terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal


 Por muitos natais que já passei na minha vida, ainda não descobri a atitude certa para este dia tão especial.

Os primeiros cristãos celebravam a morte e a ressureição de Jesus, porque aí se explicitava a mensagem fraturante que Ele trouxe a um mundo dividido entre poderosos e vítimas. 

A celebração do Natal só ganhou relevo no século IV, concentrando a atenção nas narrativas que nos deixaram dois evangelistas sobre o nascimento de Jesus, como preâmbulo simbólico do que viria a ser a sua vida.

Lucas (2,1-18) apresenta-o a nascer fora de casa e da cidade, um sem-abrigo, apenas reconhecido e amado pelos pastores, uma classe desqualificada e sem poder.

Mateus (2, 1-12), que escrevia para os cristãos vindos do judaísmo,  preocupa-se em identificá-lo como o messias anunciado pelos profetas e, tal como os profetas, temido pelos poderosos e incompreendido pelo seu povo. Apresenta-o a ser reconhecido e amado unicamente por estrangeiros ("os Magos vindos do oriente"), e a ter de se exilar logo à nascença para escapar à fúria assassina do rei Herodes.

O Natal faz sentido como festa da fraternidade universal, na esteira deste menino que se anuncia tão perigoso para os poderosos do sistema. Faz sentido alegrarmo-nos com a boa notícia de que a igualdade e a justiça são possíveis e têm hoje e aqui os seus promotores e defensores.

Faz sentido também lembrarmo-nos neste dia de quão longe estamos do mundo anunciado por Jesus, quando vemos a concentração iníqua da riqueza e do poder em poucas e obscuras mãos. 

Faz sentido lembrarmo-nos daqueles que agonizam ignorados e excluídos nas margens das nossas comunidades. Lembrarmo-nos dos estrangeiros que morrem nos mares de Lampedusa em busca do pão da Europa, enquanto oferecemos vistos dourados aos estrangeiros que tragam na mala um monte de dinheiro.

domingo, 29 de setembro de 2013

Eleições autárquicas


Reflexões dum cidadão antes dos votos

 

Nem anjos nem demónios

Os velhos autarcas de carreira fazem gala dos milagres da administração de proximidade, poupadinha e eficiente.
A elite dos comentadores dos camarotes televisivos entretém-se a verberar o gigantismo tentacular da administração pública e a ridicularizar os gastos municipais em fontanários, rotundas, estádios e no exército de funcionários que é preciso para os manter de cara lavada.
Eu, que gosto de viajar pelo Portugal interior, comprazo-me nos inúmeros exemplos de preservação e renovação das cidades, vilas e aldeias. Como também me choco com os mamarrachos que não lembravam ao diabo e com o abandono a que estão votados alguns investimentos vultosos na requalificação de espaços públicos, especialmente quando a manutenção é mais complexa como são as zonas ribeirinhas.
Quanto ao ordenamento urbano, os maus exemplos de descontinuidades e de ruturas no tecido urbano são demasiados para não ter de atribuir as culpas à inadequação das leis.
Uma coisa parece certa: os autarcas são os políticos de ao pé da porta, espelho das virtudes e dos defeitos da sua comunidade. Permeáveis ao intriguismo e às influências, mas ativos e com vontade de deixar obra e bom nome.
Nem anjos nem demónios.

Mudanças de treinador

Novidade neste escrutínio é a descoberta de que muitos daqueles que julgávamos líderes da sua comunidade, e disso faziam gala por lá estarem há pelo menos uma dúzia de anos, não passavam afinal de comissários do partido e, às ordens do mesmo, pegam nas malas e vão à conquista doutras paragens. Se eles tiverem sucesso, já não deveremos falar de autarquias (governo pelos próprios) mas de heterarquias (governo por outros).
Mais curioso é que o partido do governo, que mais insistiu nesta mudança de treinadores, é o mesmo a repetir que o voto tem de pensar apenas  no governo da comunidade e não no governo do país. 
Mas afinal, se o candidato vem de fora, tem a seu crédito apenas a recomendação do partido e não o conhecimento da comunidade. Não é muito lógico pretender que o eleitor julgue o candidato sem avaliar o partido. 
Mas enfim, o eleitor que se avenha.

Independentes ou nem por isso

Junto-me às imensas vozes que reclamam uma renovação dos tecidos partidários, que mais parecem seitas com os seus sacerdotes e rituais do que emanações da participação política dos cidadãos.
A abertura  legal à participação de listas não partidárias nas eleições locais deveria dar uma sacudidela à cristalização partidária e abrir outros dinamismos cívicos e políticos.
Nos casos mais visíveis as candidaturas "independentes" são apenas dissidentes das escolhas oficiais das máquinas partidárias. Caberá aos eleitores decidir entre o candidato ortodoxo e o heterodoxo.
Poupavam dramatismos se tivessem feito umas primárias à maneira americana.

O ano zero da agregação das freguesias

A agregação das freguesias é um processo quixotesco.
Sabemos como foi. Os contabilistas da troika olharam para os números - 308  municípios e 4259 freguesias - e escreveram: "reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades" (Memorando, § 3.44). 
E o governo, com a sua chico-espertice, logo descobriu como encher o olho à troika sem afetar o sistema de poder. Menos 30% de freguesias, dizem à troika. Mas às populações garante-se que nada perderam: a casa da Junta continua aberta, continuam os funcionários e os serviços. Só não têm presidente, mas o dinheiro que se poupa na sua gratificação ainda dá para tapar uns buracos.
Afinal uma reforma só para troika ver? Ou ainda terá uns custos acrescidos de burocracia?
Quanto ao espezinhar de velhas identidades locais, isso não entra nas contas...

Promessas eleitorais

Olhei de relance para as promessas eleitorais
No passado os candidatos levaram o povo ao delírio prometendo casas aos pobres, vias rápidas aos ricos, estádios aos desportistas, terrenos de borla aos investidores, promessas que felizmente se abstinham de levar a sério.
Agora, depois de anos de lavagem cerebral contra o despesismo e o regabofe com os dinheiros públicos, eu tinha curiosidade de ver se os candidatos se dirigiam ao eleitor reivindicativo ou ao contribuinte entalado.
Não podendo prometer obra de encher o olho, prometem arranjos, requalificações viárias, apoio social. Como quem diz: vamos aos remendos, não há dinheiro para fato novo.
O mais curioso é quase todos prometerem a criação de emprego. Como? Pois as autarquias não estão também obrigadas a restrições e despedimentos?
Estamos entendidos. Como é provável que daqui a quatro anos o desemprego não esteja no nível catastrófico que hoje temos, o ganhador sempre poderá dizer que cumpriu a promessa.
É a política, senhores...
 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Vamos andando


Silenciei há meses este meu cantinho porque me senti desconfortável a expor publicamente a minha amargura contra a verborreia desconexa da maioria dos líderes de opinião na abordagem da presente crise. Crise que, convém lembrá-lo, começou por ser financeira, depois económica, e é agora também uma crise identitária, em Portugal e na Europa. Crise que revela, não a falta de dinheiro ou de crédito, mas a falta de justiça e de equidade nas relações entre as pessoas, entre as empresas e entre os povos.

As grandes mobilizações de rua, na Espanha, na Grécia, na Itália e no nosso país esmoreceram (para tranquilidade dos sacrossantos mercados). Falta-lhes um objetivo, uma visão estratégica, uma alternativa contra o conglomerado anti-humanista em que se converteu a "nova ordem" mundial. E há o efeito do cansaço, a luta individual da sobrevivência a antepor-se à batalha coletiva. Primum vivere, deinde philosophari.

Uma recente sondagem internacional colocava, sem surpresa, os portugueses entre os povos mais infelizes do mundo.

Tristes, sofredores e resignados é um retrato que se nos cola. Depressão crónica, talvez com umas escapadelas hipomaníacas para futebóis, festivais e festarolas. Fica-nos bem o Fado, com as suas letras lamurientas de amores infelizes e ausências sem fim.

Foi assim que vivemos metade do século XX sob uma ditadura triste e tranquila. É assim que nos acomodamos no presente a todos os "ajustamentos" que nos vendem como inevitáveis.

"Vamos andando" é a resposta típica do português à saudação do vizinho e o retrato perfeito deste estado de alma. Ou noutra versão mais radical: "Quando mal nunca pior".

Em dias de sorte pode ele deliciar o vizinho com um largo sorriso e uma só palavra: "Porreiro!"

Mas nos maus dias as palavras são a doer: "Nem me fale!". Ou então: "Nem queira saber!". O vizinho, ou por solidariedade ou por cusquice ou por incapacidade de fuga, vai mesmo saber o rol de tribulações daquela alma portuguesa.

Feita a catarse, volta a infelicidade ao seu nível normal. Cabisbaixos, curvados perante o destino e a autoridade, cá vamos andando.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Doutorzinhos de palmo e meio


Esta é uma semana de glória para o ministro Crato e os seus apaniguados. Foi solenemente inaugurada a série Século XXI dos Exames da Quarta Classe.

Já aqui escrevi sobre os exames nacionais e também sobre a cruzada contra o "eduquês", que mais parece um projeto de restauração da escola novecentista e da escola salazarista, ordenadas para disciplinar e adaptar à civilização a massa rude que eram os filhos dos iletrados camponeses e operários.

Os velhos tempos
Há mais de 50 anos também eu me sujeitei a este caminho, com mais dureza do que hoje. Pela primeira vez dormi fora da minha casa. Mudei-me com os meus colegas para uns apertados quartos que a professora arranjou na cidade e lá ficámos dois ou três dias (não me lembro quantos), para fazermos o exame da quarta classe, no imponente edifício do "Liceu Nacional". Ao segundo dia recebi a visita do meu pai para saber se estávamos bem e provavelmente acertar as contas da hospedagem. Digo provavelmente, porque de contas não ouvi falar. Embora tratados como pequenos adultos,  nas questões de dinheiro éramos perfeitamente crianças.

Naquele tempo isto fazia algum sentido. A "quarta classe" nem sequer era obrigatória (passou a sê-lo para os rapazes em 1957 e para as meninas em 1960). Apenas era obrigatória a "terceira", que se chamava o "primeiro grau do ensino primário".

Para a grande maioria dos meus companheiros terminou ali a carreira académica. Tive o privilégio de pertencer ao restrito número de menos de 10% que prosseguiu estudos. Para os outros o "exame da quarta", ou o mais modesto "exame da terceira", foi o passaporte para a vida laboral. Na fragilidade dos seus 10 ou 11 anos, passaram a ser, nos campos, nas oficinas e nas fábricas,  mão-de-obra disponível e, mais do que isso, mão-de-obra qualificada. Porque os adultos com quem iam aprender as artes práticas eram, quase metade deles, analfabetos (taxa de analfabetismo em 1950: 42%).
Eram na verdade uns "doutorzinhos" que tão bem interiorizaram a mais-valia da sua qualificação que ainda hoje ouvimos alguns afirmarem: "Aprendi mais na minha quarta classe do que estes moços agora na universidade".

Hoje isto é uma memória importante para bem percebermos os condicionamentos e fragilidades da nossa história educativa. Mas é uma aberração ressuscitar este modelo. A dinâmica dos tempos empurrou sucessivamente a escolaridade obrigatória  até aos 18 anos, alavancando consigo ao mesmo tempo a idade legal para trabalhar.

Uma coreografia do poder

Introduzir uma certificação pública nacional no fim do primeiro terço da escolaridade obrigatória traz vantagens ilusórias e tem claros inconvenientes.
É ilusório que aumente a responsabilização dos docentes. Os docentes já tinham a eficácia avaliada há alguns anos pelas provas de aferição.
É duvidoso que este aparato seja uma via adequada para desenvolver o sentido de responsabilidade e de cidadania em crianças de 9 e 10 anos. As crianças respondem perante os pais e perante quem eles delegaram o poder parental: os professores, os catequistas, os monitores de atividades de desporto e de artes. É através dessas figuras, que são em diferentes graus, esteios de proteção, de instrução, de afeto e de autoridade, que as crianças entranham os valores civilizacionais e fazem a sua caminhada para a autonomia cívica.

Introduzir numa idade tão precoce este ritual de sujeição a uma avaliação num local estranho, sob a vigilância de estranhos é um capricho de adultos que utilizam as crianças para uma exibição de poder. Faz-me lembrar os rituais para-militares a que éramos obrigados na "Mocidade Portuguesa". Na minha ingenuidade adolescente até achava piada àqueles desfiles, cânticos e exortações patrióticas. Só em adulto percebi que tinha feito parte duma coreografia do poder.

Um detalhe particularmente chocante deste exibicionismo do poder é a exigência feita aos putos dum compromisso de honra escrito de que não são portadores de telemóvel nem de outra tecnologia de copianço.
Os pais normais ensinam os filhos a cumprirem com honestidade as instruções dos responsáveis por uma atividade. Na presente situação os "engenheiros" do sistema parecem convencidos de que as crianças são uns energúmenos empedernidos em esquemas fraudulentos. Assim, não se contentam em deslocá-las para sítios estranhos, sob a severa vigilância de pessoas que nunca viram.. Arrancam-lhes o suplemento dum juramento escrito de honestidade, sob pena de impiedosa reprovação. Uma cena destas contém uma perigosa mensagem: "Vais viver num mundo fraudulento; olha como eu sou hábil a controlar-te; terás de ser mais hábil do que eu se quiseres escapar de ser controlado".
Estranha forma de estimular a responsabilidade pessoal. Quem inventou este esquema não tardará a propor que as crianças de 9 anos sejam sujeitas a responsabilidade criminal.

Os germes da exclusão

O exibicionismo do poder do Estado perante as criancinhas não é o aspeto mais gravoso desta deriva.

Reconheço que este exame é irrelevante para a maioria dos alunos que seguem sem percalços a carreira escolar.  Mas traz  uma carga dramática àqueles 10 ou 15% que já têm de lidar diariamente com o sofrimento da sua percebida menos-valia na sala de aula. Para estes é sempre um momento de especial ansiedade aquele em que se decide ou não a repetição do ano.
Até aqui cabia essa delicada tarefa ao conselho escolar. No limite era uma decisão arbitrária. Mas era uma decisão informada, com a participação de vários docentes e por vezes o recurso ao parecer de psicólogos e terapeutas.
É este processo que a atual cruzada anti-romântica chama "facilitismo". A ele opõem o "rigor" duma prova cega que no espaço duma hora separa o trigo do joio.
À arbitrariedade informada dos que são próximos da criança contrapõe-se uma arbitrariedade burocrática e sem rosto. Talvez a criança saiba reconhecer aqui o primeiro alerta para os poderes ocultos que irá encontrar na vida adulta.

Por mim, vejo antes os malefícios secundários que se perfilam.
Em vez dos programas personalizados  de recuperação, o sistema tenderá a aplicar receitas genéricas para a massa indiscriminada de "burros" de forma a conter os danos de contágio e de perturbação sobre o alegre curso dos bem sucedidos.
A escola, ao invés de se tornar o laboratório da inclusão, tenderá a replicar os mecanismos de segregação e estigmatização existentes na sociedade.
O ambiente da sala de aula tenderá a moldar-se à ansiedade da avaliação externa ao invés da alegria da aprendizagem e da descoberta.
À execrada "pedagogia romântica" sucederá a pedagogia do calculismo e da eficácia, da qual nascerá o homem novo, disposto a calcar tudo e todos para conseguir os seus objetivos.

Acredito que os professores do meu país não se deixarão arrastar por este perigoso caminho.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Dias de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
 
                                    Sophia de Mello Breyner Andresen 

Os versos de Sofia traduzem soberanamente a força encantatória dos dias que, há 39 anos, mudaram Portugal.

Passada a euforia daquele tempo primordial veio a estabilização. Uma democracia cada vez mais cansada e formal como a dos demais países do chamado "primeiro mundo". Com eleições e abstenções. Com um "arco" de partidos de governação que se alternam no poder e um "arquinho" de partidos de protesto que se cristalizam numa crítica contundente mas inconsequente.

Enquanto a crise financeira internacional não ameaçou as dívidas soberanas fomos vivendo sem sobressaltos esta rotina democrática.  A efeméride da "Revolução dos Cravos" chegou a ser, nos anos 90, um feriado quase banal, uma memória distante de algo já displicentemente arrumado nos manuais de História.

Hoje a desesperança dos tempos que vivemos suscita-nos a urgência de recuperar, nas palavras de Sofia, "o dia inicial inteiro e limpo".

Em surdina primeiro, em voz alta depois, em grito rouco de quem se vê tratado como um desperdício da crise, os cantos de Abril estão de volta. O "Grândola" da fraternidade, os "Vampiros" com que o Zeca nos ensinou a exorcizar o capitalismo galopante, a "Trova do Vento que Passa", com que o Alegre e o Adriano nos alumiaram a escuridão do tempo antigo.
                             Mesmo na noite mais triste
                             em tempo de servidão
                             há sempre alguém que resiste
                             há sempre alguém que diz não.

Foi desta quadra que me lembrei quando ouvi um manifestante desabafar que das liberdades já só nos resta a de expressão. E, acrescento eu, até esta liberdade de pouco vale porque os media estão quase monopolizados pelos pregadores do "não há alternativa".

Ontem o presidente Cavaco Silva foi, em discurso oficial, a voz da demissão e da submissão. No Dia da Liberdade atreveu-se a dizer que de nada serve ir as eleições. Só interessa o consenso para o cumprimento de tratados... que, vemo-lo agora, estão desenhados para nos esfolarem.

Escolheu mal o dia para se proclamar o nosso Pétain. Vou lembrar-me disso.
 

domingo, 31 de março de 2013

Papa Francisco


Simpatizo com o Papa Francisco. Tardei em escrever isto porque as primeiras impressões podem ser enganadoras. Sê-lo-ão ou não?

João XXIII foi eleito com a mesma idade de Francisco e, na altura, não se esperava mais do que um interlúdio beato a fazer tempo para um sucessor de maior envergadura. O certo é que, poucos meses depois, estava a convocar o concílio Vaticano II, que teve um alcance maior do que alguém podia imaginar.

Neste meio século eclipsou-se a força regeneradora do Vaticano II e a igreja católica está de novo enredada em vários labirintos que afetam a sua força e transparência no mundo contemporâneo.

Os primeiros sinais do papa Francisco são consistentes com uma vontade de abertura das janelas da complicada fortaleza vaticana.

Os jornalistas focaram-se no folclore de dispensar a gaiola de vidro do seu veiculo ou nos beijos às crianças e às pessoas com deficiência. Mas há outros sinais mais animadores.

Logo na sua primeira apresentação pública, identificou-se apenas como bispo de Roma: "Agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade". 
Aqui está um retorno à primitiva noção de Igreja, a que a cúria romana tem resistido. Todos os bispos são sucessores dos apóstolos à frente das igrejas locais. Ao bispo de Roma, sucessor de Pedro, cabe presidir à comunhão de todas as igrejas na caridade. O papa não deve ser um suber-bispo ou patrão dos outros bispos. O concílio Vaticano II tentou reencontrar esta colegialidade mas na prática, e aproveitando  a eficácia dos modernos meios de comunicação, o Vaticano tornou-se depois disso ainda mais controlador.

Na mesma ocasião prosseguiu: "Peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim". 
 Assim o papa Francisco completa a sua lição sobre a Igreja. A igreja local é a comunhão dos fiéis com o seu bispo. No dia seguinte, Francisco ilustrou melhor esta ideia celebrando a missa na igreja paroquial do Vaticano e cumprimentando no final os presentes.

Parece deste modo desenhada a estratégia de Francisco para  enfraquecer as resistências ao que tem de ser feito. Multiplica os sinais, em vez de começar a fazer reuniões e decretos. Depois do escândalo conhecido por Vatilealks (divulgação de documentos confidenciais sobre as lutas de poder dentro da cúria romana), esta é uma estratégia de grande sabedoria para desarmar aqueles que pretendam aproximar-se dele com ideias de poder e não ideias de serviço.

No mesmo sentido se inscreve a sua recusa, para já, em residir nos aposentos papais, preferindo uma suite da Casa de Santa Marta (uma espécie de hotel do Vaticano), o que certamente lhe permite manter uma separação entre as funções oficiais e a vida pessoal e fazer mais contactos informais, à semelhança do que acontecia no arcebispado de Buenos Aires.

Outra nota significativa é a escolha do nome Francisco, evocação da figura do "pobrezinho" de Assis, que criticou severamente a opulência da igreja do seu tempo e propôs o investimento na fraternidade humana e na comunhão com a  natureza. O tema aparece na sua alocução de tomada de posse, em 19 de março: "Sejam os guardiões da Criação, do plano divino inscrito na Natureza, guardiões do Outro, do ambiente. Não deixemos que os sinais de destruição e morte acompanhem o caminho do nosso mundo.”
Há aqui uma clara opção por uma linguagem fácil, distanciada das rebuscadas formulações doutrinais que os redatores de serviço costumam colocar nas mãos do papa. 

Hoje, na alocução da Páscoa, manteve um registo semelhante: “Paz para o mundo inteiro, ainda tão dividido pela ganância de quem procura lucros fáceis, ferido pelo egoísmo que ameaça a vida humana e a família".

É curioso que neste mesmo dia tenha quebrado a tradição dos seus antecessores de fazer saudações em várias línguas. Porque seria? Não é por ignorância porque, como jesuíta, estudou em faculdades de diversos países. Será por o considerar uma vaidade inútil?
  
Há poucos dias a imprensa publicou o resumo da intervenção feita pelo cardeal Bergoglio numa das reuniões preparatórias do conclave, e que bem podemos tomar como o seu programa de governo:

 "Evangelizar supõe para a Igreja a audácia de sair de si própria. A Igreja é chamada a sair de si própria para ir até às periferias, não apenas geográficas, mas também das periferias existenciais: as do mistério do pecado, as da dor, as da injustiça, as da ignorância e da abstenção religiosa, as do pensamento, as de toda a miséria. (...)
Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si própria, a 'Dei verbum religiose audiens et fidenter proclamans'; ou a Igreja mundana que vive em si própria, de si própria e para si própria".

Noutro passo: "Quando a Igreja não sai de si própria para evangelizar, torna-se auto-referencial e fica doente, (...) uma espécie de narcisismo teológico".

Este pequeno texto contém uma crítica crucial à igreja católica de hoje: uma igreja auto-satisfeita, que reivindica os seus direitos, que critica todos à sua volta e que exibe como troféus a sua doutrina, as suas obras e os seus sucessos, passados e presentes. Uma igreja que em vez de evangelizar estigmatiza os desviantes dos seus dogmas e normas. Uma igreja que parece  mais a dona de Deus do que a serva que "ouve religiosamente a Palavra de Deus e a proclama fielmente".

Tenho de reconhecer que, se começar por aqui, o papa Francisco pode ir longe na abordagem dos desentendimentos da igreja com o mundo contemporâneo. 

Veremos se eu e outros desanimados da igreja nos vamos sentir em condições de acompanhar a sua caminhada. 
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Arte e solidariedade


No passado sábado estive na Noite de Fados, organizada pela Cerci-Lamas no salão do Lions Clube de Santa Maria da Feira.

Este formato de eventos para angariação de fundos tem uma forte marca anglo-saxónica, onde o envolvimento nas causas e projetos comunitários é assumido como uma dimensão normal da cidadania, em contraste com a maior tradição individualista dos países latinos.

É saudável que o velho sistema da pedincha esteja a ser substituído por este modelo de entrelaçamento entre os atores das obras sociais e os seus apoiantes, dando-se as mãos para a realização dos objetivos institucionais.

Não estou a criticar as campanhas de donativos. Longe disso. Mas não podemos esquecer que o ato de dar representa uma relação assimétrica. O poder está do lado de quem dá. Quem dá pode arrogar-se pretensões de intromissão no uso dos seus donativos, à sombra de outros interesses que não os valores da instituição.

No tradicional associativismo de beneficência há uma evidente distinção entre dois blocos, os benfeitores e os beneficiários, sendo que o poder está apenas num dos lados.

As Cerci's, ao assumirem a forma cooperativa, procuraram desde o início ultrapassar esta assimetria e cultivar uma relação paritária entre todos os interessados nos seus objetivos. Uma ideia que hoje se encontra disseminada pela maioria das instituições de solidariedade.

Ao decidir organizar um jantar de arte, a Cerci-Lamas conseguiu muito mais do que angariar perto de dois mil euros. Mais importante do que isso foi:
  •  Contar com a disponibilidade e generosidade dos fadistas e dos músicos cuja qualidade é reconhecida na região;
  • Mobilizar a comunidade a ponto de esgotar a capacidade da grande sala do Lions;
  • Congregar a boa vontade dos colaboradores da Cerci-Lamas que, independentemente das suas funções profissionais, puseram mãos à obra de confeccionar e servir o jantar;
  • Perceber a sensibilidade dos fornecedores, que doaram grande parte dos produtos alimentares;
  • Juntar à mesma mesa os técnicos, os clientes, os artistas e os amigos, sem barreiras ou preconceitos.
Ouvimos por aí os comentadores fazerem balanços sobre a resposta do público às campanhas de solidariedade. Por mim tenho uma impressão muito clara e tive ocasião de a dizer neste jantar. As pessoas sensatas rejeitam o discurso dominante que nos enreda a pretexto da crise. Rejeitam a ideia do homem duma só dimensão: produzir e consumir. Rejeitam que as decisões de governo dum país ou duma empresa se baseiem apenas no cálculo dos custos e benefícios financeiros. As pessoas de bom senso aproveitam ocasiões como esta para mostrarem a sua crença na pessoa multidimensional que se afirma pelo trabalho, pela cultura, pela arte, pela convivialidade e pela solidariedade.

O que nos há-de salvar da presente crise é esta crença na pessoa que tem por motor da sua existência a Sabedoria, o Amor, a Estética e a Ética.

Por tudo isto, foi bom estar ali.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Banqueiros desavergonhados


Ontem vi na TV um documentário sobre o Goldman Sachs, o gigantesco banco americano que, ao contrário do Lehman Brothers, foi salvo da bancarrota pelo governo federal na crise financeira de 2008.  (Pode ler-se mais aqui)

O filme explica detalhadamente os esquemas da especulação com o dinheiro dos clientes e com dívida soberana dos Estados em dificuldade. Para aqueles gestores a única ética que conhecem, e eles dizem-no francamente, é ganhar dinheiro a qualquer preço.  Os clientes que se precavenham contra os riscos e não venham depois fazer queixinhas por terem ficado a arder.

O filme mostra também como o Goldman Sachs foi uma "escola" por onde passaram altos responsáveis financeiros da Europa como Mario Draghi, governador do BCE,  Mario Monti, primeiro-ministro cessante da Itália ou António Borges, consultor do governo português. Uma escola onde se aprende que a necessidade básica da humanidade é um sistema bancário com lucros crescentes. E quando os lucros tremerem devem os contribuintes ser pressurosamente convocados para tirarem o pão da boca e darem-no de alimento aos sagrados templos do dinheiro.

Afinal os que não passaram por tão excelsa escola não querem mostrar-se menos graduados.

Fernando Ulrich, presidente do BPI, é um conhecido reincidente nas soluções redentoras. Disse e reafirmou que o povo "ai aguenta, aguenta" com mais austeridade, apontando o magnífico exemplo de resiliência dos sem-abrigo. Propôs-se generosamente acolher no seu banco centenas de jovens saídos das universidades para que aprendam a trabalhar. Aí está! Um ensino gratuito de tão sublime mecenas! Que mais querem eles?

Pois agora outro estafado bancocrata, João Salgueiro, quis ir mais longe. Não é de admirar, a cabeça dos banqueiros está muito treinada para pensar em grande. Diz ele: "Há todos os anos incêndios porque as matas não estão tratadas. É assim tão complicado pôr as pessoas a tratar das matas?»
 O entrevistador ficou embatucado e perguntou se a ideia era também para os seus alunos da universidade. Claro: "Foi o que se fez noutros países. A seguir à guerra as pessoas trabalharam com as mãos". 
Assim, sem mais nem menos. Os desempregados são os despojos duma guerra que os bancos desencadearam e venceram.
Fico na dúvida se o projeto inclui o fornecimento de farnel e ferramenta ou se isso iria desequilibrar mais as contas públicas. 
Mas, com o que começo a conhecer desta gente e da escola do Goldman Sachs, deixem-me dizer que, se estes projetos de trabalho escravo fossem por diante, dentro de um ano aí estavam estes magníficos banqueiros, com os números na mão, a demonstrar que a nossa produtividade é cada vez mais baixa e é urgente continuar a comprimir os salários e as pensões.

Mas esperem aí. Há coisa ainda de maior espanto. Filipe Pinhal, o presidente exonerado e reformado do BCP, anunciou publicamente a sua última invenção: o Movimento dos Reformados Indignados (MRI).
 Pois não é que o homem não aguenta que a contribuição extraordinária de solidariedade (CES) lhe rape uma importante fatia da sua magra reforma de 70.000 euros mensais!
Imagino os seus colegas de gestão a fazerem fila para se inscreverem no MRI. Talvez também o Cavaco Silva e a Assunção Esteves.
E eu? Que hei-de fazer? Eu que também apanhei com a CES na minha reformazita de mil e tal euros!
Vou pagar umas quotas ao Filipe Pinhal para ele me defender? 

Quem havia de imaginar? Um banqueiro ao meu lado, na mesma onda de indignação! 
Eles têm cá uma escola!...

sábado, 2 de março de 2013

Que raio de trajetória!


Passaram dois anos desde o fatídico março de 2011 em que, acossado pela turbulência dos juros da dívida soberana, Sócrates levou à imperatriz Merkel e ao seu tesoureiro o Banco Central Europeu (BCE) um pacote de austeridade que grangeasse a sua complacência e obtivesse deles uma mensagem de tranquilização para os mercados.

Mas a corda partiu-se cá dentro. O parlamento recusou o PEC IV por ser insuportavelmente penoso. O país foi a eleições ao mesmo tempo que negociava o resgate financeiro da troika.

A coligação vencedora prometeu uns sacrifícios provisórios e, no prazo de dois anos, um país em glória. Tudo devidamente avalizado pela sapientíssima trindade: FMI, Comissão Europeia e BCE.

O novo governo (agora velho e caduco) proclamava entuasiasmado que era preciso "ir além da troika", ou seja, fazer sacrifícios maiores para os resultados serem mais rápidos.

Estão a esgotar-se os dois anos da promessa da salvação, e tão trágica é a nossa situação como o discurso delirante do primeiro-ministro Passos Coelho:

 "Estamos na direção correta. Não existe necessidade de alterar a trajetória".

 Passemos então em revista os principais indicadores da gloriosa trajetória.

Trajetória do Produto Interno Bruto (PIB)

É só abrir o site do Banco de Portugal (o tal que antigamente servia para alertar o governo e agora parece que serve para o amparar), e consultar o histórico dos boletins trimestrais de previsão.

Em março de  2011 registava o crescimento de 1,4% em 2010 e previa a queda de 1,4% em 2011 e a recuperação de 0,3% em 2012.

Em março de 2012 registava a queda de 1,6% em 2011 (mais tarde retificada para 1,7%) e previa a queda de 3,1% em 2012 e a recuperação de 0,3% em 2013.

No momento atual, a queda de 2012 está fixada provisoriamente em 3,2% e a previsão de queda em 2013 agravou-se para 2%.

Como se vê, uma fuga para a frente, sempre a cair...

Trajetória do desemprego

Em Março de 2011 o desemprego atingia o número dramático de 12,3%. A previsão no programa de ajustamento era de que ele ainda subiria até aos 13%. 

Depois seria sempre a descer. Lembram-se? Com a reforma das leis laborais as empresas desatariam numa correria louca às contratações! E com os cortes no subsídio de desemprego o pessoal saltava da sua zona de conforto e criava o seu próprio emprego!

Hoje o desemprego está oficialmente em 17,6% e ninguém se atreve a fazer previsões.

Mas o governo e a troika lá vão dizendo que ainda há demasiados incentivos para as pessoas ficarem inativas. Que insuportável delírio!
 
Trajetória da dívida pública

 No final de 2010 a dívida pública atingiu 93,5% do PIB.

Com o programa de ajustamento previa-se que ela que ela atingisse o pico de 115%. Lembrem-se de que a recapitalização da banca é feita com o dinheiro do empréstimo da troika e consequente agravamento da dívida pública.

Pois mal! No final de 2011 a dívida era de 108% e no final de 2012 ultrapassou os 120%. 

Outras trajetórias

Podia falar da trajetória dos nossos rendimentos de assalariados e pensionistas e da trajetória dos rendimentos dos bancos e das grandes empresas. 

Podia falar no meu IRS comparado com os 7,5% que o banqueiro Ricardo Salgado teve de pagar sobre os milhões de rendimentos pessoais que se tinha esquecido de declarar.

Podia falar dos lucros do BCE com a compra da dívida dos países periféricos no mercado secundário.

Mas fico-me por aqui...

Hoje é dia  de sair à rua e dizer: 
 É preciso parar a corrida para o abismo!

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Liberdade de expressão e de manifestação


Toda a gente concorda que a liberdade individual tem por limite a liberdade do outro. 

Este aforismo é bonito mas está longe de ser prático. A regulação acaba por decorrer do bom senso dos cidadãos. Numa praça tranquila considero abusivo ser abalroado por outro transeunte e obrigado a desviar a minha rota. Mas numa praça apinhada de gente posso nem conseguir mover-me do ponto em que estou e não me queixo de estarem a privar-me da liberdade.

O exercício da liberdade é uma arte de adaptação aos diferentes contextos.

Vem isto a propósito da mais recente tempestade opinativa de prós e contras em torno das manifestações cantantes que interromperam os discursos do ministro Relvas e, com menos convicção, outros membros do governo. Num caso específico, o da sessão no ISCTE, o  ministro desistiu mesmo de falar. O incidente permitiu ao governo emitir um comunicado a dizer que "estas manifestações suscitam necessariamente o repúdio de quantos prezam e defendem as liberdades individuais". E o líder parlamentar da maioria, com uma fulgurante inspiração náutica, proclamou no parlamento que "a democracia foi abalroada".

É manifestamente um exagero dizer que a liberdade de expressão dos ministros está condicionada. Por toda a parte são seguidos por câmaras e microfones ávidos de mais uma palavrinha que alimente o próximo boletim de notícias. E de resto não faltam no espaço público imensos interventores para ampliarem os pontos de vista do governo.

Defendendo a liberdade de expressão, preocupo-me com os sem voz e os sem poder. E esses sentem-se em parte representados no canto da "Grândola" ou num refrão de protesto. É um discurso breve e simbólico, tendo por tribuna improvisada um átrio ou um fundo de sala. Mas que outras tribunas há onde um milhão de desempregados e tantos outros despojados possam dar conta das suas razões, dos seus agravos e das suas propostas? 

Qual o moderador dessas sessões interrompidas que disse: "Está aqui o microfone para um representante dos manifestantes"?  Nenhum. Não quiseram arriscar uma voz fora do guião. Preferiram queixar-se de ameaças à liberdade de expressão. A liberdade, pensam eles, é só para as expressões previamente programadas. De facto, a verdadeira liberdade é perigosa...

Não. Não me inquieto com a falta de liberdade de expressão dos senhores ministros. Inquieto-me sim com o escasso pluralismo dos nossos meios de comunicação e com a opacidade dos poderes que os controlam.

Inquieta-me que os descontentes pensem que não vale a pena manifestarem-se e aceitem que a participação democrática se limita a um voto cada quatro anos. 

Inquieta-me que os descontentes pensem que a manifestação pacífica é inútil e que é necessário passar à ação violenta.

Inquietam-me os que ultrapassam a linha da denúncia dos erros da governação e resvalam para o insulto fácil e generalista a todos os políticos: corruptos, fascistas, ladrões, etc. Isso é a cortina de fumo que protege os que se aproveitam da presente crise.

Inquieta-me que haja ministros como o Relvas que, não obstante os telhados de vidro, tem a lata de se expor com ar provocante, como um puto trauliteiro no recreio da escola.

Quem exige decoro aos manifestantes tem de exigir super-decoro aos governantes. Felizmente alguns deles perceberam isso.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Abdicação do Papa


Cresci com uma educação católica aprofundada. Daí que acompanhe com atenção as incidências da Igreja Católica  no mundo contemporâneo, às quais reajo com o aplauso ou o distanciamento crítico como é próprio de pessoas livres.

Dos entusiasmos com que na minha juventude acompanhei, com muitos outros, os trabalhos do Concílio Vaticano II, passei gradualmente ao desencanto pelo progressivo enterramento do seu élan renovador. Hoje comemora-se o cinquentenário dessa magna assembleia como se fosse um arquivo morto onde se vão respigar umas frases bonitas para ornar palestras e homilias.

Da Igreja colegial que o Concílio pretendeu, rapidamente a Cúria romana fez uma conveniente domesticação, chamando a si as agendas dos Sínodos dos Bispos e transformando-os em veículos de amplificação do centralismo doutrinário, pastoral e disciplinar da Cúria ao invés da afirmação criativa das igrejas locais.

Tudo isto se perpetua pelo intocado controlo hierárquico onde qualquer irrupção profética tem poucas hipóteses de vingar.

A chave desta solidez hierárquica, que tanto agrada aos portadores duma fé fraca e aos saudosistas duma igreja poderosa e influente, está no absoluto controlo da Cúria e dos seus embaixadores na escolha dos bispos e dos diretores das faculdades de teologia, e no acompanhamento sistemático da sua atuação.

Uma hierarquia rígida tem de ter um rosto forte. O culto da personalidade do Papa teve aligeiramentos pós-conciliares; passou o tempo do beija-pés e do transporte em ombros, como um santo na procissão. Mas as encenações públicas continuam espetaculares e as suas encíclicas e discursos continuam a ser referências obrigatórias de ortodoxia nas argumentações dos católicos.

Colocada nesta desmesurada dependência da figura papal, a Igreja Católica sente um sobressalto dramático a cada sucessão. Mais ainda. A cada fase de declínio do vigor do Papa pululam os rumores sobre as manobras de bastidores dentro da Cúria. Tudo facilitado pela ausência de qualquer instância colegial  formal a quem ele deva explicar-se. O dogma da infalibilidade não é apenas redundante (porque tem como condição que o papa interprete o sentir geral da Igreja); ele é utilizado abusivamente para obstaculizar a criação de órgãos independentes que assistam o governo ordinário do Papa e dêem alguma transparência à Cúria.

Lembro-me dos rumores de jogos de poder que corriam nos últimos anos de Paulo VI, falecido em 1978. Depois o longo pontificado de João Paulo II fez com que o seu declínio fosse aparentemente mais pacífico porque toda a Cúria estava já na mão dos seus indefectíveis. Daí que para seu sucessor tenha emergido naturalmente o seu braço direito doutrinário, o cardeal Ratzinger, com o nome de Bento XVI.

Se alguma diferença tem com o seu predecessor é a de um conservadorismo revestido de rigor intelectual, face ao anterior conservadorismo popular e devocional. As diferenças no intervencionismo político parece-me terem mais a ver com a abissal diferença de contextos em que atuaram.

É ainda nesse distinto rigor intelectual que radica, em meu entender, a diferente reação à decadência física que, como mostra o episódio do mordomo, já estava a provocar agitação nos bastidores.

Foi penoso observar a obstinação de João Paulo II no exercício do seu cargo no meio do sofrimento e da doença.

Bento XVI, que privou com João Paulo II tanto no vigor como na decadência, vem agora declarar no seu discurso de renúncia:

"Estou consciente de que este ministério, pela sua natureza espiritual, deve ser levado a cabo não apenas por obras e palavras mas também, em menor grau, através do sofrimento e da oração".

Eis aqui uma crítica certeira à obstinação do seu antecessor e uma recusa de se prestar ao mesmo triste espetáculo.

Em harmonia com a "papolatria" reinante, os mesmos devotos católicos que teceram panegíricos à perseverança de João Paulo II no seu posto, vão agora cantar loas ao desprendimento de Bento XVI.

O certo é que este gesto constitui uma ruptura importante numa antiquíssima tradição que tem prejudicado a vitalidade da Igreja. E é sem dúvida a melhor herança que ele deixa num pontificado relativamente breve e bem recheado de problemas e dilemas.

Só pela coragem deste gesto o seu pontificado já valeu a pena.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Limpa-neves e outras inutilidades


"Vivemos acima das nossas possibilidades" continua a ser o mote dos nossos governantes. "Cortar nas gorduras do Estado" é a palavra de ordem.

Até agora as únicas gorduras cortadas, e com que dor, foram os salários dos funcionários públicos e as pensões de todos os reformados.

Todas as baterias propagandísticas estavam apontadas para as rendas astronómicas das parcerias público-privadas. Mas até agora os únicos cortes resultaram da suspensão das obras e da diminuição das obrigações que cabiam aos concessionários.

No entanto o ministro Álvaro e os seus rapazes nas empresas públicas têm uma necessidade louca de apresentar poupanças ao Gaspar e vá de puxar pela imaginação.

Desta vez o presidente das Estradas de Portugal  esmerou-se no elenco dos luxos da nossa mania das grandezas.

"Eu como português, custa-me ter 42 limpa-neves em Portugal, 51 centros de apoio e manutenção em Portugal, patrulhamentos de duas em duas horas sem qualquer utilidade específica e sem qualquer paralelo na Europa e, como português, custa-me porque os portugueses pagam isso tudo".

Confesso que não sei se os limpa-neves são muitos ou poucos, e o senhor presidente também não esclarece. Apenas acrescenta que tal nível de segurança não tem paralelo na Europa. E isto causa-me bastante confusão. Se calhar ele acha que a Europa são as belas praias do Sul e do Oeste, e que as nossas ríspidas serras interiores devem ficar na cordilheira dos Himalaias.

Para ilustrar a sua inabalável determinação nas poupanças acrescentou: "Garanto que não vou pedir para porem nas estradas portuguesas sinalização em ouro".

Assim mesmo é que é falar. Limpa-neves são tão sumptuários como sinalização em ouro. Não vamos ter para aí esses brinquedos parados por causa duma dúzia de nevões por ano.

E já agora, senhor presidente, passe a ideia aos outros ministros, que são uns tapados e ainda não perceberam as inutilidades que nos obrigam a pagar. Fale ao ministro da administração interna e ao ministro da defesa nos custos astronómicos dos dispositivos de ataque aos incêndios e dos meios de salvamento marítimo. Que também estão parados a maior parte do ano. Uma afronta à nossa  pobreza. 

Tem razão, senhor presidente. Não queremos viver acima das nossas possibilidades. E já agora, auto-extinga o seu cargo. Não temos possibilidades de pagar aos fala-barato inúteis.

 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

(E)ternamente


Nem os rios caudalosos conseguirão submergir o amor  (Cântico dos cânticos, 8,7)



Pela manhã
Nos encontrámos
E doce foi
O teu calor;
Pelo meio-dia
Nos abraçámos,
Foi brisa fresca
O teu amor.
Se a tarde encolhe
A luz no céu,
Dentro de nós
Outro fulgor
Arde sem fim.
Mãos enlaçadas
Somos tu e eu:
Amor sem tempo,
Sonhos ao vento
Selva e jardim.
Só sei de mim
Se estás comigo:
Apoio sereno,
Coração terno,
No entardecer
Que a nós vem ter.
Sonho com sonho,
A vida é nossa,
Juntos iremos,
Juntos bebemos
Cada sabor
Dum eterno amor.