sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Esclavagistas ao ataque


A minha tendência natural é admirar os gestores de topo e atribuir o seu êxito às competências técnicas e à sabedoria humanista que nos habituámos a encontrar nos grandes líderes.

Daí a minha deceção quando vejo algum deles vir à praça pública deitar foguetório pelos seus feitos e, pior do que isso, atirar à plebe as receitas definitivas de salvação para os males do mundo. Precisamente o inverso do verdadeiro líder, que nunca está satisfeito com a sua obra e recusa meter-se em julgador daquilo que não conhece.

Ao sofrimento das vítimas da crise, vêm agora somar-se as conversetas disparatadas daqueles que julgávamos líderes sociais mas se revelam afinal uns empoleirados sortudos a despejar sermões cínicos sobre a desgraça alheia.

Calei-me com o "aguenta... aguenta" de Fernando Ulrich e com os conselhos de Isabel Jonet aos pobrezinhos, porque foram exaustivamente comentados nos media.

Mas não quero calar-me com o pretensionismo de Melo Ribeiro que, talvez por ser administrador duma empresa alemã, se julga investido duma superior clarividência.

“É preciso diminuir 100 a 200 mil funcionários públicos”.  Dum gestor conceituado espera-se um mínimo de rigor na proposta. Nem uma palavra sobre quem são e onde estão esses excedentários.  Já agora, porque não 300 mil? É um número mais redondinho, é metade do total. Tornava muito mais fácil o despedimento. Ordenavam aos chefes de serviço que reunissem o pessoal num salão. Depois atirava-se uma moeda ao ar. Se saísse cara iam para a rua os que estivessem do lado norte; se saísse coroa iam os do sul. Processo rápido e barato.



A quem porventura ache uma injustiça tal procedimento, o nosso bom gestor responde com a sua impagável sabedoria: “Metemos 800 mil pessoas do privado no desemprego. Agora temos de ir ao Estado social e às pessoas”. Como quem diz: Já estão quase um milhão na rua e ainda não houve uma guerra civil. Vamos lá arredondar isto enquanto o pessoal lambe as feridas.



E ele sublinha: “Temos de ir ao estado social e às pessoas”. Percebem? Não é só pô-los na rua.  É preciso controlar essa tralha de subsídios e rendimentos mínimos. "Quem beneficia deste apoio estatal, tal como os beneficiários do subsídio de desemprego, devem fazer trabalho social". Não explica o que seja trabalho social. Mas deduz-se que, tal como outras sumidades da nossa praça, pretende pô-los a trabalhar sem contrato. 

Ao que me dizem, é isto que distingue os gestores de topo: fazerem milagres com o sangue e suor dos outros.

 Voltemos então ao salão onde o chefe de serviço despediu metade dos funcionários públicos. Perguntam os sortudos que ficaram: Como vamos fazer todo o trabalho sozinhos?  Responde o chefe: Não há problema; os vossos ex-colegas estão ansiosos por receber um subsídio de desemprego. De modo que eles mesmos vão continuar a fazer o trabalho... Trabalho social, claro! O contrato acabou.

 Na Antiguidade isto chamava-se escravatura. Na Idade Média chamava-se servidão. Nos tempos que correm chama-se apostar na competitividade e no corte da despesa pública.

Só mais uma nota sobre o admirável raciocínio de Melo Ribeiro.

“A General Electric (GE) tem o mesmo PIB que o país e funciona com maior produtividade com 360 mil funcionários”.  Agora é que os meus neurónios vão entrar em falência. Querem ver que as administrações públicas portuguesas têm de ser geridas pelo modelo do grande fabricante de tecnologias que é a GE? 

Deixem-me tentar perceber as contas do Ribeiro. Diz ele, no seu luminoso raciocínio, que o país deveria contentar-se com 360 mil funcionários públicos porque o PIB do país é igual ao da GE, que tem esse número de funcionários.
Ora o PIB do país não resulta apenas do trabalho dos funcionários públicos mas dos quase cinco milhões de pessoas empregadas que o país tem. Deveria então o excelso gestor propor o despedimento não apenas de 200 mil funcionários públicos mas também uns 4 milhões e meio de outros trabalhadores.
Então sim, ficaríamos um país perfeito: 360 mil trabalhadores para produzirem os 170 mil milhões do PIB nacional, tal e qual a GE.
Quanto à maquinaria a produzir pela tal marca "Portugal" nada consta no raciocínio.
Quanto ao que fazer com os 90% que ficariam desempregados também nada consta.

E se estes economistas da treta, que nos estão a levar à ruína com os seus erros, deixassem de tentar enganar-nos com disparates e tratassem este tema com alguma seriedade!...


 Revisto em 3/12/2012

 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Morituri te salutant

 

Subscrevi um dos abaixo-assinados que circulam na net a dizer à chanceler alemã Ângela Merkel que não é bem vinda a Portugal.

Os meus motivos não são originais. Mas vou procurar fazer o meu resumo.

1. O governo alemão lidera ostensivamente a União Europeia, pressionando previa e publicamente as decisões a tomar nas reuniões do Conselho Europeu. 
A UE tem a aparência dum império germânico, que se aproveita das cumplicidades, das cobardias e dos conflitos de interesses dos demais líderes e da Comissão.

2. O governo alemão utiliza o seu ascendente para impor a política que melhor serve os seus interesses económicos e financeiros.
Os desequilíbrios estruturais da zona euro, que causam défices externos nos países periféricos e excedentes na Alemanha, são habilmente explorados perante o eleitorado alemão como indicadores da preguiça e do desgoverno destes povos.

3. O governo alemão tem assim o apoio eleitoral interno para recusar a revisão do papel do Banco Central Europeu (BCE) em relação às dívidas soberanas e impor programas austeritários e recessivos.
Destes programas resulta necessariamente a pilhagem dos recursos e poupanças dos povos que se lhes submetem, devido à diferença abissal entre os juros a que se financia o governo e as empresas alemãs e os juros a que se financiam os governos e as empresas dos países em crise.

4. Há pouco tempo a chanceler Merkel afirmou, salvo erro num discurso ao seu partido, que o ajustamento português está a correr bem porque o salário médio já baixou mais de 100 euros. 
A senhora não disse quanto mais ele terá de baixar para o sucesso ser completo. Para um número crescente dos nossos compatriotas o salário já é zero e não vejo que tal faça ressurgir a economia.

5. A afirmação anterior perante uma plateia alemã é um sinal claro de que o nosso governo mora em Berlim. Em Lisboa temos apenas comissários.

6. Mas se dúvidas houvesse sobre o estado a que chegou a nossa soberania olhe-se para o aparato desta visita.
A chanceler segue um itinerário confidencial desde o aeroporto até Belém e confina-se durante umas horas naquela quadrícula, fazendo apenas uma curta deslocação junto ao Tejo para o almoço num forte militar.
Que melhor retrato duma visita imperial a um país ocupado?


                      Diz-se que os gladiadores romanos, recrutados entre os escravos e os prisioneiros de guerra para os combates de morte no Coliseu, iniciavam o seu combate com a saudação: Ave, Caesar, morituri te salutant!  (Viva, César, os que vão morrer saúdam-te!)

Os historiadores acham que uma saudação tão paradoxal terá apenas acontecido pontualmente. Mas se aconteceu, parece-me que foi um grito de dignidade. Aqueles corpos nús e mudos, prestes a serem despedaçados num delírio sanguinário, contrariam por um momento o olhar das gentes que os contemplam como coisas, falam-lhes na sua língua e gritam: Avé César, como quem diz: Somos iguais a vocês, podíamos estar sentados ao vosso lado a aplaudir o imperador, se vocês fossem suficientemente grandes para o consentirem.

As manifestações dos portugueses tiveram até agora este cunho duma afirmação de dignidade. Mas faz bem a Srª Markel em passar ao largo desta arena. Uma mão ferida pode controlar mal o gládio. A afirmação da dignidade exige ser correspondida com uma resposta também digna, e esta tarda perigosamente.

Por isso eu digo, com a multidão: Só serás bem vinda, Merkel, quando vieres por bem. Inequivocamente.

sábado, 10 de novembro de 2012

Os lordes do Banco de Portugal


O orçamento de estado para 2013 vai continuar a roer-nos a carne a todos os que não temos por onde fugir: funcionários públicos, reformados e assalariados em geral.

A todos não.

Há alguns meses publiquei aqui um post em que julgava encontrar alguma sensatez no Banco Central Europeu (BCE), a propósito da sua escusa em apoiar a resistência do pessoal do Banco de Portugal aos cortes dos 13º e 14º meses.

Agora, a fazer fé nesta  notícia, o BCE deixou-se finalmente comover pelas queixinhas dos seus colegas portugueses.

O BCE, um dos membros da troika, que manda ou aplaude que nos esbulhem rendimentos acima de 600 €, vem agora clarificar as suas ideias. Atenção, dizem suas excelências, isto não se aplica aos nossos amiguinhos do Banco de Portugal.

O argumento é o de que os estatutos do BCE proibem financiamento direto dos bancos centrais ao governo. É uma norma muito discutível, mas quer simplesmente dizer que o BP não pode comprar dívida pública no mercado primário. 

Não pode querer dizer que os senhores que trabalham no BP estão isentos da sobrecarga de impostos que pesa sobre os demais cidadãos. Sobretudo porque esses senhores ganham em média oito ou nove vezes mais que os cidadãos comuns. Sobretudo porque os extras que nos estão a extorquir são também para cobrir os desvarios do sistema bancário, sob a tutela do BP.

Dar cobertura a isto chama-se em linguagem corrente compadrio. Em linguagem jurídica é nepotismo e tráfico de influências. Em linguagem moral é uma iniquidade. Em vernáculo nortenho é "uma filha da putice".