quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Bodes expiatórios


O homem lidou sempre mal com a precariedade e a finitude da vida.


Impressionado pelo caráter aparentemente aleatório das doenças do corpo e das catástrofes da natureza, o homem aderiu quase universalmente a conceções religiosas em que se considerava a si próprio como o peão duma luta infinda entre forças sobrenaturais do Bem e do Mal.

A teologia judaico-cristã progrediu pela recusa do poder equivalente das duas forças opostas e pela afirmação da omnipotência de Deus, mas até aos nossos dias hesita em aceitar ou rejeitar a existência dum super-poder maligno: Demónio ou Satanás.

A maldade humana assume dimensões tão chocantes, especialmente nos casos de guerra e de genocídios programados, que os cristãos se sentem tentados a desculpar o "silêncio" de Deus como uma incapacidade temporária em conter as forças demoníacas.

Já quanto às doenças e catástrofes naturais a inação de Deus é mais pacificamente aceite como provação purificadora no contexto do livre curso das leis da natureza globalmente harmoniosas. Isto depois de longos tempos em que foram consideradas castigos dos pecados próprios e alheios na linha das conceções bíblicas mais antigas.

Nos nossos tempos de autonomização das ciências, os crentes esclarecidos compreendem a presença de Deus como uma interpelação para as suas vidas e não como um engenheiro que se ocupa do funcionamento do universo. 

A morte do deus engenheiro, às vezes castigador ou distraído, purificou a fé dos crentes. Mas deixou em maus lençóis aqueles que recusam assumir a sua própria fragilidade e pretendem transferir para a ciência as responsabilidades do deus omnipotente e omnisciente.

Por isso encontramos a cada passo os inconformados com as derrotas dos médicos face à doença e à morte e não raro os levam à barra dos tribunais para responderem pelo seu fracasso. Vale-lhes a poderosa coesão profissional que os defende dos custos da deriva divinizante.

É mais estranho que os familiares das vítimas dum sismo, no caso o que destruiu a cidade italiana de Áquila, em 2009, tenham processado a proteção civil e os especialistas em sismologia por não terem mandado evacuar preventivamente a cidade.

A surpresa total é que a sentença do tribunal  deu provimento à acusação e condenou a seis anos de prisão seis especialistas pelo crime de homicídio por imprudência...

Curioso é o comentário de Aldo Scimia, filho duma das vítimas:  "Continuo a considerar que foi um massacre cometido pelo Estado, (...) Esperamos agora que os nossos filhos tenham vidas mais seguras".

O Estado fica assim eleito como a nova divindade gestora das leis naturais e os especialistas são os seus profetas. Profetas que ficam entregues à ira popular se o seu divino poder científico se mostrar falível.

Os sacerdotes hebreus confessavam sobre um bode os pecados do povo e depois abandonavam-no no deserto para morrer de inanição, carregando com ele as culpas da comunidade.

Em todos os tempos os grupos e sociedades encontraram entre os seus pares os bodes sobre os quais descarregaram as culpas: as bruxas, os judeus, os ciganos, os estrangeiros, os infiéis, etc.

A novidade é que agora os bodes expiatórios não são os desqualificados da sociedade mas sim aqueles que falharam no papel de deuses que lhes atribuímos.

"Que os nossos filhos tenham vidas mais seguras", ou seja, com profetas mais competentes, foi o voto de Aldo Scimia. 

Pois, meu caro Aldo, receio que a prisão dos sismólogos seja tão útil para a segurança da sua cidade como o foram para a Igreja Católica as fogueiras da inquisição.

As vidas dos seus filhos serão certamente mais seguras se os edifícios da sua cidade forem reconstruídos com padrões antisísmicos. Mas compreendo que lhe sai do bolso.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Política de cardeal


Costumo intitular-me católico em auto-gestão. O que sou como pessoa e cidadão é inseparável da minha formação católica. Foi aí que aprendi o rigor no pensamento, a ética do serviço e a coerência na ação. Infelizmente a Igreja Católica, prisioneira da sua rigidez hierárquica, não consegue praticar institucionalmente aquilo que ensina.

Enquanto me descomprometo duma fidelidade que frequentemente colide com a minha liberdade de consciência não deixo de estar atento às vozes que podem significar uma mudança de caminho e uma retomada do processo transformador desencadeado nos anos 60 pelo concílio Vaticano II. Um processo cuja dinâmica foi em poucos anos controlada pela omnipotente cúria romana, sempre pronta a antepor a segurança da lei à liberdade do espírito profético.

O meu desencanto é tal que nem sequer tencionava assinalar aqui o cinquentenário do concílio. Mesmo assim fui com gosto ao Centro de Cultura Católica do Porto ver um excelente documentário sobre o mesmo, da autoria dum jornalista italiano bem informado e clarividente. E acabei por ter paciência para ler uma entrevista do Cardeal José Policarpo à agência Ecclesia sobre o mesmo tema. Digo bem... paciência. Porque se refugia constantemente em  lugares-comuns e na recusa do risco, dizendo por exemplo que um novo Concílio seria um perigo para a Igreja, porque o anterior também causou divisões que ainda não foram digeridas. Revela-se assim o perfeito homem da estrutura, que não acredita no Espírito de Deus; o perfeito conservador, que prefere uma paz podre a um conflito purificador.


Um ou dois dias depois, em Fátima, fez declarações à imprensa que retomaram o pior do seu conservadorismo.

 «Até que ponto construímos saúde democrática com a rua a dizer como se deve governar? (…) O que está a acontecer é uma corrosão da harmonia democrática, da nossa constituição e do nosso sistema constitucional». (...) «Não se resolve nada contestando, indo para grandes manifestações».

Esta frases trouxeram-me irresistivelmente à memória o "Syllabus", o lamentável catálogo dos erros modernos, publicado há 150 anos pelo Papa Pio IX. Fui reler e lá enontrei o ERRO nº 79:

"É falso que a liberdade civil para todas as formas de culto e o poder dado a todos, de aberta e publicamente manifestar quaisquer opiniões e pensamentos, conduzem mais facilmente à corrupção dos costumes e das mentes do povo e à propagação da peste do indiferentismo".

Foi o Vaticano II que definitivamente quis inverter esta condenação, aceitando todo o conteúdo desta frase como uma conquista da nossa civilização e não como um erro.

O Cardeal Policarpo faz-nos recuar aos velhos tempos, substituindo apenas o poder eclesiástico pelo veredicto periódico das eleições. A rua que se cale. Excepto se o resultado das urnas não convier  a certos poderes instalados. Ou será que ninguém se lembra de ver os bispos a apelarem a manifestações?

O Cardeal diz mais à frente:

 «Existem sinais positivos (…) e que estes sacrifícios levarão a resultados positivos».

E num rebate de consciência (ou de hipocrisia?):

«Não nos peçam que entremos na balbúrdia das opiniões».

É claro, senhor Cardeal. Isto não é entrar na balbúrdia. Isto é tomar partido e ponto final.