Recuso ser sufocado pelos fazedores de opinião; procuro uma brecha para duvidar e perguntar.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Mães que pedem colo
Talvez por ser do outro lado do mar os opinadores do costume ignoraram a notícia ou arrumaram-na como mais uma "americanice".
Quem lida profissionalmente com adolescentes pode espantar-se com a dimensão do grupo envolvido, mas não com o desejo precoce da maternidade, partilhado com amigas e levado à prática em simultâneo.
Sabe-se que o nosso país é campeão das gravidezes adolescentes. A explicação fácil e barata é a ignorância ou a irresponsabilidade. E toda a gente reclama ao governo que despeje por aí toneladas de contraceptivos e invada as ruas com um exército de educadores sexuais.
A verdade é que muitas adolescentes se "descuidam" por desfastio e outras simplesmente querem ser mães.
Porquê? É difícil percebê-lo. São razões emocionais em que vários sentimentos se misturam e confluem.
Querem introduzir a ruptura numa existência entediante, entre a casa e a escola, que ameaça eternizar-se por muitos anos. Querem assumir o estatuto de centro de atenções e de cuidados, num mundo em que são um número para a escola e um estorvo para a ocupada agenda dos pais. Querem ter alguém a quem se devotar inteiramente, mas também alguém obrigado a retribuir-lhes o amor. Querem pela via do estatuto maternal conseguir a emancipação social e económica doutro modo inatingível (geralmente com ideias distorcidas sobre o volume dos apoios à maternidade). Querem ingenuamente aprisionar o "fabuloso" namorado que acabaram de conhecer.
Felizmente já não estamos no tempo das lamúrias sobre os desvarios desta juventude estouvada. Mas interrogo-me sobre o que falhou e está a falhar entre os pais e os avós destas adolescentes que procuram um caminho tão perigoso e arriscado para crescerem e se fazerem mulheres.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
A propósito do preço do petróleo
Diz-se que ao Estado compete regular. É música para os ouvidos das grandes empresas. Com a sua implantação multinacional e transnacional, estão muito bem armadas para fintar o regulador.
E o eleitor está cada vez mais consolado por ver desprovidos de poderes os políticos que considera incompetentes.
Algumas perguntas inocentes:
1) Porque é que os media opinam até à exaustão sobre a incompetência da classe política, e nunca esgotam os louvores aos magníficos empresários? Quando muito deixam escapar uns desabafos sobre as fraquezas das pequenas empresas...
2) Porque é que no momento da crise toda a gente berra que o governo tem de fazer alguma coisa, e no momento de acalmia toda a gente berra contra o governo que faça alguma coisa?
3) Porque é que toda a gente chora sobre as vítimas da crise petrolífera e toda a gente opina sobre o que o governo e a União Europeia têm de fazer para as apoiar, e ninguém se interroga sobre o destino e utilização dos rios de dinheiro que entram nos bolsos dos países e companhias produtores de petróleo? Será que eles pertencem a outro planeta? Até já os ouvimos dizer descaradamente que não concordam que o petróleo esteja tão caro... Que amiguinhos que eles são...
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Sacudir o pensamento formatado
A diferença é que eu não mereço nenhum Vieira para perpetuar a memória das palavras lançadas aos peixes por não haver em terra espaço para elas.
A minha motivação, expressa no nome do blog, é sacudir o sufoco que os opinions makers introduziram no espaço comunicacional.
Gosto muito de informação, de conhecer factos e contextos, para criar a minha própria opinião. Mas até os mais graves jornalistas se sentem na terrível obrigação de substituirem ou submergirem os factos nas suas definitivas opiniões, nas opiniões dos "populares" interessados, e nas opiniões dos notáveis que acedem generosamente a pronunciar-se sobre o assunto.
Aqui quero sacudir o fardo das opiniões. Quero factos e perguntas. E, claro, algumas opiniões contra os opinadores.
Salvas sempre as honrosas excepções, os "sábios" que por aí opinam não passam daquele registo básico de serem a favor ou contra o que quer que seja. Como se tivessem uma encomenda para entregar. Em muitos casos é mesmo encomenda oficiosa, já que são militantes partidários e escolhidos a esse título.
O resultado é a saturação de argumentos sobre a mesma faceta do problema, e a incapacidade de abrir outras janelas para outros horizontes.
Pretendo um discurso directo, sem pretensiosismos. Não sou um novo Sócrates (o outro, o da maiêutica), até porque não quero, nem de longe, conhecer o sabor da cicuta. Mas gostaria de saber fazer a pergunta necessária no momento certo.