domingo, 31 de março de 2013

Papa Francisco


Simpatizo com o Papa Francisco. Tardei em escrever isto porque as primeiras impressões podem ser enganadoras. Sê-lo-ão ou não?

João XXIII foi eleito com a mesma idade de Francisco e, na altura, não se esperava mais do que um interlúdio beato a fazer tempo para um sucessor de maior envergadura. O certo é que, poucos meses depois, estava a convocar o concílio Vaticano II, que teve um alcance maior do que alguém podia imaginar.

Neste meio século eclipsou-se a força regeneradora do Vaticano II e a igreja católica está de novo enredada em vários labirintos que afetam a sua força e transparência no mundo contemporâneo.

Os primeiros sinais do papa Francisco são consistentes com uma vontade de abertura das janelas da complicada fortaleza vaticana.

Os jornalistas focaram-se no folclore de dispensar a gaiola de vidro do seu veiculo ou nos beijos às crianças e às pessoas com deficiência. Mas há outros sinais mais animadores.

Logo na sua primeira apresentação pública, identificou-se apenas como bispo de Roma: "Agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade". 
Aqui está um retorno à primitiva noção de Igreja, a que a cúria romana tem resistido. Todos os bispos são sucessores dos apóstolos à frente das igrejas locais. Ao bispo de Roma, sucessor de Pedro, cabe presidir à comunhão de todas as igrejas na caridade. O papa não deve ser um suber-bispo ou patrão dos outros bispos. O concílio Vaticano II tentou reencontrar esta colegialidade mas na prática, e aproveitando  a eficácia dos modernos meios de comunicação, o Vaticano tornou-se depois disso ainda mais controlador.

Na mesma ocasião prosseguiu: "Peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim". 
 Assim o papa Francisco completa a sua lição sobre a Igreja. A igreja local é a comunhão dos fiéis com o seu bispo. No dia seguinte, Francisco ilustrou melhor esta ideia celebrando a missa na igreja paroquial do Vaticano e cumprimentando no final os presentes.

Parece deste modo desenhada a estratégia de Francisco para  enfraquecer as resistências ao que tem de ser feito. Multiplica os sinais, em vez de começar a fazer reuniões e decretos. Depois do escândalo conhecido por Vatilealks (divulgação de documentos confidenciais sobre as lutas de poder dentro da cúria romana), esta é uma estratégia de grande sabedoria para desarmar aqueles que pretendam aproximar-se dele com ideias de poder e não ideias de serviço.

No mesmo sentido se inscreve a sua recusa, para já, em residir nos aposentos papais, preferindo uma suite da Casa de Santa Marta (uma espécie de hotel do Vaticano), o que certamente lhe permite manter uma separação entre as funções oficiais e a vida pessoal e fazer mais contactos informais, à semelhança do que acontecia no arcebispado de Buenos Aires.

Outra nota significativa é a escolha do nome Francisco, evocação da figura do "pobrezinho" de Assis, que criticou severamente a opulência da igreja do seu tempo e propôs o investimento na fraternidade humana e na comunhão com a  natureza. O tema aparece na sua alocução de tomada de posse, em 19 de março: "Sejam os guardiões da Criação, do plano divino inscrito na Natureza, guardiões do Outro, do ambiente. Não deixemos que os sinais de destruição e morte acompanhem o caminho do nosso mundo.”
Há aqui uma clara opção por uma linguagem fácil, distanciada das rebuscadas formulações doutrinais que os redatores de serviço costumam colocar nas mãos do papa. 

Hoje, na alocução da Páscoa, manteve um registo semelhante: “Paz para o mundo inteiro, ainda tão dividido pela ganância de quem procura lucros fáceis, ferido pelo egoísmo que ameaça a vida humana e a família".

É curioso que neste mesmo dia tenha quebrado a tradição dos seus antecessores de fazer saudações em várias línguas. Porque seria? Não é por ignorância porque, como jesuíta, estudou em faculdades de diversos países. Será por o considerar uma vaidade inútil?
  
Há poucos dias a imprensa publicou o resumo da intervenção feita pelo cardeal Bergoglio numa das reuniões preparatórias do conclave, e que bem podemos tomar como o seu programa de governo:

 "Evangelizar supõe para a Igreja a audácia de sair de si própria. A Igreja é chamada a sair de si própria para ir até às periferias, não apenas geográficas, mas também das periferias existenciais: as do mistério do pecado, as da dor, as da injustiça, as da ignorância e da abstenção religiosa, as do pensamento, as de toda a miséria. (...)
Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si própria, a 'Dei verbum religiose audiens et fidenter proclamans'; ou a Igreja mundana que vive em si própria, de si própria e para si própria".

Noutro passo: "Quando a Igreja não sai de si própria para evangelizar, torna-se auto-referencial e fica doente, (...) uma espécie de narcisismo teológico".

Este pequeno texto contém uma crítica crucial à igreja católica de hoje: uma igreja auto-satisfeita, que reivindica os seus direitos, que critica todos à sua volta e que exibe como troféus a sua doutrina, as suas obras e os seus sucessos, passados e presentes. Uma igreja que em vez de evangelizar estigmatiza os desviantes dos seus dogmas e normas. Uma igreja que parece  mais a dona de Deus do que a serva que "ouve religiosamente a Palavra de Deus e a proclama fielmente".

Tenho de reconhecer que, se começar por aqui, o papa Francisco pode ir longe na abordagem dos desentendimentos da igreja com o mundo contemporâneo. 

Veremos se eu e outros desanimados da igreja nos vamos sentir em condições de acompanhar a sua caminhada. 
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Arte e solidariedade


No passado sábado estive na Noite de Fados, organizada pela Cerci-Lamas no salão do Lions Clube de Santa Maria da Feira.

Este formato de eventos para angariação de fundos tem uma forte marca anglo-saxónica, onde o envolvimento nas causas e projetos comunitários é assumido como uma dimensão normal da cidadania, em contraste com a maior tradição individualista dos países latinos.

É saudável que o velho sistema da pedincha esteja a ser substituído por este modelo de entrelaçamento entre os atores das obras sociais e os seus apoiantes, dando-se as mãos para a realização dos objetivos institucionais.

Não estou a criticar as campanhas de donativos. Longe disso. Mas não podemos esquecer que o ato de dar representa uma relação assimétrica. O poder está do lado de quem dá. Quem dá pode arrogar-se pretensões de intromissão no uso dos seus donativos, à sombra de outros interesses que não os valores da instituição.

No tradicional associativismo de beneficência há uma evidente distinção entre dois blocos, os benfeitores e os beneficiários, sendo que o poder está apenas num dos lados.

As Cerci's, ao assumirem a forma cooperativa, procuraram desde o início ultrapassar esta assimetria e cultivar uma relação paritária entre todos os interessados nos seus objetivos. Uma ideia que hoje se encontra disseminada pela maioria das instituições de solidariedade.

Ao decidir organizar um jantar de arte, a Cerci-Lamas conseguiu muito mais do que angariar perto de dois mil euros. Mais importante do que isso foi:
  •  Contar com a disponibilidade e generosidade dos fadistas e dos músicos cuja qualidade é reconhecida na região;
  • Mobilizar a comunidade a ponto de esgotar a capacidade da grande sala do Lions;
  • Congregar a boa vontade dos colaboradores da Cerci-Lamas que, independentemente das suas funções profissionais, puseram mãos à obra de confeccionar e servir o jantar;
  • Perceber a sensibilidade dos fornecedores, que doaram grande parte dos produtos alimentares;
  • Juntar à mesma mesa os técnicos, os clientes, os artistas e os amigos, sem barreiras ou preconceitos.
Ouvimos por aí os comentadores fazerem balanços sobre a resposta do público às campanhas de solidariedade. Por mim tenho uma impressão muito clara e tive ocasião de a dizer neste jantar. As pessoas sensatas rejeitam o discurso dominante que nos enreda a pretexto da crise. Rejeitam a ideia do homem duma só dimensão: produzir e consumir. Rejeitam que as decisões de governo dum país ou duma empresa se baseiem apenas no cálculo dos custos e benefícios financeiros. As pessoas de bom senso aproveitam ocasiões como esta para mostrarem a sua crença na pessoa multidimensional que se afirma pelo trabalho, pela cultura, pela arte, pela convivialidade e pela solidariedade.

O que nos há-de salvar da presente crise é esta crença na pessoa que tem por motor da sua existência a Sabedoria, o Amor, a Estética e a Ética.

Por tudo isto, foi bom estar ali.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Banqueiros desavergonhados


Ontem vi na TV um documentário sobre o Goldman Sachs, o gigantesco banco americano que, ao contrário do Lehman Brothers, foi salvo da bancarrota pelo governo federal na crise financeira de 2008.  (Pode ler-se mais aqui)

O filme explica detalhadamente os esquemas da especulação com o dinheiro dos clientes e com dívida soberana dos Estados em dificuldade. Para aqueles gestores a única ética que conhecem, e eles dizem-no francamente, é ganhar dinheiro a qualquer preço.  Os clientes que se precavenham contra os riscos e não venham depois fazer queixinhas por terem ficado a arder.

O filme mostra também como o Goldman Sachs foi uma "escola" por onde passaram altos responsáveis financeiros da Europa como Mario Draghi, governador do BCE,  Mario Monti, primeiro-ministro cessante da Itália ou António Borges, consultor do governo português. Uma escola onde se aprende que a necessidade básica da humanidade é um sistema bancário com lucros crescentes. E quando os lucros tremerem devem os contribuintes ser pressurosamente convocados para tirarem o pão da boca e darem-no de alimento aos sagrados templos do dinheiro.

Afinal os que não passaram por tão excelsa escola não querem mostrar-se menos graduados.

Fernando Ulrich, presidente do BPI, é um conhecido reincidente nas soluções redentoras. Disse e reafirmou que o povo "ai aguenta, aguenta" com mais austeridade, apontando o magnífico exemplo de resiliência dos sem-abrigo. Propôs-se generosamente acolher no seu banco centenas de jovens saídos das universidades para que aprendam a trabalhar. Aí está! Um ensino gratuito de tão sublime mecenas! Que mais querem eles?

Pois agora outro estafado bancocrata, João Salgueiro, quis ir mais longe. Não é de admirar, a cabeça dos banqueiros está muito treinada para pensar em grande. Diz ele: "Há todos os anos incêndios porque as matas não estão tratadas. É assim tão complicado pôr as pessoas a tratar das matas?»
 O entrevistador ficou embatucado e perguntou se a ideia era também para os seus alunos da universidade. Claro: "Foi o que se fez noutros países. A seguir à guerra as pessoas trabalharam com as mãos". 
Assim, sem mais nem menos. Os desempregados são os despojos duma guerra que os bancos desencadearam e venceram.
Fico na dúvida se o projeto inclui o fornecimento de farnel e ferramenta ou se isso iria desequilibrar mais as contas públicas. 
Mas, com o que começo a conhecer desta gente e da escola do Goldman Sachs, deixem-me dizer que, se estes projetos de trabalho escravo fossem por diante, dentro de um ano aí estavam estes magníficos banqueiros, com os números na mão, a demonstrar que a nossa produtividade é cada vez mais baixa e é urgente continuar a comprimir os salários e as pensões.

Mas esperem aí. Há coisa ainda de maior espanto. Filipe Pinhal, o presidente exonerado e reformado do BCP, anunciou publicamente a sua última invenção: o Movimento dos Reformados Indignados (MRI).
 Pois não é que o homem não aguenta que a contribuição extraordinária de solidariedade (CES) lhe rape uma importante fatia da sua magra reforma de 70.000 euros mensais!
Imagino os seus colegas de gestão a fazerem fila para se inscreverem no MRI. Talvez também o Cavaco Silva e a Assunção Esteves.
E eu? Que hei-de fazer? Eu que também apanhei com a CES na minha reformazita de mil e tal euros!
Vou pagar umas quotas ao Filipe Pinhal para ele me defender? 

Quem havia de imaginar? Um banqueiro ao meu lado, na mesma onda de indignação! 
Eles têm cá uma escola!...

sábado, 2 de março de 2013

Que raio de trajetória!


Passaram dois anos desde o fatídico março de 2011 em que, acossado pela turbulência dos juros da dívida soberana, Sócrates levou à imperatriz Merkel e ao seu tesoureiro o Banco Central Europeu (BCE) um pacote de austeridade que grangeasse a sua complacência e obtivesse deles uma mensagem de tranquilização para os mercados.

Mas a corda partiu-se cá dentro. O parlamento recusou o PEC IV por ser insuportavelmente penoso. O país foi a eleições ao mesmo tempo que negociava o resgate financeiro da troika.

A coligação vencedora prometeu uns sacrifícios provisórios e, no prazo de dois anos, um país em glória. Tudo devidamente avalizado pela sapientíssima trindade: FMI, Comissão Europeia e BCE.

O novo governo (agora velho e caduco) proclamava entuasiasmado que era preciso "ir além da troika", ou seja, fazer sacrifícios maiores para os resultados serem mais rápidos.

Estão a esgotar-se os dois anos da promessa da salvação, e tão trágica é a nossa situação como o discurso delirante do primeiro-ministro Passos Coelho:

 "Estamos na direção correta. Não existe necessidade de alterar a trajetória".

 Passemos então em revista os principais indicadores da gloriosa trajetória.

Trajetória do Produto Interno Bruto (PIB)

É só abrir o site do Banco de Portugal (o tal que antigamente servia para alertar o governo e agora parece que serve para o amparar), e consultar o histórico dos boletins trimestrais de previsão.

Em março de  2011 registava o crescimento de 1,4% em 2010 e previa a queda de 1,4% em 2011 e a recuperação de 0,3% em 2012.

Em março de 2012 registava a queda de 1,6% em 2011 (mais tarde retificada para 1,7%) e previa a queda de 3,1% em 2012 e a recuperação de 0,3% em 2013.

No momento atual, a queda de 2012 está fixada provisoriamente em 3,2% e a previsão de queda em 2013 agravou-se para 2%.

Como se vê, uma fuga para a frente, sempre a cair...

Trajetória do desemprego

Em Março de 2011 o desemprego atingia o número dramático de 12,3%. A previsão no programa de ajustamento era de que ele ainda subiria até aos 13%. 

Depois seria sempre a descer. Lembram-se? Com a reforma das leis laborais as empresas desatariam numa correria louca às contratações! E com os cortes no subsídio de desemprego o pessoal saltava da sua zona de conforto e criava o seu próprio emprego!

Hoje o desemprego está oficialmente em 17,6% e ninguém se atreve a fazer previsões.

Mas o governo e a troika lá vão dizendo que ainda há demasiados incentivos para as pessoas ficarem inativas. Que insuportável delírio!
 
Trajetória da dívida pública

 No final de 2010 a dívida pública atingiu 93,5% do PIB.

Com o programa de ajustamento previa-se que ela que ela atingisse o pico de 115%. Lembrem-se de que a recapitalização da banca é feita com o dinheiro do empréstimo da troika e consequente agravamento da dívida pública.

Pois mal! No final de 2011 a dívida era de 108% e no final de 2012 ultrapassou os 120%. 

Outras trajetórias

Podia falar da trajetória dos nossos rendimentos de assalariados e pensionistas e da trajetória dos rendimentos dos bancos e das grandes empresas. 

Podia falar no meu IRS comparado com os 7,5% que o banqueiro Ricardo Salgado teve de pagar sobre os milhões de rendimentos pessoais que se tinha esquecido de declarar.

Podia falar dos lucros do BCE com a compra da dívida dos países periféricos no mercado secundário.

Mas fico-me por aqui...

Hoje é dia  de sair à rua e dizer: 
 É preciso parar a corrida para o abismo!