terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Sem-abrigo, o Pingo Doce e a Justiça


É notícia fresquinha. Um tribunal do Porto condenou um sem-abrigo que, há dois anos, foi topado pelo segurança do Pingo Doce com um polvo e um champô escondidos no casaco. Os artigos foram capturados sem resistência e devolvidos às respectivas prateleiras, e o sem-abrigo foi remetido para os devidos efeitos à competente autoridade judicial.

Os devidos efeitos produziram-se agora. Foi solenemente lavrada a sentença: o réu atravessou a linha de caixa sem pagar, o que configura o crime de tentativa de furto no valor de 25 €. Porque, no entender do meritíssimo Juiz, "não são bens de primeira necessidade", vai o réu condenado em 250 € de multa ou 50 dias de prisão.

Agora vamos às perguntas.

Senhor Juiz, o que são bens de primeira necessidade?

Champô já sabemos que não. Haverá algum produto de higiene capilar que escape à noção de luxo de V. Exª? Sabão azul, por exemplo? Mas é tão difícil de encontrar! Ou entende que um sem-abrigo só pode lavar-se com a água da chuva?...
Polvo também sabemos que não. Então qual a comidinha que comoveria o coração de V. Exª? A sardinha, o carapau, o bacalhau, a bifana? Ou um sem-abrigo só pode comer pão a seco?...

Senhor comendador Alexandre, patrão do Pingo Doce, o que é que ganhou com este processo?

É uma pergunta retórica, porque o seu porta-voz já hoje explicou tudo: "Se o Pingo Doce não avança com a queixa dá sinais errados à comunidade".
Compreendi, senhor Alexandre. Você desloca a sede do seu negócio para a Holanda para dar um sinal certo à comunidade: quem é rico põe o seu negócio ao abrigo da "instabilidade fiscal" (V. Exª dixit).
Você manda para a prisão um pobre diabo que tentou desviar-lhe uma ninharia para dar um sinal certo à comunidade: só os ricos têm direito a comer sem trabalhar.
Você não manda dar ao esfomeado, em lugar do polvo escondido no casaco, um saco vistoso de produtos variados do mesmo valor, para não dar o sinal errado de que os pobres também têm estômago.
Você não chama os serviços sociais para averiguarem as necessidades do inepto ladrão, porque ia dar o sinal errado de que compactua com esses parasitas sem eira nem beira.
Você usa o estranho privilégio legal de obrigar o ministério público a prosseguir com a ação judicial, inteiramente às custas do contribuinte, para dar o sinal certo de que a Justiça existe em primeiro lugar para estender a passadeira vermelha aos luzidos príncipes do poder económico.

Senhores deputados, detentores do poder exclusivo de elaborar o código de processo penal, onde é que têm essas cabeças? Custava assim tanto pôr lá no código que, nos crimes semi-públicos, a ação só prossegue se o ministério público o achar justificado?
E se tanto se fala em repartir sacrifícios, porque é que os ricos não suportam integralmente as custas quando se constituem assistentes no processo?

Andam para aí a discutir interminavelmente uma lei sobre o enriquecimento ilícito. A mim preocupa-me mais o empobrecimento ilícito. O empobrecimento do desajeitado ladrão do champô. E o meu empobrecimento para pagar esta farsa de processo e os dois meses de prisão que lhe vão aplicar, já que não estou a vê-lo a colocar no balcão os 250 € de multa.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pela liberdade dos velhos


A meteorologia dá-nos ondas de frio e ondas de calor. Os media adoram as ondas temáticas.

A onda temática em curso é a dos velhos solitários. Foi desencadeada pela descoberta dos corpos de duas irmãs semanas depois da sua morte. Veio à memória o caso da mulher cujo esqueleto foi encontrado muitos anos depois pelos que vinham apoderar-se do apartamento por incumprimento fiscal. Depois foi só esgaravatar o filão.

Faça-se justiça. Nesta onda não tenho visto a histeria doutras campanhas em que a corporação jornalística define os culpados, recenseia as vítimas e desencadeia a cruzada pela regeneração social. Desta vez o tema toca a todos (excepto a algum distraído que espera ser eternamente jovem) e isso gera alguma prudência e contenção.

Até o ministro da solidariedade, num intervalo da cruzada do governo por um estado mínimo, veio garantir que os serviços vão apostar na tele-assistência, a par de mais vagas nos lares e no apoio domiciliário.

Fico com algumas dúvidas sobre a pertinência de tanta generosidade ministerial. Não ouvi nenhum dos idosos entrevistados queixar-se de que lhe faltava vaga no lar ou no apoio domiciliário. Lamentavam sim a solidão das suas vidas, sem vizinhos, sem filhos, ou com os filhos aprisionados na teia da vida activa.

Com a morte do companheiro/a, que pode ser cônjuge ou irmão, a pessoa idosa enfrenta um desafio complicado. Complicado porque raramente conta com a compreensão dos filhos ou de quem os substitui na escala dos afectos.

Não. Os filhos não são degenerados, salvo terríveis excepções. Mas são desatentos. São surdos às mensagens verbais e não verbais do viúvo/a. São impacientes perante o que lhes parece uma incapacidade para pensar e para agir de forma escorreita. Apressam-se a decretar como limitações físicas e psicológicas o que é apenas a gestão do processo de luto.

Os filhos pensam o luto do progenitor à imagem do seu luto de filhos. Esquecem-se de que o viúvo/a tem de reaprender a viver sem o companheiro de dezenas de anos, criar novas rotinas nos comportamentos básicos do quotidiano. Quando recusa mudar-se para casa dum filho está a tentar construir os parâmetros da sua autonomia. Quando aceita passivamente a oferta está com medo de ser rejeitado ou sem ânimo para recomeçar tudo.

É preciso respeitar e apoiar o processo de procura e de estabilização. É preciso apoiar a reconstrução de laços antigos, diluídos pelos anos de centração na família e no emprego. É preciso apoiar e encorajar a criação de novos laços na rede social de proximidade.

Alguns filhos activam inconscientemente os velhos ciúmes, sentem como uma acusação a abertura a outras relações e fazem-lhes obstrução de forma aberta ou sub-reptícia.

Alguns filhos ficam despeitados porque o progenitor se recusa a abandonar o cenário onde decorreu toda a sua existência e a acompanhá-los para ambientes que lhe são estranhos. E quase como retaliação psicológica começam a rarear as visitas.

Muitos idosos ficam assim prisioneiros das suas recordações e das suas perdas. Agarram-se a afectos virtuais de filhos ou sobrinhos distantes. E no momento da necessidade de socorro descobrem que estão cercados por um deserto social.

Não é uma questão de lares ou mesmo de apoio domiciliário. Os casos reportados de mortes solitárias são de pessoas que se bastavam na vida diária. Um serviço de tele-assistência seria suficiente para eles e é hoje tecnologicamente fácil e economicamente acessível com algum apoio público.

Quando as redes familiares e de amizade não estão activas será certamente possível alguma substituição pelos serviços sociais e de voluntariado da vizinhança.

Estou a focar-me na defesa dos solitários, da sua liberdade e autodeterminação. Porque mais trágico do que morrer sozinho em sua casa é andar de casa em casa, de mala na mão, sujeito aos humores de filhos, genros e noras, ou ser enterrado vivo num lar de dependentes quando ainda se tem pernas e cabeça para uma vida própria.

Cuidemos dos nossos. Preocupemo-nos com todos. Assim criamos o lastro para a nossa própria velhice no ambiente que melhor nos respeite.


sábado, 28 de janeiro de 2012

Primeiro o amor


Todos os dias são bons para falar de amor. Melhores ainda para o praticar. Hoje venho pousar aqui um poemeto para alguém muito especial.

De longe vieste,
De longe e tão perto,
E perto ficaste
Tua mão me deste
Teu olhar pousaste
Em meu passo triste;
Tão leve chegaste
Tão cheia de graça
Meu futuro abriste
Ao sonho que passa.
No sonho embarcámos
Por ele inda vamos;
Haja vento ou frio,
Haja medo ou dor,
Um só corpo somos,
Juntos navegamos
Em sereno rio
Um eterno amor.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O Big Brother teve um ataque de pudor


Por estes dias os telejornais reportaram um episódio ocorrido no Big Brother Brasil. Se bem entendi, as imagens noturnas mostraram um concorrente a esgueirar-se para a cama duma colega e protagonizar uma cena de sexo debaixo do édredon. Quando confrontada no “confessionário”, a rapariga terá replicado que não se lembrava de nada. Acrescente-se que o serão anterior tinha sido farto em álcool.

A produção começou por dar um jeito na edição do vídeo e exaltar o “lindo amor” mas, perante os clamores públicos, expulsou da casa o suposto abusador sexual. Os cronistas indagam se foi um ataque de pudor ou uma estratégia para ganhar tempo.

Claro que não foi por sobressalto ético que a historieta invadiu os media mas apenas pelo sabor picante.

Sem querer assumir a responsabilidade de promover o Big Brother ao estatuto de assunto sério, não resisto a alguns comentários, baseado no que observei na primeira versão do programa em Portugal.

1. Confinar numa casa confortável, durante semanas ou meses, uma turma de jovens adultos dos dois géneros, sem nenhuma missão útil, só pode gerar dinâmicas tributárias dos instintos básicos da nossa espécie. Pois que a competição pelo alimento está resolvida, sobra o campo para os jogos de poder e de sedução, com o seu cortejo de alianças, rivalidades, ciúmes, paixões, fingimentos e traições. E porque também é da nossa natureza procurar o conforto das rotinas e dos compromissos, o que muito prejudicaria o espetáculo, os mandões da coisa tratam de acicatar o conflito através da expulsão regular de “irmãos” e da prescrição de tarefas ou jogos competitivos.

2. Das regras do formato faz parte a renúncia a toda a privacidade e a sujeição ao seguimento de câmaras de vídeo durante as 24 horas do dia. Esta regra atrai certamente muitos exibicionistas compulsivos, mas também outros imaturos que sonham com um estrelato de baixo custo ou com o dinheiro fácil do prémio. Imagino que o recrutamento queira obter uma mistura destas diferentes motivações, a bem do colorido do espetáculo e da arregimentação das audiências.

3. As audiências fiéis são os voyeurs, os que se confortam na zona do desejo para não enfrentarem os desafios da ação, os frustrados pelo cinzentismo das suas vidas, os que buscam figuras de identificação, os que esperam encontrar retratos das teias conflituais em que se encontram enredados. Enfim o mesmo público consumidor das imensas revistas cor-de-rosa que povoam os escaparates.

4. O Big Brother não tem nada a ver com ética, nem com pedagogia, nem com cultura, nem com arte. É simplesmente negócio. Sobrevive naquela zona tão querida da modernidade que é a liberdade individual. Cada qual faz de si próprio o que bem lhe apetecer desde que não prejudique a comunidade. Suponho que os produtores têm à mão juristas para evitarem pisadelas no Código Penal; e têm psicólogos que certamente justificam o seu muito discutível papel como de redução de danos.

5. Neste contexto, que dizer do episódio relatado? Pelo que li, a censura do público é ao machismo do rapaz, que avança sem o envolvimento ativo da parceira. Ou seja, as mulheres apenas censuram a pressa dele. Abuso? Oh, não! Parece que a suposta ofendida já veio esclarecer que está tudo bem. Só não se lembra, e tem pena. O rapaz deveria ter esperado que lhe passasse a ressaca.

6. Tudo está coerente com o contexto. Quem renuncia a um espaço de intimidade, não apenas perante os companheiros mas perante as multidões de mirones, escolhe reduzir o seu corpo a um suporte de sensações e a um objeto utilitário. E o coito torna-se tão banal como um aperto de mão. O público é tão coerente que apenas exige que ambos estejam acordados… É esta a ética Big Brother!

7. Diz a notícia que o Ministério Público tratou de abrir um inquérito-crime por alegada violação. O Ministério Público acordou demasiado tarde. Se não fosse tão pachorrento, tão dependente do barulho dos media, teria aberto inquérito ao programa desde o seu primeiro momento. Por suspeita de que o Big Brother agrava a regressão psicológica dos seus intervenientes. Por suspeita de que o Big Brother provoca estupidificação crónica dos espetadores



sábado, 14 de janeiro de 2012

Tirar ao roto e dar ao esfarrapado



O ministro da Segurança Social anunciou com grande estrondo que, graças à sua boa governação, um milhão de portugueses vão ser poupados às agruras da crise.

E quem são os felizardos? São os beneficiários da pensão social, da pensão dos rurais e da pensão mínima. Viram subir o seu rendimento em 6 ou 7 euros para respetivamente 195, 234 e 254 euros por mês. Magnífico!

Acima desse valor, tenham paciência, são praticamente ricos, têm de colaborar na salvação do país.
E não se esqueçam dos detalhes. Se acumularem pensõezinhas, por exemplo sobrevivência e complemento solidário para idosos, é a soma de tudo que conta. Não vão petiscar o aumento.

Até aqui nada de espantar. O partido do senhor ministro é muito experiente nestas magias.

O que verdadeiramente me espantou – e me escandalizou – foi ouvir o ministro gabar-se de que os contribuintes nada sofreriam com este aumento. O dinheiro do aumento virá do que se vai poupar no rendimento social de inserção (RSI).

Não entendo como há tanta gente interessada em cultivar o mito de que o RSI é o sustento dos mandriões. Se há algum perigo nessa medida é a de nos embotar a sensibilidade para os dramas pessoais e familiares que nos rodeiam, à sombra da ilusão de que os nossos impostos chegarão a todos os necessitados.

Sei do que falo. Tenho experiência na aplicação da medida. Hoje, e infelizmente no futuro próximo, há cada vez mais desempregados de longa duração a quem, no final do subsídio de desemprego, só resta a humilhação de exporem a sua miséria a funcionários carregados de papeis e de regras para tentarem obter umas dezenas de euros mensais deste providencial Estado.

Com a montanha de burocracia com que esta medida está a ser embrulhada, muitos potenciais beneficiários preferem desistir e entregarem-se aos expedientes mais ou menos marginais de sobrevivência.

E é com essa maravilhosa poupança que o ministro vai dar mais 6 euros aos pobres pensionistas, que estão apenas um degrau acima do RSI na escala da miséria instalada neste nosso mundo desigual.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A bolsa ou a vida?


Ontem num debate televisivo sobre a inefável crise das finanças públicas, a Drª Manuela Ferreira Leite disse, a propósito do Serviço Nacional de Saúde, que não podemos dar-nos ao luxo de oferecermos hemodiálise a pessoas com mais de 70 anos.

Interrogada pela jornalista se não é cruel discutir se uma pessoa de 70 anos tem direito à diálise, respondeu ipsis verbis e sem qualquer hesitação: Tem sempre direito, se pagar.

Há tempos tinha o ministro da saúde deixado cair a confissão de que o programa de transplantes é muito oneroso. Questionado se queria diminuir o número de transplantes, rabeou que o que é preciso é diminuir os gastos com eles.

É um murro no estômago ouvir estas afirmações com toda a tranquilidade como decorrentes duma lógica consensual do mundo novo em que nos movemos.

Mas se estivéssemos atentos não nos espantaríamos.

Vivemos sob o matraquear constante do liberalismo dominante.

Começa-se por achar normal, ou até desejável, que o Estado seja administrado como uma empresa. Daí decorre que as decisões de despesa devem subordinar-se à lógica do custo/benefício.

A partir daqui é só fazer contas, começando pelos números mais gordos.

Transplantes? Ui! Custam uma fortuna! Porque raio há-de Portugal estar no top mundial de transplantes se somos um país pobrezinho! E à borla para ricos e pobres.

Hemodiálise? Ui! São dois mil euros por mês por cada um dos 10.000 pacientes. Vá lá. Deixem passar os novos, que ainda podem produzir alguma coisa para a nação.

A seguir quem será? VIH/SIDA, por exemplo. Custa cada doente quase mil euros por mês. Talvez também um limite etário?

E depois? Por exemplo as pessoas com deficiência. Ou os idosos. Também custam ao contribuinte um séria fortuna. Para aí 500 a 1000 euros por mês cada um. Qual será para estes a melhor sugestão? Produtividade já não há nenhuma a esperar. E a câmara de gás é uma solução muito desacreditada.

Ferreira Leite tem o mérito de ser clara. Não há aqui intenção de abandonar nem matar ninguém. Não senhor. Os serviços existem, são bons, e devem continuar a ser bons. Só há um senão: quem quer paga. Primeiro a taxa moderadora, depois a taxa dissuasora, por fim a taxa proibitiva.

É a essência do capitalismo. O Estado como uma grande empresa. Onde não faltará uma inteligentíssima política de responsabilidade social, como em qualquer empresa que se preze. Haverá programas para ajudar os pobrezinhos, devidamente identificados em todas as bases de dados da república. Já não é preciso a estrela amarela ao peito.

Para algum distraído, convém reparar que estas afirmações nada têm a ver com o debate ético sobre o encarniçamento terapêutico. A única ética em discussão é a da produtividade.

Falar de ética da vida quando não há dinheiro é romantismo, dizem. Sejamos realistas, mostra-me a bolsa e dir-te-ei os teus direitos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Qual crise? - pergunta o Banco de Portugal


Os trabalhadores do Banco de Portugal vão ser poupados aos cortes do 13.º e 14.º mês e já estão a ser informados disso, noticia hoje o "Jornal de Negócios".

Pois claro. É preciso aproveitar aquele buraquinho da lei orgânica que diz ser o BP um instituto público independente.

Parvos que nós somos. Pensávamos que a independência era para não fazer fretes ao ministro das finanças. Não. A independência é para fugir aos sacrifícios exigidos aos demais servidores da República.

Já não bastava o governador ganhar por mês mais de 15.000 euros, mesmo depois do corte de 10% em vigor desde 2011. E os restantes membros do conselho de administração ganharem mais de 13.000 € por mês. Acima do dobro do primeiro-ministro que os nomeia.

Também o Instituto de Segurança Social é uma pessoa colectiva de direito público.

Competindo-lhe gerir as reformas do sector privado, pergunto porque é que não tem a mesma habilidade do BP e recusa cortar o 13º e o 14º mês aos aflitos dos reformados que ganham acima de 600 euros. É que, no caso, nem sequer se trata dum salário mas sim da devolução dos descontos efectuados, para quem julgávamos ser o bom gestor do nosso sistema previdencial.

Temos mesmo de conformar-nos em não sermos cidadãos da mesma pátria?

A crise só chegou a alguns. Aos mesmos de sempre. Os que auferem rendimentos à volta da média têm a insustentável missão de sustentar por um lado as mordomias e excessos das elites e, por outro, os apoios sociais aos desfavorecidos.

Até quando?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Viva o Catroga



Há uns anos atrás poderíamos encarar com alguma bonomia a notícia da nomeação do Catroga para presidente não executivo da EDP, com a belíssima remuneração anual de 638 mil euros (notícia fresquinha da RTP).

Podíamos roer-nos de inveja mas acalentávamos a secreta esperança de que algum dia a roda da fortuna virasse e nos pusesse no regaço um tachinho nem que fosse 30 vezes mais fraco do que o dele.

Mas agora não há paciência. Assaltam-nos os magros rendimentos de todas as maneiras e feitios. E foi na eletricidade que levámos um dos maiores rombos. Podiam ao menos mostrar um bocadinho de pudor.

E logo esse senhor Catroga, um dos grandes negociadores e entusiastas das medidas da troika.

E logo o Catroga que ainda há um mês vociferou contra a cedência do seu partido em suavizar um pouquinho os roubos do 13º e do 14º mês.

E logo o Catroga que acha as medidas de austeridade imprescindíveis e inteiramente imbuídas de equidade fiscal.

E logo o Catroga, um dos mais encarniçados moralistas contra os nossos hábitos de esbanjamento e de incapacidade de poupança.

Pois, pois. O Catroga, por muito que se esforce, não vai conseguir esbanjar tanta massa. Já não tem pernas para isso.

Proponho que o Catroga seja nomeado patrono dos poupados. Proponho que o Catroga publique no final do mês quanto conseguiu poupar do seu ordenado. Proponho que seja instituído um prémio para quem mais se aproximar do seu nível de poupança.

O primeiro prémio será um cheque de valor igual ao recente aumento das pequenas pensões. Para lembrar aos pensionistas o seu dever de poupança. Como manda Catroga, o patrono dos poupados.



terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Manual de democracia económica

O meu Natal foi para a família e nos dias seguintes andei fugido daquele massacre dos média em torno das figuras e dos acontecimentos do ano.


Daí que só agora soube que o primeiro-ministro introduziu na mensagem de Natal o inovador conceito de democracia económica. "Teve essa coragem", escrevia o comentador.


Corri curioso a ler a totalidade do discurso. E lá estava:


"A orientação geral de todas as reformas será a democratização da nossa economia.

Queremos que o crescimento, a inovação social e a renovação da sociedade portuguesa venha de todas as pessoas, e não só de quem tem acesso privilegiado ao poder ou de quem teve a boa fortuna de nascer na proteção do conforto económico.

Queremos que estas reformas nasçam de baixo para cima, que (...) cada um dos Portugueses, nas suas escolhas, com o seu trabalho, com as suas capacidades, construa o seu próprio futuro e, em conjunto, o futuro de todos".


Primeiro fiquei baralhado. Afinal o leit-motiv já não é empobrecer, perder os terríveis vícios de vivermos acima das nossas posses.


A linguagem é agora tão brilhante e sedutora como o fogo-de-artifício da noite do réveillon. As reformas estruturais vão democratizar a economia, nascer de baixo para cima, e não de quem tem acesso privilegiado ao poder.


Oops! Isto é uma revolução. Irá meter expropriações e toda essa tralha?


Acho que não é preciso ir tão longe. Desde que seja seguido o meu pequeno manual de democratização económica.


Lição nº 1

Ouço agora a notícia de que a Sociedade Francisco Manuel dos Santos acaba de vender a totalidade das ações no Pingo Doce à sua filial sediada na Holanda. Como pertence àquele senhor Alexandre que dispara em todas as direções o seu patriotismo e as críticas aos desmandos do passado, isto só pode ser coisa boa. Está com certeza a afastar-se voluntariamente da proteção e conforto económico para dar lugar às iniciativas dos portugueses de baixo. Aliás esta Sociedade destaca-se por fazer muito mais importações do que exportações. O que só pode significar a sua vontade de não querer incomodar os produtores portugueses com os seus baixos preços e incitá-los às tais escolhas criativas.


Resumo da lição nº 1: Sediar além-fronteiras os grupos do conforto do poder, para não estorvarem as iniciativas democráticas.


Lição nº 2

Olhando para trás, vejo o governo a vender o BPN aos angolanos e a EDP aos chineses. Na altura não compreendi porque é que “coisas” que não podiam estar encostadas ao Estado português ficavam bem encostadas aos Estados angolano e chinês. Mas agora acho que percebo. Os governos dos outros países sabem muito bem como dinamizar a nossa economia; deixemos os nossos ministros livres de tentações e de trabalhos.


Resumo da lição nº 2: Atirar para bem longe do país os nichos de intervenção económica ainda na mão do governo para cortar cerce as veleidades dos próprios ministros em estorvar as dinâmicas democráticas dos cidadãos.


Lição nº 3

O cenário económico contido no Orçamento de Estado deve naturalmente ser enquadrado na estratégia democratizadora.

Uma recessão de três por cento ou mais é um excelente cenário para a recomposição do tecido produtivo. As falências em catadupa vão deixar ao alcance de todos os portugueses leilões de fábricas e escritórios a preços espetaculares.


Resumo da lição nº 3: Compre em saldo o negócio dos seus sonhos e seja o dinâmico construtor dum país sem protecionismos bacocos.


Lição nº 4

Os felizes licitadores das massas falidas não terão de se preocupar com o custo da mão-de-obra dos seus novos e brilhantes negócios. Com os níveis de desemprego qualquer português que sofra da falta de dinamismo criador aceitará trabalhar por tuta-e-meia.


Resumo da lição nº 4: Aproveite a mão-de-obra a preços de ocasião; colabore no castigo de quem não tem espírito empreendedor e só pensa em se encostar a quem lhe dê emprego.


Lição nº 5

Das reformas estruturais propriamente ditas ainda só há anúncios. Mas temos que acreditar na sua força democratizadora. A reforma das leis laborais vai facilitar o despedimento e encurtar o valor e duração do subsídio de desemprego. Vendo pelo ângulo certo, trata-se duma oportunidade para os grupos do conforto do poder encorajarem os seus colaboradores a irem para a rua fazerem-lhes concorrência. Os portugueses verdadeiramente dinâmicos devem ter a sabedoria de se anteciparem. Pelo bem do país.


Resumo da lição nº 5: Despeça-se do seu patrão antes de ser despedido e lance-se confortavelmente no seu próprio negócio. E nem pense em governar-se com chorudas indemnizações. Isso iria distorcer a concorrência leal entre os cidadãos de base.


Lição nº 6

O corte nos salários e nas pensões não sei se é uma reforma estrutural ou uma reforma conjuntural. Mas o que não oferece dúvidas é o seu efeito democratizador. Diz o ditado: a necessidade aguça o engenho. Quem tem o que precisa deita-se à soma da bananeira e torna-se um cúmplice da anemia económica do país.


Resumo da lição nº 6: Tirem a quem recebe; afastem essa ideia bizarra de direitos adquiridos por descontos e contratos de trabalho; obriguem o pessoal a ir à luta, em prol da dinamização do país.


Há matéria para mais capítulos do manual, mas fico-me por aqui.


O outro dizia que o nosso primeiro nos deu uma mensagem corajosa. Eu diria antes uma mensagem criativa. Um exemplo de criatividade para as bases passivas e ignaras. Aprendam.