segunda-feira, 14 de julho de 2008

A revolta das flores



Tenho lá longe, a 170 km de distância, o meu jardim plantado à sombra da casa que me viu nascer, no bucolismo da Bouça de Lá, Bajouca (Leiria).
Diga-se em abono da verdade que é mais fruto da devoção de minha mulher do que da minha instável persistência.
Acredito que os nossos fieis jardineiros - o sapo e o ouriço cacheiro - se sintam muito depressivos com as nossas longas ausências. E desconfio que as arremetidas dos caracóis e os crescentes atrevimentos das toupeiras em criarem estações de metro precisamente nos sítios onde devia crescer um tomateiro ou uma beterraba, se devem a quebras da sua vigilância por falta de incentivos sociais.
O que eu não esperava é que as plantas também entrassem em perturbação.
Por vários sítios crescem os jarros, que tão estimados foram por minha mãe, e nunca nos recusaram a sobriedade das suas copas brancas a protegerem a inflorescência amarela. Pois acabou-se esse mundo previsível. Da nossa última visita trouxe com espanto este testemunho da insubordinação da natureza. Umas cinco flores de jarro fundiram-se numa só, originando a estranha forma que as imagens documentam.
Ao que a crise chegou...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Afinal a minha igreja ainda é católica

Não me prenderia muito com os dizeres dum cardeal reformado, como não me prendo com a generalidade das homilias dominicais que por aí se ouvem, ou enredadas num espiritualismo desligado da vida ou imbuídas de prescrições morais autoritárias.

Acontece que o Padre Anselmo Borges trouxe à sua página no DN algumas reflexões do Cardeal Carlo Martini, um jesuíta de 80 anos, que foi durante um quarto de século arcebispo de Milão e antes disso reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. E não é a primeira vez que ele é citado na imprensa internacional pela dissonância das suas posições em relação ao habitual dogmatismo da hierarquia católica.

“Houve um tempo em que sonhava com uma Igreja que segue o seu caminho na pobreza e na humildade, uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. (…). Com um Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais longe. Com uma Igreja que anima sobretudo aqueles que se sentem pequenos e pecadores. Sonhei com uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Aos 75 anos, decidi-me por rezar pela Igreja.”

"A Igreja precisa permanentemente de reformas."

Sobre a encíclica Humanae Vitae, de 1968, que proíbe a pílula contraceptiva: "O mais triste é que a encíclica é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra." Ao fim de quarenta anos, “podíamos ter uma nova perspectiva”. Mas infelizmente não temos. "Estou perfeitamente convicto de que a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica."

E, sem ideias feitas, aponta a necessidade dum “novo caminho” para falar da sexualidade, do casamento, da regulação da natalidade, da procriação medicamente assistida.

Sobre a exclusão das mulheres da hierarquia: “O Novo Testamento trata melhor as mulheres do que a Igreja”.

Comenta a infundada obrigatoriedade do celibato para se ser padre.

Sobre a homossexualidade: "No meu círculo de conhecidos há casais homossexuais, pessoas muito respeitadas e sociais. Nunca ninguém me fez perguntas e também nunca me teria ocorrido condená-las."

Para ser franco, o cardeal tocou em todos os pontos com que eu costumo chatear os meus amigos padres.

Não dá receitas. Fica-se pelas interrogações. O que lhe dá todo o direito a ser chamado a este blog. E poupa maiores incómodos aos seus colegas da Cúria Romana.

Parafraseando a resposta de Deus a Abraão sobre os justos de Sodoma (Génesis, 18), direi: Se houver na Igreja mais cinco bispos como este, comprometo-me a considerá-la Católica, isto é, universal, pluralista, aberta ao mundo... Coisa de que eu, pecador, muito tenho duvidado.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mães que pedem colo

Há dias foi noticiado, como um fait divers, que um grupo de 17 adolescentes duma Escola dos Estados Unidos, com idades até 16 anos, fizeram o pacto de engravidarem na mesma altura e criarem os filhos juntas.
Talvez por ser do outro lado do mar os opinadores do costume ignoraram a notícia ou arrumaram-na como mais uma "americanice".
Quem lida profissionalmente com adolescentes pode espantar-se com a dimensão do grupo envolvido, mas não com o desejo precoce da maternidade, partilhado com amigas e levado à prática em simultâneo.
Sabe-se que o nosso país é campeão das gravidezes adolescentes. A explicação fácil e barata é a ignorância ou a irresponsabilidade. E toda a gente reclama ao governo que despeje por aí toneladas de contraceptivos e invada as ruas com um exército de educadores sexuais.
A verdade é que muitas adolescentes se "descuidam" por desfastio e outras simplesmente querem ser mães.
Porquê? É difícil percebê-lo. São razões emocionais em que vários sentimentos se misturam e confluem.
Querem introduzir a ruptura numa existência entediante, entre a casa e a escola, que ameaça eternizar-se por muitos anos. Querem assumir o estatuto de centro de atenções e de cuidados, num mundo em que são um número para a escola e um estorvo para a ocupada agenda dos pais. Querem ter alguém a quem se devotar inteiramente, mas também alguém obrigado a retribuir-lhes o amor. Querem pela via do estatuto maternal conseguir a emancipação social e económica doutro modo inatingível (geralmente com ideias distorcidas sobre o volume dos apoios à maternidade). Querem ingenuamente aprisionar o "fabuloso" namorado que acabaram de conhecer.
Felizmente já não estamos no tempo das lamúrias sobre os desvarios desta juventude estouvada. Mas interrogo-me sobre o que falhou e está a falhar entre os pais e os avós destas adolescentes que procuram um caminho tão perigoso e arriscado para crescerem e se fazerem mulheres.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A propósito do preço do petróleo

Na década de 80 o capitalismo entrou na moda e os governos começaram a envergonhar-se de tomar decisões no domínio económico. Os políticos acataram piamente o recado dos capitalistas: não se metam, porque não percebem nada disto. E desataram a vender o todo o gás as empresas do sector público e a fazer concessões de longo prazo de muitos serviços estruturalmente públicos.
Diz-se que ao Estado compete regular. É música para os ouvidos das grandes empresas. Com a sua implantação multinacional e transnacional, estão muito bem armadas para fintar o regulador.
E o eleitor está cada vez mais consolado por ver desprovidos de poderes os políticos que considera incompetentes.
Algumas perguntas inocentes:

1) Porque é que os media opinam até à exaustão sobre a incompetência da classe política, e nunca esgotam os louvores aos magníficos empresários? Quando muito deixam escapar uns desabafos sobre as fraquezas das pequenas empresas...

2) Porque é que no momento da crise toda a gente berra que o governo tem de fazer alguma coisa, e no momento de acalmia toda a gente berra contra o governo que faça alguma coisa?

3) Porque é que toda a gente chora sobre as vítimas da crise petrolífera e toda a gente opina sobre o que o governo e a União Europeia têm de fazer para as apoiar, e ninguém se interroga sobre o destino e utilização dos rios de dinheiro que entram nos bolsos dos países e companhias produtores de petróleo? Será que eles pertencem a outro planeta? Até já os ouvimos dizer descaradamente que não concordam que o petróleo esteja tão caro... Que amiguinhos que eles são...

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Sacudir o pensamento formatado

É engraçado que me tenha acontecido o clique da criação deste blog precisamente no dia de Santo António.
A diferença é que eu não mereço nenhum Vieira para perpetuar a memória das palavras lançadas aos peixes por não haver em terra espaço para elas.

A minha motivação, expressa no nome do blog, é sacudir o sufoco que os opinions makers introduziram no espaço comunicacional.

Gosto muito de informação, de conhecer factos e contextos, para criar a minha própria opinião. Mas até os mais graves jornalistas se sentem na terrível obrigação de substituirem ou submergirem os factos nas suas definitivas opiniões, nas opiniões dos "populares" interessados, e nas opiniões dos notáveis que acedem generosamente a pronunciar-se sobre o assunto.

Aqui quero sacudir o fardo das opiniões. Quero factos e perguntas. E, claro, algumas opiniões contra os opinadores.

Salvas sempre as honrosas excepções, os "sábios" que por aí opinam não passam daquele registo básico de serem a favor ou contra o que quer que seja. Como se tivessem uma encomenda para entregar. Em muitos casos é mesmo encomenda oficiosa, já que são militantes partidários e escolhidos a esse título.

O resultado é a saturação de argumentos sobre a mesma faceta do problema, e a incapacidade de abrir outras janelas para outros horizontes.

Pretendo um discurso directo, sem pretensiosismos. Não sou um novo Sócrates (o outro, o da maiêutica), até porque não quero, nem de longe, conhecer o sabor da cicuta. Mas gostaria de saber fazer a pergunta necessária no momento certo.