segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A impostura do Artur


Artur Baptista da Silva é um homem maduro e informado. O seu pecado foi enfeitar-se com uma função que não tinha, de funcionário da ONU, para as suas opiniões serem escutadas.

Aliás, não sei se foi um pecado ou se foi antes uma hábil estratégia de incursão no palco mediático, monopolizado pelos jornalistas, comentadores e seus convidados do costume. Opiniões que doutro modo teriam sido deitadas ao lixo com desprezo foram admitidas a um contraditório sério e os críticos não tiveram tarefa fácil a enfrentá-lo no debate  do "Expresso da Meia-Noite".

Nicolau Santos é um experimentado jornalista sobre o qual assenta grande parte da credibilidade do Expresso e da SIC-Notícias. O seu pecado é o de muitos dos seus colegas. Uma inchada vaidade leva-os a julgarem-se o centro do mundo e não toleram que alguém se arme em esperto e os faça cair numa vulgaríssima armadilha.

Quando eu, numa caminhada distraída, escorrego e bato com o rabo na calçada a minha reação é dissimular, fingir que estou a apanhar uma moeda, lançar a dúvida naqueles que julgaram terem visto a minha triste figura.

Parecia-me que seria essa a atitude sensata de Nicolau quando soube do falso cartão de visita do Artur. Ao invés, fez um espetáculo de vitimização e contaminou todos os media com a história da esparrela em que caíu.

Curiosa  foi a atitude dos seus pares.

Uma parte deles juntou à presunção da classe jornalística a inveja mais rasteira e exigiu em coro a demissão do incompetente Nicolau, que não soube reconhecer um impostor. A outra parte juntou à presunção da classe a fúria justiceira e exigiu à Procuradoria a condenação exemplar do execrável burlão.

Enfim, a impostura do Artur não revelou apenas o seu caráter dúbio. Revelou também o caráter dúbio de muita outra gente que se toma, e que nós tomamos, demasiado a sério.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natal! Viva a festa!


Há um ano pus aqui uma reflexão natalícia com uma certa coloração neo-realista, baseando-me na descrição evangélica de Jesus deitado na manjedoura.

Hoje retomo a narrativa de Lucas, entrando na parte que perturba o nosso racionalismo:


Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite. 
Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor.
O anjo disse-lhes:
Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de David um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:
Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, por Ele amados.
Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, disseram os pastores uns com os outros: Vamos até Belém e vejamos o que aconteceu e o que o Senhor nos manifestou. 
 Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura.
Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino.
Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores.
Como herdeiro da tradição cristã, tento perceber o que é que o evangelista queria dizer neste texto às comunidades cristãs que tinham aderido à mensagem transformadora de Jesus.
Se assumimos que os anjos a falar e a cantar não são uma realidade física mas simbólica, então também será simbólico que o menino esteja na manjedoura e não houvesse lugar na hospedaria.
É neste contraste entre o menino na manjedoura e os anjos a anunciar a paz e a salvação que se inscreve a mensagem do evangelista. E a mensagem é esta: a transformação do mundo injusto em que vivemos faz-se a partir dos fracos, dos sem-poder.

Hoje esta ideia tornou-se consensual nas teorias da intervenção social. Chama-se empowerment, o dar poder. Um poder que nasce da tomada de consciência da dignidade pessoal e da aliança com os demais marginalizados, com vista a uma distribuição justa do poder e dos recursos por todos os seres humanos.

Os poderosos do sistema são os que açambarcam o poder (económico, financeiro e político) em seu próprio benefício. Esses jamais se empenharão em transformações que lhes diminuam o poder.

A mensagem dos anjos e a sua pronta e festiva aceitação pelos pastores marcam a inauguração do tempo novo que Cristo anunciaria na sua vida adulta. Podemos dizer que estes pastores foram os primeiros a festejar o Natal.

Em tempo de crise, de sofrimento, de desespero e de agravamento das desigualdades, temos muitas razões para festejar o que aconteceu em Belém.

Festejar  é arrancar à rotina e à ansiedade um determinado dia e vivê-lo tal qual imaginamos o tempo ideal em que não haverá desigualdade, nem inimizade, nem privações.

Os que censuram os desperdícios dum dia de festa têm vistas curtas. Falta-lhes a dimensão do sonho e da esperança. A menos que os tais excessos não se inscrevam nesta celebração da fraternidade e da igualdade universais. A menos que tais excessos sejam uma exibição insultuosa de poder e de dinheiro.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Por favor, Ângela


Cara Ângela Merkel,


Sou um vendedor de bolas de Berlim nas praias desta costa ocidental que os seus compatriotas tanto apreciam. O meu negócio tem sido terrivelmente afetado pelo descrédito do nome do produto. 


É assim. O Passos anuncia um aumento dos impostos e dois dias depois aparece V. Exª ao lado dele a dizer que o ajustamento português está a correr muito bem. O Gaspar anuncia um corte colossal de salários e pensões e no dia seguinte vemos na TV o Schauble a dizer que o ajustamento é um exemplo para todo o mundo. O Álvaro anuncia a suspensão dos investimentos; o Relvas anuncia o corte dos feriados e mais umas vendas de empresas públicas; o Mota Soares anuncia mais uma subida do desemprego. E V. Exª vem comer um almocinho ao Forte de S. Julião para jurar sobre as águas do Tejo que o ajustamento está uma maravilha.

E eu a apregoar as bolas de Berlim e a ouvir as bocas foleiras: - A Merkel que tas compre!... O Schauble que as lamba!... O Passos que as leve à patroa!...

Francamente, tenho andado muito irritado consigo. Mas ontem percebi como estava enganado a seu respeito.

Foi quando li a entrevista que deu a um jornal do seu país. Aquilo sim é que é a estratégia de governação de que o meu país precisa.

Destaco três pontos:


1. "A principal missão em matéria de política económica" é possibilitar o crescimento em condições difíceis e garantir os postos de trabalho.

2. Rejeição categórica do aumento de impostos.
Angela Merkel rejeitou, entre outros, a possibilidade de aumentar os impostos sobre a sucessão ou património, já que isso "prejudicaria a classe média alemã, a espinha dorsal da Alemanha".

3. Prolongamento dos fundos do governo federal  para 'Kurzarbeit' (semana laboral com redução de horários) de novo de seis para 12 meses, com o objectivo de que as empresas mantenham "o seu maior tesouro", os seus especialistas, quando ocorrer um pequeno incidente conjuntural".


A minha grande pergunta agora é esta: Como é possível o governo do meu país fazer o contrário de V. Exª e continuar a receber os seus elogios?

Só encontro uma explicação: V. Exª anda a ser enganada pelos tradutores de português-alemão e alemão-porruguês. 

Por favor, D. Ângela, mude de tradutores. As centenas de milhões de euros que pagamos anualmente em comissões, para além dos juros, chegam e sobram para excelentes tradutores e explicadores das suas medidas de bom governo.

Por favor, D. Ângela, não continue a apoiar quem nos governa às avessas da sua sábia estratégia. 

A não ser que V. Exª entenda que as leis da economia funcionam duma maneira no planeta germânico e funcionam de modo inverso no desgraçado planeta dos PIGS.


Por favor, D. Ângela, não permita que esta dúvida subsista na minha cabeça.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Caridade e solidariedade


Isabel Jonet impôs-se ao respeito da comunidade pela sua capacidade de liderança dum grande projeto de voluntariado que são os Bancos Alimentares contra a Fome.
As pessoas aderiram ao projeto porque era bom, porque era eficaz, porque era necessário. Não lhe faltaram colaboradores e doadores.

Jonet tem todo o direito de falar das razões da sua ação, dos conceitos de sociedade que alimentam a sua intervenção social. Acrescentarei mesmo: é bom que o faça, por uma questão de transparência, um termo tão usado e abusado nos dias de hoje.

Mas ao fazê-lo expõe-se inevitavelmente às críticas e a causar mal-estar no pluralismo ideológico dos que colaboram e beneficiam dos Bancos Alimentares.

Já tive ocasião de escalpelizar aqui os perigos do pensamento isabelino. 

Volto ao tema porque a  entrevista  que deu recentemente ao jornal i permite uma perspetiva mais ampla do seu perfil. Faz um esforço visível por não se desviar da apresentação das práticas do Banco Alimentar. A meio da entrevista eu já estava quase pronto a renegar a minha anterior diatribe. Mas quando as perguntas passaram das ações para as ideias, logo os preconceitos emergiram.

Não lhe levo a mal que queira reabilitar a palavra "caridade". Diz bem: "Na acepção de São Paulo, caridade é amor, é espírito de serviço". 

Mas é um disparate opô-la ao conceito de solidariedade: "A solidariedade é algo mais frio que incumbe ao Estado e que não tem que ver com amor, mas sim com direitos adquiridos".

Isabel Jonet é aqui a triste imagem dos cristãos auto-satisfeitos, incapazes de dar a mão à palmatória e de reconhecer que o conceito de caridade foi assassinado pelas práticas paternalistas e humilhantes dos seus pretensos praticantes.

A solidariedade é o nome universal da atenção do ser humano ao seu semelhante. É uma palavra limpa de conotações religiosas. Significa "reciprocidade", "dependência mútua". Fundamenta a legislação de apoio social dos estados modernos. Mas de forma alguma se esgota aí. Os cidadãos individualmente e em grupos formais e informais são todos solicitados a manterem-se nesta onda de cuidado recíproco. Pelo gosto de ser humano, pelo gosto de ser solidário. Porque é que haveríamos de acreditar, com Jonet, que a solidariedade é "fria"? Os cristãos podem à vontade dar à solidariedade o nome teológico de "caridade" e dizer que assim retribuem o amor gratuito de Deus. Mas isso não os torna superiores às demais pessoas solidárias.

Mais adiante, interrogada sobre as suas perceções da visita que fez à Grécia, emerge de novo o lado negro do seu pensamento alinhado. A situação é muito má e, claro, os gregos são os culpados,"põem tudo em causa… E é muito difícil governar assim"

Mas não é tudo. "Há o problema dos imigrantes que entram todos os dias pelas ilhas da Grécia, sobretudo os curdos e os afegãos. Pessoas miseráveis que não têm ambição nenhuma de trabalhar, porque vêm a fugir da guerra nos seus países".

Vamos lá ver se percebo a sua indignação, D. Isabel. "Vêm a fugir da guerra" e em vez de se colocarem diligentemente na fila do centro de emprego, ficam ali pasmados à espera de abrigo e de pão.
Que raio de preguiça e de falta de ambição! Se calhar aproveitaram a guerra para se pirarem do trabalho...

Carnificina na escola


O massacre na escola de Newtown, estado do Connecticut, Estados Unidos da América (EUA), é uma tragédia mais impressionante do que outros assassinatos coletivos por ser dirigido a crianças pequenas, dos 5 aos 10 anos.

Não pensamos apenas no sofrimento terrível dos que perderam os seus. Pensamos também nas crianças que escaparam e carregarão, talvez para a vida, uma profunda ferida psicológica que lhes afetará a confiança nos seus semelhantes e a qualidade das relações sociais.

Neste momento não há informações sobre as motivações do assassino. É possível que tenha agido por força duma grave perturbação psicótica. Mas a violência induzida por um delírio paranoico não é objetivamente diferente da violência dos criminosos. Ambas se exprimem pelas formas culturalmente toleradas ou facilitadas no seu ambiente social. Se não tiver acesso a armas pesadas, o violento atacará a soco, a pontapé, a varapau ou a caçadeira. A intenção é a mesma mas as consequências são muito mais benignas.

Os EUA são pioneiros das democracias modernas. Talvez a solidez da sua democracia resulte duma necessidade intrínseca de se defender das pulsões violentas das suas origens, moldadas por aventureiros de toda a espécie embarcados da Europa.

Esta minha conversa não é de um perito em história americana. É de um simples consumidor das fitas de cow-boys, em que a vitória final dos bons assenta inevitavelmente na sua melhor pontaria contra os fora-de-lei.

E assim, ao invés do que se passa na Europa, as leis americanas continuam a dar cobertura aos que reclamam estar armados para se defenderem dos bandidos. Continuam a punir com o assassinato de Estado (a pena de morte) os crimes mais graves. Desta maneira o Estado faz a pedagogia da violência. Ensina a responder com violência à violência, alimentando uma perigosa espiral. É que o agressor, seja ele um doente mental ou um vulgar assaltante, nunca acha que está a usar de violência gratuita. Acha sim que está a antecipar-se à reação da sua vítima.

O incremento da não-violência exige não apenas que o Estado desarme os cidadãos. Exige que o Estado seja eficaz no combate ao crime. Exige que a prisão seja uma escola de reabilitação e reinserção social e não um depósito de marginalizados que autoalimentam os seus ódios e projetos destrutivos.

À medida que a não-violência física e a tolerância social guiarem a nossa vivência comunitária, também do mesmo passo se reduzirão as reações violentas inerentes a certas perturbações mentais.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O circo imperial


 Já foi muito citada e comentada a novela dos últimos dias em torno do alívio financeiro aos PIGS a reboque da catastrófica situação da Grécia.

Para memória futura vou registar aqui a cronologia deste inacreditável espetáculo circense dos dirigentes nacionais e europeus.

1º ato
O balão de oxigénio para a Grécia

27/11/2012 - Os ministros das finanças da Zona Euro alcançaram um acordo político para o desembolso da próxima tranche de ajuda à Grécia, que ascenderá a 43,7 mil milhões de euros, anunciou na última madrugada em Bruxelas o presidente do Eurogrupo.
"Não se trata apenas de dinheiro. Trata-se da promessa de um futuro melhor para o povo grego e para a zona euro como um todo», declarou Jean-Claude Juncker.
Juncker confirmou também o acordo com vista à redução da dívida grega para 124 por cento do PIB até 2020, segundo uma fórmula de recompra de títulos que permitirá «cortar» cerca de 40 mil milhões de euros.
 O Eurogrupo anunciou também uma redução das taxas de juro cobradas pelos empréstimos à Grécia, incluindo com efeitos retroativos, e extensão das maturidades.

2º ato
Um intervalo para o pensamento lógico
 
27/11/2012 - À saída da reunião do Eurogrupo que aprovou a ajuda à Grécia  Jean-Claude Juncker não hesitou em afirmar:
"Tomámos a decisão há meses, ou mesmo há mais de um ano, que temos que  aplicar as mesmas regras aos outros países sob programa, e iremos abordar  isso na próxima reunião. Se há alguém nesta sala que é amigo de Portugal  e da Irlanda, que fazem parte dos meus países preferidos na Europa, por  razões óbvias, sentimentais e pessoais, sou eu".

De regresso a Lisboa, para encerrar o debate sobre o OE 2013, Vítor Gaspar deu a feliz notícia  na Assembleia da República: 
"Portugal e Irlanda, países de programa, serão, de acordo com o princípio de igualdade de tratamento adotado na cimeira da área do euro, em julho de 2011, beneficiados pelas condições abertas no quadro do Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira".

3º ato
A fúria do imperador

 3/12/2012 - Respondendo no Parlamento Europeu, o ministro das finanças alemão Schauble  tratou de cortar pela raiz as veleidades dos pobres PIGS. Que horror, - pensou ele - querem privar-nos dos magníficos juros que cobramos àqueles preguiçosos e das jóias que podemos sacar-lhes a preço de saldo.
Para consumo público, o seu discurso foi paternalista e ardiloso:
"Não aconselho Portugal a tentar obter a mesma coisa (...) Seria “um sinal terrível para os mercados".
"Eu não gostaria de ser comparado com a Grécia”, reforçou Schäuble, insistindo para o político eleito pelo CDS-PP: “não vos aconselho a ir mais longe nessa reflexão”.

4º ato
O coro dos escravos

O que se seguiu às palavras de Schauble foi de uma obscenidade acima de todos os limites.

Ainda no mesmo dia, fazendo-se eco do ministro alemão, Passos Coelho  reiterou que uma parte das novas condições de financiamento da Grécia não se aplicam a nenhum outro país.
E continuou: «Portugal não está a reclamar um tratamento igual ao da Grécia no acordo que foi obtido para a Grécia».

Por sua vez, Gaspar  não perdeu tempo a decorar a nova cartilha.
Falando no final de uma reunião de ministros das Finanças da zona euro, em Bruxelas, Vítor Gaspar argumentou que “Portugal não é a Grécia".
E considerou “muito mais importantes e centrais” a estabilização da zona euro e o sucesso da implementação do programa de ajustamento português “do que saber se Portugal irá ou não beneficiar da extensão de prazos e período de diferimento de juros”.

Mas a síndrome da amnésia coletiva perante o grunhir do chefe chegou mais longe.
O presidente do eurogrupo Jean-Claude Juncker, disse hoje acreditar que os ministros das Finanças da zona euro não estão preparados para dar a Portugal e à Irlanda as mesmas condições recentemente acordadas para o empréstimo grego.
Juncker disse ainda que percebeu mal a questão que lhe foi colocada na semana passada sobre a possibilidade de Portugal vir a beneficiar da mesmas condições do que a Grécia, salientando que o que quis dizer era que Portugal e a Irlanda não iam participar no novo programa grego.

Faltava ainda uma voz para o coro ficar completo.
Durão Barroso  presidente da Comissão Europeia, afirmou hoje (8/12/2012), esperar que Portugal não reclame a aplicação do princípio de igualdade para obter as mesmas condições da Grécia, porque isso faria baixar a confiança dos investidores em Portugal. 
 Exatamente a mesma conversa do ministro alemão. O eco perfeito da voz do dono. 
Ora está à vista desarmada que o que baixa a confiança dos investidores é o empurrar para a frente os problemas. E os investidores nervosos correm a refugiar-se na dívida alemã, a juro zero. 
Merkel e Schauble sabem-na toda. O coro dos escravos finge que não vê.

5º ato
A máscara da rendição

Confrontado, no debate parlamentar de 7/12/2012, com a sua submissão incondicional aos ditames externos, Passos  reafirmou que "Portugal não é a Grécia".
Mas acabou por admitir que se baterá no quadro europeu por um alongamento das maturidades dos seus empréstimos e pela possibilidade de diferir o pagamento de juros. Só não disse como nem quando. Receio que seja apenas quando Portugal for igual à Grécia...


Há um ano inquietava-me com os sinais da síndrome de Vichy. Pouco depois vi os sinais confirmados na cena da vassalagem.
Pelo meio tivemos alguns intervalos em que julgávamos ser ouvidos pelos nossos governantes. 
Mas com uma regularidade atroz os generais do império tocam o clarim e logo estes governantes se alinham na formatura para ouvirem as palavras de ordem das majestades imperiais.

Quando terminará esta tristeza sem esperança?

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Estado (de exclusão) social


O estado moderno funciona na base dum contrato social ou de cidadania. As pessoas nascem dotadas de direitos inalienáveis que garantem a dignidade humana e obrigam-se a dar o seu contributo pessoal para a realização coletiva desses direitos. A constituição e as leis de cada nação concretizam as formas de dar corpo a este equilíbrio de direitos e deveres.

Na Europa predominaram até agora modelos que remetem para o estado a satisfação das necessidades essenciais de saúde, educação e proteção social. Através de impostos progressivos sobre os rendimentos dos cidadãos e das empresas, o estado obtém recursos para redistribuir segundo as necessidades dos cidadãos, atenuando assim as desigualdades resultantes da livre iniciativa e da desigual acumulação de património.

Desde os anos 80, com o governo de Thatcher e o descrédito dos regimes comunistas, ganharam terreno os adeptos do estado mínimo. O argumento essencial é que o estado é ineficiente a gerir recursos e deve entregar essa tarefa aos privados. Ao estado competiria regular o funcionamento dos mercados e oferecer proteção aos mais desfavorecidos.

A ideia é à primeira vista sedutora. As chamadas classe média e alta escolhem e pagam livremente a sua saúde, educação e proteção na velhice, socorrendo-se para o efeito dos diversos esquemas de seguros existentes no mercado. Em contrapartida o estado reduz a carga fiscal e limita o seu orçamento às despesas de soberania e à prestação de apoio social de último recurso.

Numa fase transitória o estado mantinha os serviços em regime de co-pagamento e a segurança social num esquema de plafonamento. Com o aumento progressivo do co-pagamento os contribuintes acabariam por aceitar abandonarem o sistema público e enveredarem por prestadores privados.

Este lindo modelo apenas está a iniciar-se e já está a demonstrar contradições e perversões.

Pagar duas vezes o serviço

Fazer um co-pagamento significa que os impostos pagos não são suficientes para manter o serviço. O co-pagamento corresponde assim a um segundo imposto, que já não é progressivo e por isso contribui para agravar as desigualdades sociais. Quem paga mais não é quem tem mais rendimentos mas sim quem tem mais necessidade dos serviços.

Quando o ministro Gaspar nos diz que temos de escolher entre pagar mais impostos ou ter menos serviços, a escolha que nos propõe é entre pagar mais impostos diretos para ter os serviços ou pagar os serviços na hora da necessidade.

A questão da insustentabilidade é outra e deve ser discutida separadamente.

A exclusão social como consequência

Como disse, o sistema de co-pagamentos dos serviços essenciais agrava as desigualdades entre os cidadãos. 

Acontece também que, por imperativos constitucionais, o governo não pode impor um regime alargado de co-pagamentos. Optou então por uma forma híbrida de financiamento dos serviços que  é uma amálgama de imposto, de co-pagamento e de corte dos serviços.

Se a economia estivesse a funcionar, o agravamento das desigualdades seria lento e levaria tempo a ser percebido. Mas com a economia destroçada o processo é rápido e dificilmente pode ser maquilhado.

Primeiro são as remunerações elevadas dos funcionários e dos pensionistas que têm de ser capturadas para garantir os apoios sociais. E o contribuinte aceita porque acha que isso diminui as desigualdades. Depois são as remunerações e pensões médias que são capturadas para garantir os serviços a todos. E o contribuinte ainda acha que é uma opção dolorosa mas justa. Depois são as remunerações e pensões abaixo da média que são penalizadas, ao mesmo tempo que são drasticamente reduzidos os benefícios sociais. E os contribuintes desse segmento começam a perceber que estão a aproximar-se perigosamente da fronteira abaixo da qual se deixa de contribuir e se passa a depender da "generosidade" do estado. 

Começam também a perceber que são cada vez mais os que caiem nessa dependência. Começam a achar que o que pagam é injusto e desproporcionado. Começam a alinhar na culpabilização dos beneficiários, reclamando a redução das prestações e um regime de humilhação que passa pelo trabalho comunitário e comprovativos constantes das necessidades. No limite advogam que o estado entregue o dinheiro a agremiações de vizinhos, ditas de solidariedade, que tratarão da caridade pública e privada.

E aasim se reinventa, num curto lapso de tempo, a velha sociedade estratificada.

No topo estão os intocados da crise. E os que prosperam à somba da crise: os especuladores financeiros e os que farejam como abutres as empresas e famílias em dificuldade.
No degrau seguinte estão os altos funcionários, públicos e privados, com um olho na carteira e outro nas subserviências certas para escaparem à borrasca.
A seguir está a chamada classe média. É o bombo da crise. Implacavelmente triturada pela máquina fiscal, faz equilibrismo para não cair na dependência. De tanto ouvir o matraquear dos custos do estado social, começa a convencer-se de que o seu anterior conforto lhe foi roubado pela classe dos subsdiodependentes e demais parasitas, sem se aperceber de que as prestações sociais individuais são cada vez mais diminutas ou mesmo inexistentes.

Assim a crise não se limita a agravar as desigualdades sociais. A crise está erguer muros de exclusão dentro da cabeça das pessoas.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Juntos por uma comunidade inclusiva




O Dia Internacional da Pessoa com Deficiência - 3 de Dezembro - é uma oportunidade para nos solidarizarmos com aqueles que lutam arduamente para superarem as suas limitações e se afirmarem nas nossas comunidades, ainda demasiado feridas por olhares de ignorância, de desprezo ou de inútil compaixão.

Elas e eles querem simplesmente ser reconhecidos como cidadãos de pleno direito e participantes ativos da vida social.



Publico aqui em primeira mão a frente do marcador de livros e calendário-2013 que nesta ocasião vai ser distribuído pela Cerci-Lamas, com a curta mensagem que tive o gosto de redigir.

Tua e minha
É a água que nos banha,
Teu e meu
É o sol que nos aquece,
Tua e minha
A terra que nos sustenta,
Teu e meu
O jeito de ser feliz.
Para ti sorrio
Em ti confio
Juntos fazemos
A comunidade inclusiva
 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Esclavagistas ao ataque


A minha tendência natural é admirar os gestores de topo e atribuir o seu êxito às competências técnicas e à sabedoria humanista que nos habituámos a encontrar nos grandes líderes.

Daí a minha deceção quando vejo algum deles vir à praça pública deitar foguetório pelos seus feitos e, pior do que isso, atirar à plebe as receitas definitivas de salvação para os males do mundo. Precisamente o inverso do verdadeiro líder, que nunca está satisfeito com a sua obra e recusa meter-se em julgador daquilo que não conhece.

Ao sofrimento das vítimas da crise, vêm agora somar-se as conversetas disparatadas daqueles que julgávamos líderes sociais mas se revelam afinal uns empoleirados sortudos a despejar sermões cínicos sobre a desgraça alheia.

Calei-me com o "aguenta... aguenta" de Fernando Ulrich e com os conselhos de Isabel Jonet aos pobrezinhos, porque foram exaustivamente comentados nos media.

Mas não quero calar-me com o pretensionismo de Melo Ribeiro que, talvez por ser administrador duma empresa alemã, se julga investido duma superior clarividência.

“É preciso diminuir 100 a 200 mil funcionários públicos”.  Dum gestor conceituado espera-se um mínimo de rigor na proposta. Nem uma palavra sobre quem são e onde estão esses excedentários.  Já agora, porque não 300 mil? É um número mais redondinho, é metade do total. Tornava muito mais fácil o despedimento. Ordenavam aos chefes de serviço que reunissem o pessoal num salão. Depois atirava-se uma moeda ao ar. Se saísse cara iam para a rua os que estivessem do lado norte; se saísse coroa iam os do sul. Processo rápido e barato.



A quem porventura ache uma injustiça tal procedimento, o nosso bom gestor responde com a sua impagável sabedoria: “Metemos 800 mil pessoas do privado no desemprego. Agora temos de ir ao Estado social e às pessoas”. Como quem diz: Já estão quase um milhão na rua e ainda não houve uma guerra civil. Vamos lá arredondar isto enquanto o pessoal lambe as feridas.



E ele sublinha: “Temos de ir ao estado social e às pessoas”. Percebem? Não é só pô-los na rua.  É preciso controlar essa tralha de subsídios e rendimentos mínimos. "Quem beneficia deste apoio estatal, tal como os beneficiários do subsídio de desemprego, devem fazer trabalho social". Não explica o que seja trabalho social. Mas deduz-se que, tal como outras sumidades da nossa praça, pretende pô-los a trabalhar sem contrato. 

Ao que me dizem, é isto que distingue os gestores de topo: fazerem milagres com o sangue e suor dos outros.

 Voltemos então ao salão onde o chefe de serviço despediu metade dos funcionários públicos. Perguntam os sortudos que ficaram: Como vamos fazer todo o trabalho sozinhos?  Responde o chefe: Não há problema; os vossos ex-colegas estão ansiosos por receber um subsídio de desemprego. De modo que eles mesmos vão continuar a fazer o trabalho... Trabalho social, claro! O contrato acabou.

 Na Antiguidade isto chamava-se escravatura. Na Idade Média chamava-se servidão. Nos tempos que correm chama-se apostar na competitividade e no corte da despesa pública.

Só mais uma nota sobre o admirável raciocínio de Melo Ribeiro.

“A General Electric (GE) tem o mesmo PIB que o país e funciona com maior produtividade com 360 mil funcionários”.  Agora é que os meus neurónios vão entrar em falência. Querem ver que as administrações públicas portuguesas têm de ser geridas pelo modelo do grande fabricante de tecnologias que é a GE? 

Deixem-me tentar perceber as contas do Ribeiro. Diz ele, no seu luminoso raciocínio, que o país deveria contentar-se com 360 mil funcionários públicos porque o PIB do país é igual ao da GE, que tem esse número de funcionários.
Ora o PIB do país não resulta apenas do trabalho dos funcionários públicos mas dos quase cinco milhões de pessoas empregadas que o país tem. Deveria então o excelso gestor propor o despedimento não apenas de 200 mil funcionários públicos mas também uns 4 milhões e meio de outros trabalhadores.
Então sim, ficaríamos um país perfeito: 360 mil trabalhadores para produzirem os 170 mil milhões do PIB nacional, tal e qual a GE.
Quanto à maquinaria a produzir pela tal marca "Portugal" nada consta no raciocínio.
Quanto ao que fazer com os 90% que ficariam desempregados também nada consta.

E se estes economistas da treta, que nos estão a levar à ruína com os seus erros, deixassem de tentar enganar-nos com disparates e tratassem este tema com alguma seriedade!...


 Revisto em 3/12/2012