Por muitos natais que já passei na minha vida, ainda não descobri a atitude certa para este dia tão especial.
Os primeiros cristãos celebravam a morte e a ressureição de Jesus, porque aí se explicitava a mensagem fraturante que Ele trouxe a um mundo dividido entre poderosos e vítimas.
A celebração do Natal só ganhou relevo no século IV, concentrando a atenção nas narrativas que nos deixaram dois evangelistas sobre o nascimento de Jesus, como preâmbulo simbólico do que viria a ser a sua vida.
Lucas (2,1-18) apresenta-o a nascer fora de casa e da cidade, um sem-abrigo, apenas reconhecido e amado pelos pastores, uma classe desqualificada e sem poder.
Mateus (2, 1-12), que escrevia para os cristãos vindos do judaísmo, preocupa-se em identificá-lo como o messias anunciado pelos profetas e, tal como os profetas, temido pelos poderosos e incompreendido pelo seu povo. Apresenta-o a ser reconhecido e amado unicamente por estrangeiros ("os Magos vindos do oriente"), e a ter de se exilar logo à nascença para escapar à fúria assassina do rei Herodes.
O Natal faz sentido como festa da fraternidade universal, na esteira deste menino que se anuncia tão perigoso para os poderosos do sistema. Faz sentido alegrarmo-nos com a boa notícia de que a igualdade e a justiça são possíveis e têm hoje e aqui os seus promotores e defensores.
Faz sentido também lembrarmo-nos neste dia de quão longe estamos do mundo anunciado por Jesus, quando vemos a concentração iníqua da riqueza e do poder em poucas e obscuras mãos.
Faz sentido lembrarmo-nos daqueles que agonizam ignorados e excluídos nas margens das nossas comunidades. Lembrarmo-nos dos estrangeiros que morrem nos mares de Lampedusa em busca do pão da Europa, enquanto oferecemos vistos dourados aos estrangeiros que tragam na mala um monte de dinheiro.
Sem comentários:
Enviar um comentário