segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

(E)ternamente


Nem os rios caudalosos conseguirão submergir o amor  (Cântico dos cânticos, 8,7)



Pela manhã
Nos encontrámos
E doce foi
O teu calor;
Pelo meio-dia
Nos abraçámos,
Foi brisa fresca
O teu amor.
Se a tarde encolhe
A luz no céu,
Dentro de nós
Outro fulgor
Arde sem fim.
Mãos enlaçadas
Somos tu e eu:
Amor sem tempo,
Sonhos ao vento
Selva e jardim.
Só sei de mim
Se estás comigo:
Apoio sereno,
Coração terno,
No entardecer
Que a nós vem ter.
Sonho com sonho,
A vida é nossa,
Juntos iremos,
Juntos bebemos
Cada sabor
Dum eterno amor.
 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Natalidade em excesso


Espanta-me que esta estranha notícia tenha merecido tão pouca atenção dos media. Talvez porque, quando se trata de proteger crianças, os jornalistas achem que todas as decisões são boas. Mas não são.

Um casal ainda em idade fértil tem 10 filhos.
Sete das crianças, "com idades entre os seis meses e os sete anos, foram sujeitas à medida de protecção de menores mais extrema: dadas à confiança para adopção, perdendo todos os vínculos parentais para sempre.
A sentença determinou que as filhas mais velhas ainda menores, na altura com 16 e 11 anos, ficassem com os pais. Mas o tribunal entendeu que a menor de seis meses, os gémeos de dois anos e os irmãos de três, cinco, seis e sete anos estavam em risco, e resolveu retirá-los de casa.
 
No processo, não há qualquer referência a maus-tratos físicos ou psicológicos ou a outro tipo de abusos. Na sentença, a que o SOL teve acesso, considera-se mesmo que há laços de afectividade fortes na família e refere-se que as filhas mais velhas têm sucesso escolar e estão bem integradas no seu ambiente social. A decisão do Tribunal de Sintra sustenta-se nas dificuldades económicas da família e no facto de a mãe ter desrespeitado o acordo de promoção e protecção de menores ao recusar-se a laquear as trompas.
«Tinha de arranjar emprego, zelar pela higiene e vestuário das crianças, assegurar a pontualidade e a assiduidade deles na escola, ter em dia os planos de vacinação e fazer uma laqueação das trompas», conta a mãe, lembrando que deixou claro ao juiz que, por ser muçulmana, não se poderia submeter a essa operação. «O que o juiz me disse foi que tínhamos de deixar em África os nossos hábitos e tradições e que aqui tínhamos de nos adaptar».

 Mesmo sem conhecer em detalhe a fundamentação da decisão tomada, há nesta história vasta matéria para reflexão.

 Famílias numerosas: virtude ou preconceito?

Também em minha casa éramos 10 irmãos. Coisa frequente em meados do século XX. Aliás seríamos 11 se não tivéssemos perdido o António na idade de 5 anos, vítima duma infeção que o médico não debelou. Aos 90 anos o meu pai ainda evocava essa perda como o maior fracasso da sua vida.
Parece-me que nos meus pais a parentalidade era uma missão, mais importante do que o sucesso material. O trabalho e os bens serviam para a missão parental e para deixar aos filhos, se possível, um pé-de-meia. Assim era também em muitas outras famílias. Era de certo modo uma marca cultural.

Mas havia também casais que geravam filhos ao descaso. E isso alimentava o preconceito de que as famílias numerosas eram umas irresponsáveis que criavam os filhos ao calhas.

Os crescentes custos duma vida familiar de qualidade e a relativização do valor da parentalidade, em que se destacam os alertas de superpopulação mundial, levaram ao declínio rápido do número de filhos. 

Hoje a família numerosa tornou-se uma raridade que tem alguns praticantes convictos entre a classe média, mais alguns por dever religioso, e mais uns tantos que ainda acham que a prole lhes dá algum poder negocial nos apoios públicos e na caridade privada.
Pelos vistos os técnicos que acompanharam esta família não estavam para dissertações sociológicas e subscreveram logo a última hipótese.

Direito à procriação?

Estes decisores parecem entender que o direito à procriação tem por limite o orçamento do casal. Não está mal pensado. Se um empréstimo bancário é sempre analisado em função dos nossos rendimentos, também doravante (a crise obriga) deveremos assegurar-nos junto dos técnicos competentes se temos direito a subscrever um aumento da prole.

No caso vertente, a resposta  não foi apenas negativa. A resposta incluiu a liquidação retroativa do património de filhos anteriormente gerado. Não estou a fazer humor: a entrega para adopção plena é a liquidação do vínculo destas crianças com os pais.

Não está explicado porque é que a contraceção teria de fazer-se por laqueação das trompas. Mas é claro que nenhum médico acataria uma ordem judicial para executar tal operação contra a vontade da cidadã. Daí que o juiz tenha optado pela chantagem emocional. Pelos vistos sem resultado, já que a objeção religiosa foi mais forte. Objeção que nem sequer é estranha. Uma católica cumpridora estaria obrigada a idêntica atitude.

Proteção das crianças?

A retirada das crianças só pode ter por justificação a sua proteção. O que é estranho neste caso é que, segundo a notícia, as crianças eram pobres mas não negligenciadas. Por outro lado, as crianças não seriam retiradas se a mãe aceitasse a esterilização cirúrgica. Portanto a retirada das crianças é uma retaliação pela rebeldia da mãe, e não um ato de proteção.

Curiosamente a mãe refere que aceitou todas as condições, menos a laqueação. E não eram pequenas condições: cuidar bem de todos os filhos (alimentação, higiene, assiduidade escolar, cuidados de saúde) e ainda tratar de arranjar emprego. Mas nada disso ela recusou. Apenas recusou a laqueação. 
 

A peste que nos mata


Não é só dentro da nossa porta que se instalou o mandamento novo: amai os mercados financeiros sobre todas as coisas; por amor dos mercados deveis estar prontos a todos os sacrifícios, até a morrer se necessário.

Esta doutrina não é original mas continua a alastrar como uma peste a todos cantos do mundo. O  ministro japonês das finanças acabou de tomar posse e já deu o mote para uma governação de sucesso.

"Deus queira que (os idosos) não sejam forçados a viver até quando quiserem morrer" disse Taro Aso durante uma reunião, em Tóquio, sobre as reformas da segurança social.
"O problema não tem solução, a não ser que os deixemos morrer, e depressa".

 O ministro japonês ao menos foi direto ao assunto. Por cá há quem fale mais devagar e embrulhe as palavras com mais cuidadinho...


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

À espera da OCDE


Conhecemos a metodologia do FMI. A Srª Lagarde a fazer discursos alertando para os efeitos perversos duma austeridade a todo o custo e ao mesmo tempo os seus rapazes a virem caucionar cada vez mais austeridade, culminando com um relatório de encomenda a mandar cortar a eito em tudo o que mexe.

Depois soubemos que o governo não quer apenas a bíblia do FMI e pediu também uma inspiração à OCDE. E os jornais "revelaram" que o relatório a fazer pela OCDE  só pode recomendar a mesma coisa que o do FMI.

Preparava-me para me esquecer deste espetáculo de ver instituições intergovernamentais a fazerem fretes aos governos dos países sócios, quando me saltou aos olhos um documento de trabalho (working paper) da OCDE, datado de setembro último, intitulado: Portugal: solid foundations for a sustainable fiscal consolidation - Portugal: fundações sólidas para uma consolidação fiscal sustentável.

Como era de esperar as notícias não são boas. Mas as linhas de ação apontadas neste documento não têm nenhuma coincidência com as do triste relatório do FMI.

"Devido ao crescimento lento (...) a dívida pública portuguesa tinha vindo a avolumar-se durante quase uma década quando rebentou a crise global que aumentou fortemente o défice. A perda de confiança na dívida soberana portuguesa e noutras da zona euro requereu apoio financeiro internacional. O fraco desempenho fiscal reflete um largo leque de problemas estruturais que resultam em fraco controlo da despesa. Tanto a nível central como local esta compõe-se da acumulação não transparente de dívidas e obrigações futuras pela via das parcerias público-privadas (PPP) e dos passivos do setor empresarial do estado (SEE). (...)
Num contexto de fraca procura do setor privado, a capacidade do governo para reganhar controlo sobre a dívida pública depende crucialmente de evitar o crescimento da despesa. Isto requer o reforço das medidas fiscais para melhorar o controlo da despesa pública, enfrentando o pagamento das dívidas e evitando surpresas negativas no passivo do SEE, das PPP e na administração regional e local.
O sucesso do programa requer também a manutenção do consenso social sobre ele, principalmente pela atenção contínua às suas implicações para os mais pobres.
Se o crescimento for mais baixo do que o previsto no programa, os estabilizadores automáticos poderão conseguir reduzir ao menos parcialmente os riscos duma recessão mais profunda e o agravamento do desemprego". (sublinhados meus)

Os estabilizadores automáticos são, na linguagem dos economistas, os mecanismos como o subsídio de desemprego e as prestações sociais que nos períodos de crise suavizam a redução do consumo, evitando assim que se entre numa espiral recessiva.

Não é de crer que os rapazes do FMI/troika não saibam isto. Portanto, se eles recomendam precisamente que se mandem mais pessoas para o desemprego e se reduza o subsídio de desemprego e outros apoios sociais, então temos de acreditar que o seu objetivo é o aprofundamento da recessão. Ou seja, tinham-nos prometido o empobrecimento e continuam firmemente empenhados em consegui-lo. 

Será que a OCDE vai fazer o jeito ao cliente português e descobre algum técnico que escreva um relatório ao contrário deste documento de trabalho?

Fico à espera do próximo capítulo desta triste novela.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Educação da palmada


Envergonho-me de que no meu país seja proferida  esta sentença. Uma funcionária dum lar residencial para pessoas com deficiência conseguiu que fosse condenada a instituição que a despediu porque, em duas situações concretas, usou de violência para impor a residentes o comportamento desejado. Num caso enfiou à força um iogurte na boca. Noutro caso deu uma palmada a alguém que se recusava a tomar banho.

Envergonho-me mas não me espanto. Normalizar à força faz parte das nossas melhores tradições. A ditadura de Salazar floresceu sobre a memória da santa inquisição. E na presente conjuntura não faltam os saudosos do autoritarismo salazarista para impor um rumo à nação, "custe o que custar".

Certo é que famílias, microgrupos ou grandes comunidades necessitam de coesão. A coesão assenta sobre a aceitação comum de determinadas regras. O que distingue os grupos humanos dos outros animais é que a coesão não se baseia primariamente na força mas na persuasão.

Com  o progresso da civilização fomos incorporando alguns ensinamentos dos grandes mestres do passado. Fomos aprendendo que a coesão não precisa de unanimismo, e que um grupo será tanto mais um espaço de realização pessoal quanto maior a sua abertura às diferenças individuais. O uso da força deve restringir-se à salvaguarda da integridade física e psicológica dos membros do grupo.

Esta restrição ao uso da força adquire a máxima importância quando lidamos com crianças ou com pessoas com deficiência cognitiva. Porque aí os cuidadores são também modelos de aprendizagem. Se respondem à dissensão com a imposição violenta da norma estão a ensinar que as dissensões se resolvem pelo poder do mais forte. Mais ainda, estão a ensinar que o mais forte é que dita a lei.

As duas situações apreciadas pelo tribunal reportavam-se a comportamentos de auto-cuidado que não envolviam nenhum perigo para si nem para os outros. Havia todo o tempo para a negociação e a persuasão. Por isso não tem qualquer cabimento a alegação da juíza de que, cito, a palmada no rabo “não foi totalmente gratuita, desproporcionada ou excessiva” e (...) a força física (pode ser) “utilizada por alguém que, de alguma forma, até por ser mais velho, disciplina e orienta em termos educacionais".

Esta falta de senso dum magistrado é uma triste amostra da confusão reinante  em muitas cabeças letradas. Acham elas que tais palmadas são o remédio santo contra a indisciplina da juventude e a criminalidade dos adultos. Eu acho o contrário. Estas palmadas têm implícita a seguinte mensagem ao castigado: assim deverás fazer quando um dia fores contrariado pelo teu companheiro ou pelo teu subordinado.

 Estou preocupado, como toda gente, com as ocorrências de indisciplina nas famílias, nas escolas e nas ruas. Mas os disciplinados, que são felizmente a maioria, não são os que levaram palmadas; são os que tiveram um ensino consistente dos seus deveres num ambiente acolhedor.  Os indisciplinados ou foram vítimas de palmadas ou foram vítimas duma "educação"  desorientada e titubeante que não soube o que dar nem exigir.

 

Bruxos?


Depois do fabuloso relatório do FMI sobre a "refundação" do estado, o primeiro-ministro veio apaziguar os clamores públicos dizendo que aquilo não é a "bíblia" do governo. E acrescentou já ter pedido um outro relatório à OCDE sobre a matéria, para enfim ter outro menu à escolha.

A OCDE tratou de responder que não sabia de nada. Mas pouco depois anunciava-se que o imparável Carlos Moedas iria de facto reunir-se com uma delegação  daquele organismo para preparar o pedido formal do dito relatório sobre a reforma do estado português que, diz-se, poderá levar 3 a 6 meses até estar concluído.

O que é verdadeiramente espantoso é que o autor da  notícia sobre o relatório da OCDE, publicada no DN, já sabe as conclusões do relatório que ainda não começou a ser redigido:

Cortes no subsídio de desemprego de quem tem mais anos de trabalho, redução dos salários públicos, com especial incidência nos funcionários menos qualificados, e aumento do horário de trabalho serão três propostas que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) deverá verter dentro de alguns meses num estudo sobre a reforma do Estado.

Infelizmente o jornal vai acertar. E não por ser bruxo. 

Pelos vistos tanto o FMI como a OCDE prestam-se alegremente a escrever conforme a encomenda do cliente. Costuma dizer-se: Quem paga é que manda. Só que neste caso o Pedro manda, mas quem paga é o Zé... Paga o relatório e paga as consequências do relatório... Que raio de sina!...

sábado, 12 de janeiro de 2013

O relatório dos pantomineiros


A minha mãe era uma mulher resiliente, não tivesse ela levado a bom porto a criação de dez filhos com um rigor educativo que, se bem lembro, não precisou de recorrer a palmadas. Mas havia ocasiões em que a sua paciência atingia os limites e a fazia descambar para a linguagem vulgar. Tal era o caso dos bem-falantes de qualquer espécie que a quisessem enrolar ou simplesmente a fizessem perder tempo.

Os qualificativos que ela usava variavam consoante os  casos. O fala-barato inofensivo, que discorre infindamente sobre tudo sem nada dizer, é o caga-lérias. O emproado que esmaga o ouvinte com o seu discurso rebuscado é o bacharel (sem dúvida uma certeira avaliação do povo ao ensino universitário tradicional). Estas duas categorias de pessoas podem ser chatas ou agradáveis, conforme a disposição do ouvinte. Mas são inofensivas.

Perigoso é o pantomineiro. O pantomineiro não se limita a debitar palavras; tem uma comunicação encenada e articulada para capturar o ouvinte. O pantomineiro armadilha-nos para nos impingir uma coisa ou uma ideia. Um vendedor honesto diz: tenho um produto que talvez lhe seja útil. O vendedor pantomineiro diz: eu não lhe quero vender nada mas há uma série de coisas que você ignora e que eu quero generosamente ensinar-lhe.
Curiosamente há pessoas tão distraídas que não se importam de ser insultadas de ignorantes por um estranho que simplesmente lhes quer ir ao bolso. Mas a minha mãe importava-se. E por isso me lembrei tanto dela quando li o relatório duns pantomineiros do FMI com o título "Repensando o Estado - seleção de opções para a reforma da despesa" (Rethinking the state - selected expenditure reform options).

Os autores tratam de esclarecer que a encomenda do governo era, em português, a "refundação do estado" (cf. nº 22). Pelos vistos tiveram a modéstia de não assumir em inglês tamanha ambição: "State's re-foundation".

Como bons pantomineiros definem logo à partida um objetivo fantástico: ensinar o governo a gastar menos, e a distribuir os mesmos benefícios com mais equidade.

O receituário é tão simples que qualquer taxista conseguiria algo parecido (certamente de modo menos sádico!).

Então porque precisaram de 3 meses para escrever o relatório? Porque foi preciso muita imaginação para descobrir factos e números que dessem às propostas uma aparência de cientificidade.

Eis uma amostra do famoso milagre que vai equilibrar as contas do país:

1) Despedir 10 a 20% dos funcionários públicos (sem indemnização, porque fica muito cara);

2) Baixar até 7% todos os salários da função pública;

3) Baixar em média 10%  as pensões acima do salário mínimo, ou cortar definitivamente o 13º e 14º mês;

4) Aumentar as taxas moderadoras da saúde para um terço do custo real do serviço;

5) Incentivar a transferência da educação para as escolas privadas; subir as propinas universitárias;
 
6) Reduzir o valor e a duração do subsídio de desemprego;

7) Rever todos os benefícios sociais e cortar o abono de família do 3º escalão (rendimentos acima do salário mínimo, que aliás eles dizem ser demasiado elevado) e a todos os que têm mais de 18 anos (como se sabe, já têm corpo para trabalhar).

O relatório não diz uma palavra sobre como arranjar empregos para todos estes irradiados da "mama" do estado. Mas alonga-se em fundamentações das suas sábias medidas. Na minha rápida (e única) leitura houve duas fundamentações que me encantaram pelo seu "rigor".

1. As escolas privadas são melhores porque, nas 50 escolas com melhores médias, há 40 que são privadas e apenas 10 são públicas. Que esperteza! Comparar escolas que selecionam os alunos com aquelas que são de acesso universal.

2. Sobre os apoios à maternidade e à infância, o relatório refere dois estudos de países onde o reforço dos apoios não aumentou significativamente a natalidade. Conclusão fantástica: não é pelo dinheiro que as pessoas querem ter filhos; podem cortar à vontade para não desincentivarem as mães de procurar emprego.

Mas, atenção, estes pantomineiros não são insensíveis. Advertem duas vezes que as poupanças com o subsídio de desemprego e com o abono de família devem em parte ser canalizadas para uma rede de apoio social. 

Conclusão: abaixo a subsidiodependência! Viva a sopa dos pobres!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Governo zangado quer refundar a nação


Passos, com o seu acólito Gaspar (ou vice-versa), assumiu convictamente a missão redentora da nação portuguesa. Achou-a gorda, preguiçosa e gastadora e prometeu submetê-la a uma dieta rigorosa, para a tornar magra, laboriosa e atraente aos gulosos mercados internacionais.

A nação, em vez de agradecer, resmunga e esperneia. Passos ficou despeitado com a ingratridão, mas reagiu como um estadista de alto gabarito: "quero se lixe o povo mais as suas eleições; eu quero é agradar aos investidores".

Para meu mal e deceção dele, a dieta curativa não está a resultar. A nação come pouco mas produz ainda menos. 

Em desespero de causa, Passos desatou a ralhar com toda a gente. A ralhar com os velhos que se obstinam em receber a pensão sem se preocuparem donde venha o dinheiro. A ralhar com os novos porque ficam confortavelmente na casinha dos pais à espera de emprego quando o mundo inteiro é uma cornucópia de oportunidades. A ralhar com os desempregados porque se agarram obscenamente ao subsídio em vez de arregaçarem as mangas e criarem o seu emprego. A ralhar com os doentes porque têm a desfaçatez de adoecerem em vez de se apoquentarem com os custos do SNS. A ralhar com os funcionários públicos porque são uma despesa incomportável. A ralhar com os trabalhadores privados porque querem férias, feriados, horários de trabalho, em vez de fazerem uma manifestação de agradecimento por terem emprego. A ralhar com os empresários porque não quiseram reter para si 6% dos salários que pagam. A ralhar com a Constituição porque empata a governação.

Ao fim de ano e meio a descartar grupo a grupo todos os portugueses com que não pode contar, Passos descobriu finalmente, com o rigor dum experimentado cientista social, que Portugal não é uma nação à altura dos seus estadistas.

Que fazer? Pois se a nação não está à altura, refunda-se a nação

É um programa ainda pouco claro, mas vamos enxergando os contornos. Como ele diz, trata-se de aprender com os erros do passado.

Vou então tentar captar a essência da coisa.

A fundação foi há quase nove séculos. Como é sabido, um disparate de Afonso Henriques. Em vez de assumir responsavelmente as funções de conde portucalense, revoltou-se contra a própria mãe e arvorou-se em rei, inaugurando o terrível vício de viver acima das possibilidades. Arrastou o povo atrás da sua mania das grandezas e anexou sem critério cidades e territórios até chegar às portas do Algarve.

Claro, fundou uma nação assente no despesismo. Despesas militares, construção de castelos, vias de comunicação, dotações de igrejas e mosteiros, isenções fiscais aos povoadores. Enfim, uma governação catastrófica.

Foi o próprio rei Afonso que lançou as primeiras PPR (parcerias público-religiosas), como por exemplo os mosteiros de Santa Cruz e de Alcobaça, que ainda hoje pesam sobre o contribuinte. Fosse em investimento direto ou em parceria, ele e os seus sucessores não se coibiram de sobrecarregar a nossa geração de encargos sem fim, com castelos, igrejas, mosteiros e palácios. Dão-nos montes de despesas, lucros zero.

Três séculos depois de Afonso, quando não havia no país mais sítio onde enterrar o dinheiro do contribuinte, mandaram os reis zarpar brutas armadas pelo mar adiante e a partir daí foi uma despesa louca em fortalezas, igrejas e palácios por terras da América, da África, da Ásia e da Oceania. Muita festa, muitos tachos, muitos empregos, muito viver acima das possibilidades, e outra vez os encargos para as gerações seguintes. Valha-nos ao menos que a manutenção dos investimentos de além mar já não corre por nossa conta.

A nação aprendeu com estes erros? Não, pelo contrário. Nos últimos 150 anos os governantes levaram ao limite os vícios despesistas herdados do rei Afonso. Mal o contribuinte acaba de nascer o INE calcula logo quanto é que lhe cabe pagar do que foi gasto a fazer hospitais, escolas, tribunais, prisões, esquadras, quartéis, estradas, pontes, barragens, caminhos-de-ferro, e mais os juros de tudo isso.

Refundar a nação é acabar com este regabofe. É preparar o momento em que cada português nasce com a conta a zeros. Nada deve, mas também nada tem. Se quiser dinheiro trabalha; se precisar de bens ou serviços paga. Cada um por si e ninguém por todos. 

Refundar é, para estes aprendizes, rebobinar a história em busca do tempo perdido da aurea mediocritas, a simplicidade dourada de que fala o poeta Horácio, cansado das confusões da Roma imperial.

Refundar é desfazermo-nos rapidamente do que nos traz ilusões de ricos. Vender primeiro o que dá lucro: eletricidade, aeroportos, seguros, águas, correios, etc. 

Depois, despachar de qualquer jeito o que dá prejuízo. Há por todo o mundo capitalistas excêntricos que têm dinheiro para tudo. Se compram clubes de futebol também não se hão-de importar de comprar o Mosteiro dos Jerónimos, o Metro do Porto, a Universidade de Lisboa, o Hospital de S. João e tantas outras entidades públicas que todos os anos estendem a mão à generosidade do contribuinte. Para já não falar das muitas matas e baldios que podemos vender para campos de golfe e resorts de luxo.

Se tudo isto, acrescentado dos nossos impostos ordinários e extraordinários, não chegar para acerto de contas com os credores, resta-nos ainda leiloar o hino e a bandeira, vender a rede de embaixadas e consulados, e refundarmos o modesto protetorado de Espanha donde o ambicioso rei Afonso nunca nos deveria ter arrancado.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Três desejos para 2013


Há um ano pus aqui as minhas Janeiras em redondilha maior. Hoje vou ser mais prosaico na formulação dos meus desejos (três, o número perfeito das antigas tradições). São desejos para mim, para os meus amigos, "para a cidade e para o mundo" (como se diz dos discursos do papa).

1º desejo
Participação comunitária

Quando o sofrimento aumenta à nossa volta, o desespero substitui a esperança e o sonho se muda em desilusão, há algo que está ao alcance de todos: ligar-se ao outro.

A ligação ao outro tem várias dimensões. Não é apenas a partilha material dos bens e o serviço solidário a quem precisa de apoio e carinho. Do que precisamos é de apropriar-nos solidariamente do espaço público, descobrir sinergias, trocar ideias e projetos, identificar as disfunções que nos matam enquanto comunidade e alavancar a sua transformação. 

Precisamos de aplicar nas comunidades a que pertencemos os conceitos de empreendedorismo e de inovação que os nossos líderes contabilistas nos recomendam para a salvação individual. É que eles pensam que a salvação da comunidade resultará da soma dos sucessos individuais. Mas nós sabemos que a comunidade só cresce quando se pensa a si própria como comunidade.

2º desejo
Clarividência política 

A clarividência política é um complemento necessário do desejo anterior.
Só há clarividência quando cada um não se preocupa apenas com a sua sobrevivência e a do seu grupo de interesses, mas com toda a comunidade. Da apropriação do espaço comunitário terá de resultar uma dinâmica de apropriação do espaço mais complexo dos mecanismos de intervenção política, que estão na mão dos partidos.

O modelo novecentista de organização política parece esgotado, mas não há alternativas à vista. É preciso gerá-las a partir das falhas do atual sistema. Daí que o caminho imediato seja obrigar as forças políticas existentes a envolverem os cidadãos mais dinâmicos das comunidades e a darem visibilidade a novas formas de fazer política.

Não precisamos de lideranças salvadoras surgidas do nevoeiro, mas de líderes caldeados na intervenção cívica de base.

3º desejo
Harmonia pessoal

Este desejo faz a coroa dos anteriores. Há outras palavras que poderiam dizer o mesmo: auto-confiança, felicidade, comunhão com os outros, sabedoria.

É um desejo difícil de realizar pelas pessoas que não vejam satisfeitas as suas necessidades básicas. Mas já todos encontrámos pessoas que estão felizes com um mínimo de bens materiais.
Não me refiro à alegria ingénua das pessoas de horizontes limitados. Falo da autêntica sabedoria de quem conhece a vida em múltiplas dimensões e faz a escolha amadurecida da aproximação à plenitude da essência humana. Falo dos que irradiam luz de dentro de si próprios e não dos que pavoneiam virtudes. Falo daqueles que estão na linha de S. Francisco de Assis, de S. João de Deus, de Gandhi, de Albert Schweitzer, do Abbé Pierre, de Agostinho da Silva.

É entre pessoas desta têmpera que poderemos achar os líderes de que precisamos para um mundo novo, assente na dignidade das pessoas e não na subjugação aos impérios económico-financeiros.