Ontem vi na TV um documentário sobre o Goldman Sachs, o gigantesco banco americano que, ao contrário do Lehman Brothers, foi salvo da bancarrota pelo governo federal na crise financeira de 2008. (Pode ler-se mais aqui)
O filme explica detalhadamente os esquemas da especulação com o dinheiro dos clientes e com dívida soberana dos Estados em dificuldade. Para aqueles gestores a única ética que conhecem, e eles dizem-no francamente, é ganhar dinheiro a qualquer preço. Os clientes que se precavenham contra os riscos e não venham depois fazer queixinhas por terem ficado a arder.
O filme mostra também como o Goldman Sachs foi uma "escola" por onde passaram altos responsáveis financeiros da Europa como Mario Draghi, governador do BCE, Mario Monti, primeiro-ministro cessante da Itália ou António Borges, consultor do governo português. Uma escola onde se aprende que a necessidade básica da humanidade é um sistema bancário com lucros crescentes. E quando os lucros tremerem devem os contribuintes ser pressurosamente convocados para tirarem o pão da boca e darem-no de alimento aos sagrados templos do dinheiro.
Afinal os que não passaram por tão excelsa escola não querem mostrar-se menos graduados.
Fernando Ulrich, presidente do BPI, é um conhecido reincidente nas soluções redentoras. Disse e reafirmou que o povo "ai aguenta, aguenta" com mais austeridade, apontando o magnífico exemplo de resiliência dos sem-abrigo. Propôs-se generosamente acolher no seu banco centenas de jovens saídos das universidades para que aprendam a trabalhar. Aí está! Um ensino gratuito de tão sublime mecenas! Que mais querem eles?
Pois agora outro estafado bancocrata, João Salgueiro, quis ir mais longe. Não é de admirar, a cabeça dos banqueiros está muito treinada para pensar em grande. Diz ele: "Há todos os anos incêndios porque as matas não estão tratadas. É assim tão complicado pôr as pessoas a tratar das matas?»
O entrevistador ficou embatucado e perguntou se a ideia era também para os seus alunos da universidade. Claro: "Foi o que se fez noutros países. A seguir à guerra as pessoas trabalharam com as mãos".
Assim, sem mais nem menos. Os desempregados são os despojos duma guerra que os bancos desencadearam e venceram.
Fico na dúvida se o projeto inclui o fornecimento de farnel e ferramenta ou se isso iria desequilibrar mais as contas públicas.
Mas, com o que começo a conhecer desta gente e da escola do Goldman Sachs, deixem-me dizer que, se estes projetos de trabalho escravo fossem por diante, dentro de um ano aí estavam estes magníficos banqueiros, com os números na mão, a demonstrar que a nossa produtividade é cada vez mais baixa e é urgente continuar a comprimir os salários e as pensões.
Mas esperem aí. Há coisa ainda de maior espanto. Filipe Pinhal, o presidente exonerado e reformado do BCP, anunciou publicamente a sua última invenção: o Movimento dos Reformados Indignados (MRI).
Pois não é que o homem não aguenta que a contribuição extraordinária de solidariedade (CES) lhe rape uma importante fatia da sua magra reforma de 70.000 euros mensais!
Imagino os seus colegas de gestão a fazerem fila para se inscreverem no MRI. Talvez também o Cavaco Silva e a Assunção Esteves.
E eu? Que hei-de fazer? Eu que também apanhei com a CES na minha reformazita de mil e tal euros!
Vou pagar umas quotas ao Filipe Pinhal para ele me defender?
Quem havia de imaginar? Um banqueiro ao meu lado, na mesma onda de indignação!
Eles têm cá uma escola!...
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