terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Manual de democracia económica

O meu Natal foi para a família e nos dias seguintes andei fugido daquele massacre dos média em torno das figuras e dos acontecimentos do ano.


Daí que só agora soube que o primeiro-ministro introduziu na mensagem de Natal o inovador conceito de democracia económica. "Teve essa coragem", escrevia o comentador.


Corri curioso a ler a totalidade do discurso. E lá estava:


"A orientação geral de todas as reformas será a democratização da nossa economia.

Queremos que o crescimento, a inovação social e a renovação da sociedade portuguesa venha de todas as pessoas, e não só de quem tem acesso privilegiado ao poder ou de quem teve a boa fortuna de nascer na proteção do conforto económico.

Queremos que estas reformas nasçam de baixo para cima, que (...) cada um dos Portugueses, nas suas escolhas, com o seu trabalho, com as suas capacidades, construa o seu próprio futuro e, em conjunto, o futuro de todos".


Primeiro fiquei baralhado. Afinal o leit-motiv já não é empobrecer, perder os terríveis vícios de vivermos acima das nossas posses.


A linguagem é agora tão brilhante e sedutora como o fogo-de-artifício da noite do réveillon. As reformas estruturais vão democratizar a economia, nascer de baixo para cima, e não de quem tem acesso privilegiado ao poder.


Oops! Isto é uma revolução. Irá meter expropriações e toda essa tralha?


Acho que não é preciso ir tão longe. Desde que seja seguido o meu pequeno manual de democratização económica.


Lição nº 1

Ouço agora a notícia de que a Sociedade Francisco Manuel dos Santos acaba de vender a totalidade das ações no Pingo Doce à sua filial sediada na Holanda. Como pertence àquele senhor Alexandre que dispara em todas as direções o seu patriotismo e as críticas aos desmandos do passado, isto só pode ser coisa boa. Está com certeza a afastar-se voluntariamente da proteção e conforto económico para dar lugar às iniciativas dos portugueses de baixo. Aliás esta Sociedade destaca-se por fazer muito mais importações do que exportações. O que só pode significar a sua vontade de não querer incomodar os produtores portugueses com os seus baixos preços e incitá-los às tais escolhas criativas.


Resumo da lição nº 1: Sediar além-fronteiras os grupos do conforto do poder, para não estorvarem as iniciativas democráticas.


Lição nº 2

Olhando para trás, vejo o governo a vender o BPN aos angolanos e a EDP aos chineses. Na altura não compreendi porque é que “coisas” que não podiam estar encostadas ao Estado português ficavam bem encostadas aos Estados angolano e chinês. Mas agora acho que percebo. Os governos dos outros países sabem muito bem como dinamizar a nossa economia; deixemos os nossos ministros livres de tentações e de trabalhos.


Resumo da lição nº 2: Atirar para bem longe do país os nichos de intervenção económica ainda na mão do governo para cortar cerce as veleidades dos próprios ministros em estorvar as dinâmicas democráticas dos cidadãos.


Lição nº 3

O cenário económico contido no Orçamento de Estado deve naturalmente ser enquadrado na estratégia democratizadora.

Uma recessão de três por cento ou mais é um excelente cenário para a recomposição do tecido produtivo. As falências em catadupa vão deixar ao alcance de todos os portugueses leilões de fábricas e escritórios a preços espetaculares.


Resumo da lição nº 3: Compre em saldo o negócio dos seus sonhos e seja o dinâmico construtor dum país sem protecionismos bacocos.


Lição nº 4

Os felizes licitadores das massas falidas não terão de se preocupar com o custo da mão-de-obra dos seus novos e brilhantes negócios. Com os níveis de desemprego qualquer português que sofra da falta de dinamismo criador aceitará trabalhar por tuta-e-meia.


Resumo da lição nº 4: Aproveite a mão-de-obra a preços de ocasião; colabore no castigo de quem não tem espírito empreendedor e só pensa em se encostar a quem lhe dê emprego.


Lição nº 5

Das reformas estruturais propriamente ditas ainda só há anúncios. Mas temos que acreditar na sua força democratizadora. A reforma das leis laborais vai facilitar o despedimento e encurtar o valor e duração do subsídio de desemprego. Vendo pelo ângulo certo, trata-se duma oportunidade para os grupos do conforto do poder encorajarem os seus colaboradores a irem para a rua fazerem-lhes concorrência. Os portugueses verdadeiramente dinâmicos devem ter a sabedoria de se anteciparem. Pelo bem do país.


Resumo da lição nº 5: Despeça-se do seu patrão antes de ser despedido e lance-se confortavelmente no seu próprio negócio. E nem pense em governar-se com chorudas indemnizações. Isso iria distorcer a concorrência leal entre os cidadãos de base.


Lição nº 6

O corte nos salários e nas pensões não sei se é uma reforma estrutural ou uma reforma conjuntural. Mas o que não oferece dúvidas é o seu efeito democratizador. Diz o ditado: a necessidade aguça o engenho. Quem tem o que precisa deita-se à soma da bananeira e torna-se um cúmplice da anemia económica do país.


Resumo da lição nº 6: Tirem a quem recebe; afastem essa ideia bizarra de direitos adquiridos por descontos e contratos de trabalho; obriguem o pessoal a ir à luta, em prol da dinamização do país.


Há matéria para mais capítulos do manual, mas fico-me por aqui.


O outro dizia que o nosso primeiro nos deu uma mensagem corajosa. Eu diria antes uma mensagem criativa. Um exemplo de criatividade para as bases passivas e ignaras. Aprendam.

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