quinta-feira, 28 de julho de 2011

Pulsões de morte


Passaram alguns dias sobre o massacre de Oslo e, como é habitual, o assunto já não abre telejornais e já não convoca inflamados comentaristas e especialistas para os holofotes dos estúdios. Daqui a pouco será apenas uma vaga memória periódica para todo o mundo, excepto para os familiares e amigos das vítimas.


Depois de uns vinte anos de Al-Qaeda, as nossas cabeças estavam feitas para o modelo. Custou-nos a acreditar que o terrorista fosse alto e louro, e viesse advogar que era necessário espalhar sangue e morte para erradicar da Europa o marxismo e o multiculturalismo.

Exactamente a reprodução em espelho do discurso e da prática do fundamentalismo islâmico, que advoga a morte violenta como caminho para eliminação dos "infiéis" e a restauração do grande califado dos adoradores de Alá.

Ficamos com a sensação de a história ser cíclica, de andar sempre a repetir-se nos seus erros, em vez de nos encaminhar para um horizonte de perfeição de que fala o cristianismo e, noutro registo, o marxismo.

A velha máxima de Plauto "o homem é o lobo do homem" persegue-nos dramaticamente. Nenhuma outra espécie animal consegue ombrear com o homem em agressividade e destrutividade para com os seus semelhantes.

A capacidade simbólica que nos superioriza é também a nossa perdição. Com ela cavalgamos a mais brilhante estrela da generosidade e da entrega aos outros; com ela descemos ao inferno mais negro da eliminação de companheiros na nossa casa-mãe, a Terra.

O assassinato intencional de alguém é sempre uma tragédia, uma perversão civilizacional. Sejam quais forem as razões.

Pode ser um vulgar bandido que mata a vítima do seu assalto. Pode ser o ditador que mata o resistente ao seu poder. Pode ser o guerreiro que limpa a cidade conquistada. Em todos estes exemplos a ambição pessoal de bens e de poder está patente e torna particularmente execráveis os seus autores.

Pode ser um chefe religioso que purifica o seu rebanho das ovelhas tresmalhadas, como aconteceu com a inquisição e hoje com regimes fundamentalistas islâmicos.
Pode ser um chefe de partido que promove a eliminação dos dissidentes. Pode ser o militante duma ideologia ou o crente duma religião que, enquanto não tem instrumentos de poder, trata de programar individualmente ou em grupo assassinatos de mensagem.

Será este o caso dos atentados da Al-Qaeda e do massacre de Oslo.

Estas situações são particularmente chocantes porque a bandeira justificativa é imaterial. Há um aparente desprendimento pessoal e um ideal superior que mobiliza estes assassinos. É chocante pensar que na cabeça destas pessoas uma ideia cresceu tanto, tanto que encobriu como uma cortina o rosto dos seus semelhantes e os converteu em meros calhaus de arremesso dum suposto projecto transcendental.

A cabeça humana é um artefacto perigoso. É aconselhável ter bastante cuidado com o que despejamos lá dentro desde a infância. Crise de valores não pode ser ausência ou menosprezo de valores. Se não, os valores regressarão sob formas inchadas e grotescas.

Armemos as nossas mentes com boas ideias. Só assim dispensaremos armarmos as mãos de boas e más armas.







domingo, 24 de julho de 2011

A "sorte" de ser amputado

Os media noticiaram há dois dias que o atleta sul-africano Óscar Pistorius, amputado de ambas as pernas, tinha conseguido os mínimos para competir na corrida dos 400 m nos Jogos Olímpicos de 2012.

O atleta usa em prova umas próteses especiais em forma de C, criadas pelo norte-americano Van Phillips nos anos 80, para lhe facilitar as suas próprias corridas desportivas, já que sofreu a amputação duma perna.

Ficamos naturalmente satisfeitos e fascinados por saber de mais uma pessoa que correu atrás dos seus sonhos e superou todos os desafios que a sua limitação física lhe colocava. Ele não se contentou em ser um campeão para-olímpico, mas quer ser OLÍMPICO sem prefixos.

Mas a notícia não se fica por aqui. Ficámos a saber que Pistorius teve de enfrentar uma batalha jurídica para ser admitido à competição.

Pelos vistos a Federação Internacional de Atletismo entendeu que as suas próteses lhe davam uma vantagem ilegítima sobre os demais atletas. E só o recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto lhe reconheceu os seus direitos.

Se não fosse o Tribunal Arbitral, só nos restava exclamar: "Valha-nos Deus!"

Tanto me procuro consolar com a ideia de que o nosso mundo está cada vez mais inclusivo, mas não me livro de apanhar com estas notícias-bofetadas.

Felizmente que os tais queixosos da concorrência desleal do Pistorius não me consultaram. Pois teriam a sugestão exacta: Não se amofinem com o homem e respondam-lhe na mesma moeda, mandem amputar as pernas e corram com próteses.