Simpatizo com o Papa Francisco. Tardei em escrever isto porque as primeiras impressões podem ser enganadoras. Sê-lo-ão ou não?
João XXIII foi eleito com a mesma idade de Francisco e, na altura, não se esperava mais do que um interlúdio beato a fazer tempo para um sucessor de maior envergadura. O certo é que, poucos meses depois, estava a convocar o concílio Vaticano II, que teve um alcance maior do que alguém podia imaginar.
Neste meio século eclipsou-se a força regeneradora do Vaticano II e a igreja católica está de novo enredada em vários labirintos que afetam a sua força e transparência no mundo contemporâneo.
Os primeiros sinais do papa Francisco são consistentes com uma vontade de abertura das janelas da complicada fortaleza vaticana.
Os jornalistas focaram-se no folclore de dispensar a gaiola de vidro do seu veiculo ou nos beijos às crianças e às pessoas com deficiência. Mas há outros sinais mais animadores.
Logo na sua primeira apresentação pública, identificou-se apenas como bispo de Roma: "Agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja
de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade".
Aqui está um retorno à primitiva noção de Igreja, a que a cúria romana tem resistido. Todos os bispos são sucessores dos apóstolos à frente das igrejas locais. Ao bispo de Roma, sucessor de Pedro, cabe presidir à comunhão de todas as igrejas na caridade. O papa não deve ser um suber-bispo ou patrão dos outros bispos. O concílio Vaticano II tentou reencontrar esta colegialidade mas na prática, e aproveitando a eficácia dos modernos meios de comunicação, o Vaticano tornou-se depois disso ainda mais controlador.
Na mesma ocasião prosseguiu: "Peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim".
Assim o papa Francisco completa a sua lição sobre a Igreja. A igreja local é a comunhão dos fiéis com o seu bispo. No dia seguinte, Francisco ilustrou melhor esta ideia celebrando a missa na igreja paroquial do Vaticano e cumprimentando no final os presentes.
Parece deste modo desenhada a estratégia de Francisco para enfraquecer as resistências ao que tem de ser feito. Multiplica os sinais, em vez de começar a fazer reuniões e decretos. Depois do escândalo conhecido por Vatilealks (divulgação de documentos confidenciais sobre as lutas de poder dentro da cúria romana), esta é uma estratégia de grande sabedoria para desarmar aqueles que pretendam aproximar-se dele com ideias de poder e não ideias de serviço.
No mesmo sentido se inscreve a sua recusa, para já, em residir nos aposentos papais, preferindo uma suite da Casa de Santa Marta (uma espécie de hotel do Vaticano), o que certamente lhe permite manter uma separação entre as funções oficiais e a vida pessoal e fazer mais contactos informais, à semelhança do que acontecia no arcebispado de Buenos Aires.
Outra nota significativa é a escolha do nome Francisco, evocação da figura do "pobrezinho" de Assis, que criticou severamente a opulência da igreja do seu tempo e propôs o investimento na fraternidade humana e na comunhão com a natureza. O tema aparece na sua alocução de tomada de posse, em 19 de março: "Sejam os guardiões da Criação, do plano divino inscrito na Natureza,
guardiões do Outro, do ambiente. Não deixemos que os sinais de
destruição e morte acompanhem o caminho do nosso mundo.”
Há aqui uma clara opção por uma linguagem fácil, distanciada das rebuscadas formulações doutrinais que os redatores de serviço costumam colocar nas mãos do papa.
Hoje, na alocução da Páscoa, manteve um registo semelhante: “Paz para o mundo inteiro, ainda tão dividido pela ganância de quem
procura lucros fáceis, ferido pelo egoísmo que ameaça a vida humana e a
família".
É curioso que neste mesmo dia tenha quebrado a tradição dos seus antecessores de fazer saudações em várias línguas. Porque seria? Não é por ignorância porque, como jesuíta, estudou em faculdades de diversos países. Será por o considerar uma vaidade inútil?
Há poucos dias a imprensa publicou o resumo da intervenção feita pelo cardeal Bergoglio numa das reuniões preparatórias do conclave, e que bem podemos tomar como o seu programa de governo:
"Evangelizar supõe para a Igreja a audácia de sair de si própria. A
Igreja é chamada a sair de si própria para ir até às periferias, não
apenas geográficas, mas também das periferias existenciais: as do
mistério do pecado, as da dor, as da injustiça, as da ignorância e da
abstenção religiosa, as do pensamento, as de toda a miséria. (...)
Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si própria, a 'Dei verbum religiose audiens et fidenter proclamans'; ou a Igreja mundana que vive em si própria, de si própria e para si própria".
Noutro passo: "Quando a Igreja não sai de si própria para evangelizar, torna-se
auto-referencial e fica doente, (...) uma espécie de
narcisismo teológico".
Este pequeno texto contém uma crítica crucial à igreja católica de hoje: uma igreja auto-satisfeita, que reivindica os seus direitos, que critica todos à sua volta e que exibe como troféus a sua doutrina, as suas obras e os seus sucessos, passados e presentes. Uma igreja que em vez de evangelizar estigmatiza os desviantes dos seus dogmas e normas. Uma igreja que parece mais a dona de Deus do que a serva que "ouve religiosamente a Palavra de Deus e a proclama fielmente".
Tenho de reconhecer que, se começar por aqui, o papa Francisco pode ir longe na abordagem dos desentendimentos da igreja com o mundo contemporâneo.
Veremos se eu e outros desanimados da igreja nos vamos sentir em condições de acompanhar a sua caminhada.
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