Ontem num debate televisivo sobre a inefável crise das finanças públicas, a Drª Manuela Ferreira Leite disse, a propósito do Serviço Nacional de Saúde, que não podemos dar-nos ao luxo de oferecermos hemodiálise a pessoas com mais de 70 anos.
Interrogada pela jornalista se não é cruel discutir se uma pessoa de 70 anos tem direito à diálise, respondeu ipsis verbis e sem qualquer hesitação: Tem sempre direito, se pagar.
Há tempos tinha o ministro da saúde deixado cair a confissão de que o programa de transplantes é muito oneroso. Questionado se queria diminuir o número de transplantes, rabeou que o que é preciso é diminuir os gastos com eles.
É um murro no estômago ouvir estas afirmações com toda a tranquilidade como decorrentes duma lógica consensual do mundo novo em que nos movemos.
Mas se estivéssemos atentos não nos espantaríamos.
Vivemos sob o matraquear constante do liberalismo dominante.
Começa-se por achar normal, ou até desejável, que o Estado seja administrado como uma empresa. Daí decorre que as decisões de despesa devem subordinar-se à lógica do custo/benefício.
A partir daqui é só fazer contas, começando pelos números mais gordos.
Transplantes? Ui! Custam uma fortuna! Porque raio há-de Portugal estar no top mundial de transplantes se somos um país pobrezinho! E à borla para ricos e pobres.
Hemodiálise? Ui! São dois mil euros por mês por cada um dos 10.000 pacientes. Vá lá. Deixem passar os novos, que ainda podem produzir alguma coisa para a nação.
A seguir quem será? VIH/SIDA, por exemplo. Custa cada doente quase mil euros por mês. Talvez também um limite etário?
E depois? Por exemplo as pessoas com deficiência. Ou os idosos. Também custam ao contribuinte um séria fortuna. Para aí 500 a 1000 euros por mês cada um. Qual será para estes a melhor sugestão? Produtividade já não há nenhuma a esperar. E a câmara de gás é uma solução muito desacreditada.
Ferreira Leite tem o mérito de ser clara. Não há aqui intenção de abandonar nem matar ninguém. Não senhor. Os serviços existem, são bons, e devem continuar a ser bons. Só há um senão: quem quer paga. Primeiro a taxa moderadora, depois a taxa dissuasora, por fim a taxa proibitiva.
É a essência do capitalismo. O Estado como uma grande empresa. Onde não faltará uma inteligentíssima política de responsabilidade social, como em qualquer empresa que se preze. Haverá programas para ajudar os pobrezinhos, devidamente identificados em todas as bases de dados da república. Já não é preciso a estrela amarela ao peito.
Para algum distraído, convém reparar que estas afirmações nada têm a ver com o debate ético sobre o encarniçamento terapêutico. A única ética em discussão é a da produtividade.
Falar de ética da vida quando não há dinheiro é romantismo, dizem. Sejamos realistas, mostra-me a bolsa e dir-te-ei os teus direitos.
Interrogada pela jornalista se não é cruel discutir se uma pessoa de 70 anos tem direito à diálise, respondeu ipsis verbis e sem qualquer hesitação: Tem sempre direito, se pagar.
Há tempos tinha o ministro da saúde deixado cair a confissão de que o programa de transplantes é muito oneroso. Questionado se queria diminuir o número de transplantes, rabeou que o que é preciso é diminuir os gastos com eles.
É um murro no estômago ouvir estas afirmações com toda a tranquilidade como decorrentes duma lógica consensual do mundo novo em que nos movemos.
Mas se estivéssemos atentos não nos espantaríamos.
Vivemos sob o matraquear constante do liberalismo dominante.
Começa-se por achar normal, ou até desejável, que o Estado seja administrado como uma empresa. Daí decorre que as decisões de despesa devem subordinar-se à lógica do custo/benefício.
A partir daqui é só fazer contas, começando pelos números mais gordos.
Transplantes? Ui! Custam uma fortuna! Porque raio há-de Portugal estar no top mundial de transplantes se somos um país pobrezinho! E à borla para ricos e pobres.
Hemodiálise? Ui! São dois mil euros por mês por cada um dos 10.000 pacientes. Vá lá. Deixem passar os novos, que ainda podem produzir alguma coisa para a nação.
A seguir quem será? VIH/SIDA, por exemplo. Custa cada doente quase mil euros por mês. Talvez também um limite etário?
E depois? Por exemplo as pessoas com deficiência. Ou os idosos. Também custam ao contribuinte um séria fortuna. Para aí 500 a 1000 euros por mês cada um. Qual será para estes a melhor sugestão? Produtividade já não há nenhuma a esperar. E a câmara de gás é uma solução muito desacreditada.
Ferreira Leite tem o mérito de ser clara. Não há aqui intenção de abandonar nem matar ninguém. Não senhor. Os serviços existem, são bons, e devem continuar a ser bons. Só há um senão: quem quer paga. Primeiro a taxa moderadora, depois a taxa dissuasora, por fim a taxa proibitiva.
É a essência do capitalismo. O Estado como uma grande empresa. Onde não faltará uma inteligentíssima política de responsabilidade social, como em qualquer empresa que se preze. Haverá programas para ajudar os pobrezinhos, devidamente identificados em todas as bases de dados da república. Já não é preciso a estrela amarela ao peito.
Para algum distraído, convém reparar que estas afirmações nada têm a ver com o debate ético sobre o encarniçamento terapêutico. A única ética em discussão é a da produtividade.
Falar de ética da vida quando não há dinheiro é romantismo, dizem. Sejamos realistas, mostra-me a bolsa e dir-te-ei os teus direitos.
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