelho. Não se desculpem com o respeito pela religiosidade popular. Isto não é respeito. É cumplicidade com atentados antievangélicos  à dignidade humana.



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Patrulha escolar


Li no "Público" de 05 de Maio esta notícia,  que merece alguma reflexão.

Vamos por partes.

1. Os professores duma escola do 1º ciclo tiveram a iniciativa de criar uma "patrulha de segurança". 

A patrulha é constituída por alunos, identificados por uma t-shirt e coordenados por professores, competindo-lhe a prevenção de situações críticas entre os colegas no decorrer do recreio. 

Propósito sensato e pedagógico. Trata-se da idade em que as crianças fazem o percurso de internalização das normas morais, passando da mera obediência à autoridade para a compreensão dos fundamentos e das vantagens da existência de normas.

Assim, a experiência de as normas lhes serem lembradas pelos seus pares pode seguramente acelerar a compreensão do valor intrínseco da norma, independentemente do poder de quem verifica o seu cumprimento.

2. Um grupo de pais de alunos de 10 anos (uma turma do 4º ano), achou que este era um projeto perigoso.

Segundo a notícia, os pais invocam três óbices:

1)  A iniciativa é propiciadora de "situações de bullying". 
 Ou seja, advertir o colega que está a cometer "agressões verbais ou físicas" pode  levar a que ele responda com dois tabefes a quem o está a advertir. Ou será que a advertência é que é um acto de bullying?

2) As crianças não devem ser incentivadas a espiar e denunciar colegas.
Ou seja, tomar nota, de forma pública e ostensiva, dum comportamento inadequado é um inaceitável ato de espionagem.

3) As crianças têm direito ao intervalo para brincar.
Sem dúvida. Só que a brincadeira não é incompatível com a responsabilidade. E depreende-se que as crianças não eram forçadas a inscreverem-se nas "patrulhas".

Estas três objeções trazem-me irresistivelmente à lembrança os encontros quotidianos com a exemplaríssima cidadania que estes pais representam e que querem cultivar nos seus filhos.
 
 - O meu vizinho dá pancada de criar bicho na mulher e nas crianças. Ainda por cima é um desses espertinhos que meteu o subsídio de desemprego e continua a ir trabalhar para o mesmo patrão.
 
- E tu não lhe dizes nada?
 
- Era o que faltava? Ainda apanhava também por conta. 
 
- Então comunica às autoridades.
 
- Que ideia! Não sou nenhum bufo! Prezo muito a minha dignidade. Além do mais, não sei porque te conto isto. Tenho é de tratar da minha vidinha. 
 
Curioso é o resultado da queixa dos pais de Portimão. A Inspeção de Educação recomenda à escola que seja cuidadosa no envolvimento dos pais nos seus projetos. A escola respondeu à advertência suspendendo o projeto nesta turma, e só nesta.

Do mal o menos. Mas dá para pensar porque é que tanto nos queixamos de que os funcionários públicos ficam no seu cantinho a fazer os mínimos. É o "sistema" que lhes pede que não façam ondas...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Meninos rabinos


"Esgotou o medicamento para a concentração" - titulou há dias um jornal.

"Falta de medicamento para concentração pode levar crianças a chumbar"  - corroborava outro.

Esmiuçando a notícia, fiquei a saber algo mais prosaico.  O fármaco  psicoestimulante denominado metilfenidato, comercializado há mais de 50 anos com o nome de Ritalina, tem a patente livre e está no mercado com outros dois nomes: Concerta e Rubifen. Este último é o mais barato e o que está temporariamente ausente das farmácias. Com natural indignação dos utilizadores que vêem comprometida a continuidade do tratamento.

O metilfenidato é há dezenas de anos a escolha farmacológica para a Perturbação da hiperatividade e défice de atenção (PHDA)

Trata-se duma designação quase tão extensa como o caudal de energia que transborda das crianças que a têm. Só que o diagnóstico não é fácil, e esta medicação é um recurso que só deve ser adotado depois duma cuidadosa abordagem pedagógica, psicológica e psicoterapêutica e em apoio temporário dessa abordagem.

Fiquei por isso assarapantado quando ouvi um pai dizer ao jornalista: "Agora vou ter de guardar o Rubifen para a época dos exames". Assim à moda dos nossos conhecidos que dizem: "Pois, estou em baixo, quando chegar a casa vou tomar o meu Prozac".

O jornal acrescentava que o consumo do fármaco aumentou muito nos últimos anos e rondará atualmente as 200.000 unidades por ano. Arrisco-me a fazer as minhas contas. Se cada embalagem dá para um a dois meses, então haverá em permanência umas 30.000 crianças a tomá-lo. O que poderá corresponder a 5% das crianças entre os 6 e os 12 anos, a faixa etária mais afetada pela PHDA.

Considerando que a medicação deve ser periodicamente revista e ensaiada a sua retirada, este número inquieta-me (ressalvando que a minha estimativa assenta em dados muito precários).

O certo é que as afirmações de médicos e pais, da forma transcrita na imprensa, me deixaram a sensação de que o medicamento é (quase) tudo.

Que a tranquilidade doméstica e escolar possa ser adquirida na botica é o sonho dourado da sociedade moderna. (Bem, na sociedade antiga o panorama não era melhor: ia-se aos curandeiros e às mulheres de virtude e, em recurso menos envergonhado, faziam-se promessas aos santos mais cotados).

As  crianças muito ativas e distraídas não cabem todas no diagnóstico de PHDA. Mas todas, em muitos momentos, põem os cabelos em pé aos seus pais e educadores.

E em tais momentos é natural que sintam não ser a âncora de tranquilo afeto que a criança requer. É natural que se interroguem sobre se os problemas da criança são uma consequência da sua inabilidade como pais. Tudo junto e continuado pode gerar uma nebulosa de culpabilidade, percebida subliminarmente pela criança  e que vai agravar o seu problema.

É neste contexto que a intervenção médico-psicológica é chamada à liça. Um exercício difícil para todas as partes. Com o objetivo de servir o desenvolvimento integral da criança. 

Pode haver eventualmente recurso a fármacos para a criança ou os pais. Mas o que é de longe o mais importante é o reencontrro de cada um com a sua verdade interior, a preservação duma relação afetiva a toda a prova e a adoção de estratégias relacionais em conformidade com uma rigorosa avaliação contextual.

São as crianças difíceis que fazem crescer para a maturidade os pais e os professores. A farmácia pode ser um ponto de passagem. Mas não o ponto de partida ou de chegada.




Novas culpas


Não é meu costume ceder o meu lugar a outrem, mas hoje abro uma exceção.

Porque concordo completamente com este catálogo de culpas   tão bem achado pelo Pacheco Pereira.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Pingo Descarado


Não gosto de me meter nos ruídos de ocasião e hesitei por isso em falar do golpe "pingo doce".

Com uma só cajadada a empresa do comendador Alexandre matou vários coelhos:

a) Entalou os sindicatos que diziam não haver procura que justificasse a abertura das lojas;

b) Entalou os trabalhadores revoltados com a perda do descanso, obrigando-os a trabalhar mais do que pudessem imaginar;

c) Entalou os partidos de esquerda, pondo-os a criticar um abaixamento dos preços, ao arrepio do seu combate contra a carestia da vida;

d) Conseguiu uma visibilidade superior à duma campanha publicitária formal, possivelmente com menos custos.

Será que ganhou em toda a linha?

Talvez não! 

O cliente que aproveita um brinde não é necessariamente um cliente fiel. Aproveita, mas não deixa de sentir que está a ser humilhado e utilizado para outros objetivos.

O cliente aproveita, mas não é estúpido e percebe a contradição dum comerciante que assentou até agora toda a estratégia em colar-se às cadeias dos "preços sempre baixos". E a contradição abala a confiança.

Falta ainda saber quem foi o principal financiador do desconto. É de temer que, como de costume, tenham sido os produtores, chantageados na sua pequenez e dispersão. 

Declaração de interesses: Falo como espectador. Deixei de entrar em lojas Pingo Doce desde que me saturei dos sermões moralistas e patrioteiros do senhor Alexandre. Provavelmente tenho de voltar a Max Weber para compreender capitalistas como ele que se gabam de ser virtuosos e se envergonham de ser ricos. Perseguidos pelo fisco, explorados pelos trabalhadores e roubados pelos clientes, só prosperam por obra e graça do seu trabalho insano em prol da comunidade.