

Diga-se em abono da verdade que é mais fruto da devoção de minha mulher do que da minha instável persistência.
Ao que a crise chegou...
Recuso ser sufocado pelos fazedores de opinião; procuro uma brecha para duvidar e perguntar.


Não me prenderia muito com os dizeres dum cardeal reformado, como não me prendo com a generalidade das homilias dominicais que por aí se ouvem, ou enredadas num espiritualismo desligado da vida ou imbuídas de prescrições morais autoritárias.

Acontece que o Padre Anselmo Borges trouxe à sua página no DN algumas reflexões do Cardeal Carlo Martini, um jesuíta de 80 anos, que foi durante um quarto de século arcebispo de Milão e antes disso reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. E não é a primeira vez que ele é citado na imprensa internacional pela dissonância das suas posições em relação ao habitual dogmatismo da hierarquia católica.
“Houve um tempo em que sonhava com uma Igreja que segue o seu caminho na pobreza e na humildade, uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. (…). Com um Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais longe. Com uma Igreja que anima sobretudo aqueles que se sentem pequenos e pecadores. Sonhei com uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Aos 75 anos, decidi-me por rezar pela Igreja.”
"A Igreja precisa permanentemente de reformas."
Sobre a encíclica Humanae Vitae, de 1968, que proíbe a pílula contraceptiva: "O mais triste é que a encíclica é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra." Ao fim de quarenta anos, “podíamos ter uma nova perspectiva”. Mas infelizmente não temos. "Estou perfeitamente convicto de que a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica."
E, sem ideias feitas, aponta a necessidade dum “novo caminho” para falar da sexualidade, do casamento, da regulação da natalidade, da procriação medicamente assistida.
Sobre a exclusão das mulheres da hierarquia: “O Novo Testamento trata melhor as mulheres do que a Igreja”.
Comenta a infundada obrigatoriedade do celibato para se ser padre.
Sobre a homossexualidade: "No meu círculo de conhecidos há casais homossexuais, pessoas muito respeitadas e sociais. Nunca ninguém me fez perguntas e também nunca me teria ocorrido condená-las."
Para ser franco, o cardeal tocou em todos os pontos com que eu costumo chatear os meus amigos padres.
Não dá receitas. Fica-se pelas interrogações. O que lhe dá todo o direito a ser chamado a este blog. E poupa maiores incómodos aos seus colegas da Cúria Romana.
Parafraseando a resposta de Deus a Abraão sobre os justos de Sodoma (Génesis, 18), direi: Se houver na Igreja mais cinco bispos como este, comprometo-me a considerá-la Católica, isto é, universal, pluralista, aberta ao mundo... Coisa de que eu, pecador, muito tenho duvidado.Aqui quero sacudir o fardo das opiniões. Quero factos e perguntas. E, claro, algumas opiniões contra os opinadores.
Salvas sempre as honrosas excepções, os "sábios" que por aí opinam não passam daquele registo básico de serem a favor ou contra o que quer que seja. Como se tivessem uma encomenda para entregar. Em muitos casos é mesmo encomenda oficiosa, já que são militantes partidários e escolhidos a esse título.
O resultado é a saturação de argumentos sobre a mesma faceta do problema, e a incapacidade de abrir outras janelas para outros horizontes.
Pretendo um discurso directo, sem pretensiosismos. Não sou um novo Sócrates (o outro, o da maiêutica), até porque não quero, nem de longe, conhecer o sabor da cicuta. Mas gostaria de saber fazer a pergunta necessária no momento certo.