domingo, 29 de setembro de 2013

Eleições autárquicas


Reflexões dum cidadão antes dos votos

 

Nem anjos nem demónios

Os velhos autarcas de carreira fazem gala dos milagres da administração de proximidade, poupadinha e eficiente.
A elite dos comentadores dos camarotes televisivos entretém-se a verberar o gigantismo tentacular da administração pública e a ridicularizar os gastos municipais em fontanários, rotundas, estádios e no exército de funcionários que é preciso para os manter de cara lavada.
Eu, que gosto de viajar pelo Portugal interior, comprazo-me nos inúmeros exemplos de preservação e renovação das cidades, vilas e aldeias. Como também me choco com os mamarrachos que não lembravam ao diabo e com o abandono a que estão votados alguns investimentos vultosos na requalificação de espaços públicos, especialmente quando a manutenção é mais complexa como são as zonas ribeirinhas.
Quanto ao ordenamento urbano, os maus exemplos de descontinuidades e de ruturas no tecido urbano são demasiados para não ter de atribuir as culpas à inadequação das leis.
Uma coisa parece certa: os autarcas são os políticos de ao pé da porta, espelho das virtudes e dos defeitos da sua comunidade. Permeáveis ao intriguismo e às influências, mas ativos e com vontade de deixar obra e bom nome.
Nem anjos nem demónios.

Mudanças de treinador

Novidade neste escrutínio é a descoberta de que muitos daqueles que julgávamos líderes da sua comunidade, e disso faziam gala por lá estarem há pelo menos uma dúzia de anos, não passavam afinal de comissários do partido e, às ordens do mesmo, pegam nas malas e vão à conquista doutras paragens. Se eles tiverem sucesso, já não deveremos falar de autarquias (governo pelos próprios) mas de heterarquias (governo por outros).
Mais curioso é que o partido do governo, que mais insistiu nesta mudança de treinadores, é o mesmo a repetir que o voto tem de pensar apenas  no governo da comunidade e não no governo do país. 
Mas afinal, se o candidato vem de fora, tem a seu crédito apenas a recomendação do partido e não o conhecimento da comunidade. Não é muito lógico pretender que o eleitor julgue o candidato sem avaliar o partido. 
Mas enfim, o eleitor que se avenha.

Independentes ou nem por isso

Junto-me às imensas vozes que reclamam uma renovação dos tecidos partidários, que mais parecem seitas com os seus sacerdotes e rituais do que emanações da participação política dos cidadãos.
A abertura  legal à participação de listas não partidárias nas eleições locais deveria dar uma sacudidela à cristalização partidária e abrir outros dinamismos cívicos e políticos.
Nos casos mais visíveis as candidaturas "independentes" são apenas dissidentes das escolhas oficiais das máquinas partidárias. Caberá aos eleitores decidir entre o candidato ortodoxo e o heterodoxo.
Poupavam dramatismos se tivessem feito umas primárias à maneira americana.

O ano zero da agregação das freguesias

A agregação das freguesias é um processo quixotesco.
Sabemos como foi. Os contabilistas da troika olharam para os números - 308  municípios e 4259 freguesias - e escreveram: "reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades" (Memorando, § 3.44). 
E o governo, com a sua chico-espertice, logo descobriu como encher o olho à troika sem afetar o sistema de poder. Menos 30% de freguesias, dizem à troika. Mas às populações garante-se que nada perderam: a casa da Junta continua aberta, continuam os funcionários e os serviços. Só não têm presidente, mas o dinheiro que se poupa na sua gratificação ainda dá para tapar uns buracos.
Afinal uma reforma só para troika ver? Ou ainda terá uns custos acrescidos de burocracia?
Quanto ao espezinhar de velhas identidades locais, isso não entra nas contas...

Promessas eleitorais

Olhei de relance para as promessas eleitorais
No passado os candidatos levaram o povo ao delírio prometendo casas aos pobres, vias rápidas aos ricos, estádios aos desportistas, terrenos de borla aos investidores, promessas que felizmente se abstinham de levar a sério.
Agora, depois de anos de lavagem cerebral contra o despesismo e o regabofe com os dinheiros públicos, eu tinha curiosidade de ver se os candidatos se dirigiam ao eleitor reivindicativo ou ao contribuinte entalado.
Não podendo prometer obra de encher o olho, prometem arranjos, requalificações viárias, apoio social. Como quem diz: vamos aos remendos, não há dinheiro para fato novo.
O mais curioso é quase todos prometerem a criação de emprego. Como? Pois as autarquias não estão também obrigadas a restrições e despedimentos?
Estamos entendidos. Como é provável que daqui a quatro anos o desemprego não esteja no nível catastrófico que hoje temos, o ganhador sempre poderá dizer que cumpriu a promessa.
É a política, senhores...
 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Vamos andando


Silenciei há meses este meu cantinho porque me senti desconfortável a expor publicamente a minha amargura contra a verborreia desconexa da maioria dos líderes de opinião na abordagem da presente crise. Crise que, convém lembrá-lo, começou por ser financeira, depois económica, e é agora também uma crise identitária, em Portugal e na Europa. Crise que revela, não a falta de dinheiro ou de crédito, mas a falta de justiça e de equidade nas relações entre as pessoas, entre as empresas e entre os povos.

As grandes mobilizações de rua, na Espanha, na Grécia, na Itália e no nosso país esmoreceram (para tranquilidade dos sacrossantos mercados). Falta-lhes um objetivo, uma visão estratégica, uma alternativa contra o conglomerado anti-humanista em que se converteu a "nova ordem" mundial. E há o efeito do cansaço, a luta individual da sobrevivência a antepor-se à batalha coletiva. Primum vivere, deinde philosophari.

Uma recente sondagem internacional colocava, sem surpresa, os portugueses entre os povos mais infelizes do mundo.

Tristes, sofredores e resignados é um retrato que se nos cola. Depressão crónica, talvez com umas escapadelas hipomaníacas para futebóis, festivais e festarolas. Fica-nos bem o Fado, com as suas letras lamurientas de amores infelizes e ausências sem fim.

Foi assim que vivemos metade do século XX sob uma ditadura triste e tranquila. É assim que nos acomodamos no presente a todos os "ajustamentos" que nos vendem como inevitáveis.

"Vamos andando" é a resposta típica do português à saudação do vizinho e o retrato perfeito deste estado de alma. Ou noutra versão mais radical: "Quando mal nunca pior".

Em dias de sorte pode ele deliciar o vizinho com um largo sorriso e uma só palavra: "Porreiro!"

Mas nos maus dias as palavras são a doer: "Nem me fale!". Ou então: "Nem queira saber!". O vizinho, ou por solidariedade ou por cusquice ou por incapacidade de fuga, vai mesmo saber o rol de tribulações daquela alma portuguesa.

Feita a catarse, volta a infelicidade ao seu nível normal. Cabisbaixos, curvados perante o destino e a autoridade, cá vamos andando.