As crianças do 6º ano de escolaridade vão ser submetidas a um exame nacional.
Até agora havia provas nacionais de aferição. Um stress para os professores e diretores porque expunham a escola à comparação com as demais escolas do país e tinham um grande peso na sua avaliação externa.
Para os actuais responsáveis governativos isto não é suficiente. É preciso que o stress atinja também os alunos. É preciso que estes principezinhos de palmo e meio que nos consomem o orçamento passem umas noites de insónia e se preparem para a sociedade competitiva que os espera.
Aparentemente está tudo certo. Fala-se de rigor e confrontam-se as crianças com as consequências do seu desempenho. Fala-se de transparência e faz-se depender a passagem de ano do resultado duma prova pública e não da decisão do conselho de turma.
O problema é que aprender gramática não é o mesmo que confecionar camisas.
Passar às crianças a mensagem de que o que exigimos delas é um determinado número de enunciados corretos é omitir que o importante é o prazer de aprender. Tal como ao patrão da fábrica não interessa o prazer do operário agarrado à máquina, desde que o número de peças seja o programado.
O problema é que analisar poemas ou resolver equações não significa desenvolvimento pessoal e cidadania.
É imprudente fazer crer a uma criança que tudo quanto ela tem de retribuir à comunidade é uma boa nota na pauta de exames. Numa idade em que a escolaridade obrigatória ainda vai a meio, o importante é garantir a integração de saberes, a participação responsável na escola e na família, os alicerces sólidos da cidadania.
É inútil envolver a criança no ruído e na perturbação duma certificação externa das aprendizagens quando o seu único caminho é continuar na escola ainda por vários anos.
O problema é que uma pauta de exames não representa o esforço dos alunos.
É perigoso meter na cabeça das crianças a ideia de que as notas escolares representam a hierarquia do mérito e premeiam os mais esforçados.
Aproveitem sim para lhes explicar que as notas não são exercícios de justiça porque fazem tábua rasa de diferentes aptidões inatas, de diferentes oportunidades e de diferentes contextos ao longo da infância.
O professor atento sabe que o seu aluno mais esforçado pode nem conseguir passar no exame.
O problema é que o exame é uma operação precoce de exclusão.
Chego aqui ao ponto que causou algum ruído nos media, abafado como de costume por explicações confusas. Os alunos que beneficiam de apoios de educação especial vão ser objeto duma difícil escolha. Ou se submetem ao exame nacional e suas consequências. Ou pedem ao júri nacional para "beneficiarem" dum exame de escola por estarem a seguir um currículo modificado.
Estes alunos já muito têm de sofrer por estarem numa escola que ainda não descobriu como fazer a inclusão.
Podiam poupá-los a oficializar tão cedo a humilhação de não serem como os outros.