segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pela liberdade dos velhos


A meteorologia dá-nos ondas de frio e ondas de calor. Os media adoram as ondas temáticas.

A onda temática em curso é a dos velhos solitários. Foi desencadeada pela descoberta dos corpos de duas irmãs semanas depois da sua morte. Veio à memória o caso da mulher cujo esqueleto foi encontrado muitos anos depois pelos que vinham apoderar-se do apartamento por incumprimento fiscal. Depois foi só esgaravatar o filão.

Faça-se justiça. Nesta onda não tenho visto a histeria doutras campanhas em que a corporação jornalística define os culpados, recenseia as vítimas e desencadeia a cruzada pela regeneração social. Desta vez o tema toca a todos (excepto a algum distraído que espera ser eternamente jovem) e isso gera alguma prudência e contenção.

Até o ministro da solidariedade, num intervalo da cruzada do governo por um estado mínimo, veio garantir que os serviços vão apostar na tele-assistência, a par de mais vagas nos lares e no apoio domiciliário.

Fico com algumas dúvidas sobre a pertinência de tanta generosidade ministerial. Não ouvi nenhum dos idosos entrevistados queixar-se de que lhe faltava vaga no lar ou no apoio domiciliário. Lamentavam sim a solidão das suas vidas, sem vizinhos, sem filhos, ou com os filhos aprisionados na teia da vida activa.

Com a morte do companheiro/a, que pode ser cônjuge ou irmão, a pessoa idosa enfrenta um desafio complicado. Complicado porque raramente conta com a compreensão dos filhos ou de quem os substitui na escala dos afectos.

Não. Os filhos não são degenerados, salvo terríveis excepções. Mas são desatentos. São surdos às mensagens verbais e não verbais do viúvo/a. São impacientes perante o que lhes parece uma incapacidade para pensar e para agir de forma escorreita. Apressam-se a decretar como limitações físicas e psicológicas o que é apenas a gestão do processo de luto.

Os filhos pensam o luto do progenitor à imagem do seu luto de filhos. Esquecem-se de que o viúvo/a tem de reaprender a viver sem o companheiro de dezenas de anos, criar novas rotinas nos comportamentos básicos do quotidiano. Quando recusa mudar-se para casa dum filho está a tentar construir os parâmetros da sua autonomia. Quando aceita passivamente a oferta está com medo de ser rejeitado ou sem ânimo para recomeçar tudo.

É preciso respeitar e apoiar o processo de procura e de estabilização. É preciso apoiar a reconstrução de laços antigos, diluídos pelos anos de centração na família e no emprego. É preciso apoiar e encorajar a criação de novos laços na rede social de proximidade.

Alguns filhos activam inconscientemente os velhos ciúmes, sentem como uma acusação a abertura a outras relações e fazem-lhes obstrução de forma aberta ou sub-reptícia.

Alguns filhos ficam despeitados porque o progenitor se recusa a abandonar o cenário onde decorreu toda a sua existência e a acompanhá-los para ambientes que lhe são estranhos. E quase como retaliação psicológica começam a rarear as visitas.

Muitos idosos ficam assim prisioneiros das suas recordações e das suas perdas. Agarram-se a afectos virtuais de filhos ou sobrinhos distantes. E no momento da necessidade de socorro descobrem que estão cercados por um deserto social.

Não é uma questão de lares ou mesmo de apoio domiciliário. Os casos reportados de mortes solitárias são de pessoas que se bastavam na vida diária. Um serviço de tele-assistência seria suficiente para eles e é hoje tecnologicamente fácil e economicamente acessível com algum apoio público.

Quando as redes familiares e de amizade não estão activas será certamente possível alguma substituição pelos serviços sociais e de voluntariado da vizinhança.

Estou a focar-me na defesa dos solitários, da sua liberdade e autodeterminação. Porque mais trágico do que morrer sozinho em sua casa é andar de casa em casa, de mala na mão, sujeito aos humores de filhos, genros e noras, ou ser enterrado vivo num lar de dependentes quando ainda se tem pernas e cabeça para uma vida própria.

Cuidemos dos nossos. Preocupemo-nos com todos. Assim criamos o lastro para a nossa própria velhice no ambiente que melhor nos respeite.


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