quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Vamos andando


Silenciei há meses este meu cantinho porque me senti desconfortável a expor publicamente a minha amargura contra a verborreia desconexa da maioria dos líderes de opinião na abordagem da presente crise. Crise que, convém lembrá-lo, começou por ser financeira, depois económica, e é agora também uma crise identitária, em Portugal e na Europa. Crise que revela, não a falta de dinheiro ou de crédito, mas a falta de justiça e de equidade nas relações entre as pessoas, entre as empresas e entre os povos.

As grandes mobilizações de rua, na Espanha, na Grécia, na Itália e no nosso país esmoreceram (para tranquilidade dos sacrossantos mercados). Falta-lhes um objetivo, uma visão estratégica, uma alternativa contra o conglomerado anti-humanista em que se converteu a "nova ordem" mundial. E há o efeito do cansaço, a luta individual da sobrevivência a antepor-se à batalha coletiva. Primum vivere, deinde philosophari.

Uma recente sondagem internacional colocava, sem surpresa, os portugueses entre os povos mais infelizes do mundo.

Tristes, sofredores e resignados é um retrato que se nos cola. Depressão crónica, talvez com umas escapadelas hipomaníacas para futebóis, festivais e festarolas. Fica-nos bem o Fado, com as suas letras lamurientas de amores infelizes e ausências sem fim.

Foi assim que vivemos metade do século XX sob uma ditadura triste e tranquila. É assim que nos acomodamos no presente a todos os "ajustamentos" que nos vendem como inevitáveis.

"Vamos andando" é a resposta típica do português à saudação do vizinho e o retrato perfeito deste estado de alma. Ou noutra versão mais radical: "Quando mal nunca pior".

Em dias de sorte pode ele deliciar o vizinho com um largo sorriso e uma só palavra: "Porreiro!"

Mas nos maus dias as palavras são a doer: "Nem me fale!". Ou então: "Nem queira saber!". O vizinho, ou por solidariedade ou por cusquice ou por incapacidade de fuga, vai mesmo saber o rol de tribulações daquela alma portuguesa.

Feita a catarse, volta a infelicidade ao seu nível normal. Cabisbaixos, curvados perante o destino e a autoridade, cá vamos andando.


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