Passos, com o seu acólito Gaspar (ou vice-versa), assumiu convictamente a missão redentora da nação portuguesa. Achou-a gorda, preguiçosa e gastadora e prometeu submetê-la a uma dieta rigorosa, para a tornar magra, laboriosa e atraente aos gulosos mercados internacionais.
A nação, em vez de agradecer, resmunga e esperneia. Passos ficou despeitado com a ingratridão, mas reagiu como um estadista de alto gabarito: "quero se lixe o povo mais as suas eleições; eu quero é agradar aos investidores".
Para meu mal e deceção dele, a dieta curativa não está a resultar. A nação come pouco mas produz ainda menos.
Em desespero de causa, Passos desatou a ralhar com toda a gente. A ralhar com os velhos que se obstinam em receber a pensão sem se preocuparem donde venha o dinheiro. A ralhar com os novos porque ficam confortavelmente na casinha dos pais à espera de emprego quando o mundo inteiro é uma cornucópia de oportunidades. A ralhar com os desempregados porque se agarram obscenamente ao subsídio em vez de arregaçarem as mangas e criarem o seu emprego. A ralhar com os doentes porque têm a desfaçatez de adoecerem em vez de se apoquentarem com os custos do SNS. A ralhar com os funcionários públicos porque são uma despesa incomportável. A ralhar com os trabalhadores privados porque querem férias, feriados, horários de trabalho, em vez de fazerem uma manifestação de agradecimento por terem emprego. A ralhar com os empresários porque não quiseram reter para si 6% dos salários que pagam. A ralhar com a Constituição porque empata a governação.
Ao fim de ano e meio a descartar grupo a grupo todos os portugueses com que não pode contar, Passos descobriu finalmente, com o rigor dum experimentado cientista social, que Portugal não é uma nação à altura dos seus estadistas.
Que fazer? Pois se a nação não está à altura, refunda-se a nação.
É um programa ainda pouco claro, mas vamos enxergando os contornos. Como ele diz, trata-se de aprender com os erros do passado.
Vou então tentar captar a essência da coisa.
A fundação foi há quase nove séculos. Como é sabido, um disparate de Afonso Henriques. Em vez de assumir responsavelmente as funções de conde portucalense, revoltou-se contra a própria mãe e arvorou-se em rei, inaugurando o terrível vício de viver acima das possibilidades. Arrastou o povo atrás da sua mania das grandezas e anexou sem critério cidades e territórios até chegar às portas do Algarve.
Claro, fundou uma nação assente no despesismo. Despesas militares, construção de castelos, vias de comunicação, dotações de igrejas e mosteiros, isenções fiscais aos povoadores. Enfim, uma governação catastrófica.
Foi o próprio rei Afonso que lançou as primeiras PPR (parcerias público-religiosas), como por exemplo os mosteiros de Santa Cruz e de Alcobaça, que ainda hoje pesam sobre o contribuinte. Fosse em investimento direto ou em parceria, ele e os seus sucessores não se coibiram de sobrecarregar a nossa geração de encargos sem fim, com castelos, igrejas, mosteiros e palácios. Dão-nos montes de despesas, lucros zero.
Três séculos depois de Afonso, quando não havia no país mais sítio onde enterrar o dinheiro do contribuinte, mandaram os reis zarpar brutas armadas pelo mar adiante e a partir daí foi uma despesa louca em fortalezas, igrejas e palácios por terras da América, da África, da Ásia e da Oceania. Muita festa, muitos tachos, muitos empregos, muito viver acima das possibilidades, e outra vez os encargos para as gerações seguintes. Valha-nos ao menos que a manutenção dos investimentos de além mar já não corre por nossa conta.
A nação aprendeu com estes erros? Não, pelo contrário. Nos últimos 150 anos os governantes levaram ao limite os vícios despesistas herdados do rei Afonso. Mal o contribuinte acaba de nascer o INE calcula logo quanto é que lhe cabe pagar do que foi gasto a fazer hospitais, escolas, tribunais, prisões, esquadras, quartéis, estradas, pontes, barragens, caminhos-de-ferro, e mais os juros de tudo isso.
Refundar a nação é acabar com este regabofe. É preparar o momento em que cada português nasce com a conta a zeros. Nada deve, mas também nada tem. Se quiser dinheiro trabalha; se precisar de bens ou serviços paga. Cada um por si e ninguém por todos.
Refundar é, para estes aprendizes, rebobinar a história em busca do tempo perdido da aurea mediocritas, a simplicidade dourada de que fala o poeta Horácio, cansado das confusões da Roma imperial.
Refundar é desfazermo-nos rapidamente do que nos traz ilusões de ricos. Vender primeiro o que dá lucro: eletricidade, aeroportos, seguros, águas, correios, etc.
Depois, despachar de qualquer jeito o que dá prejuízo. Há por todo o mundo capitalistas excêntricos que têm dinheiro para tudo. Se compram clubes de futebol também não se hão-de importar de comprar o Mosteiro dos Jerónimos, o Metro do Porto, a Universidade de Lisboa, o Hospital de S. João e tantas outras entidades públicas que todos os anos estendem a mão à generosidade do contribuinte. Para já não falar das muitas matas e baldios que podemos vender para campos de golfe e resorts de luxo.
Se tudo isto, acrescentado dos nossos impostos ordinários e extraordinários, não chegar para acerto de contas com os credores, resta-nos ainda leiloar o hino e a bandeira, vender a rede de embaixadas e consulados, e refundarmos o modesto protetorado de Espanha donde o ambicioso rei Afonso nunca nos deveria ter arrancado.