Há dias foi noticiado, como um fait divers, que um grupo de 17 adolescentes duma Escola dos Estados Unidos, com idades até 16 anos, fizeram o pacto de engravidarem na mesma altura e criarem os filhos juntas.
Talvez por ser do outro lado do mar os opinadores do costume ignoraram a notícia ou arrumaram-na como mais uma "americanice".
Quem lida profissionalmente com adolescentes pode espantar-se com a dimensão do grupo envolvido, mas não com o desejo precoce da maternidade, partilhado com amigas e levado à prática em simultâneo.
Sabe-se que o nosso país é campeão das gravidezes adolescentes. A explicação fácil e barata é a ignorância ou a irresponsabilidade. E toda a gente reclama ao governo que despeje por aí toneladas de contraceptivos e invada as ruas com um exército de educadores sexuais.
A verdade é que muitas adolescentes se "descuidam" por desfastio e outras simplesmente querem ser mães.
Porquê? É difícil percebê-lo. São razões emocionais em que vários sentimentos se misturam e confluem.
Querem introduzir a ruptura numa existência entediante, entre a casa e a escola, que ameaça eternizar-se por muitos anos. Querem assumir o estatuto de centro de atenções e de cuidados, num mundo em que são um número para a escola e um estorvo para a ocupada agenda dos pais. Querem ter alguém a quem se devotar inteiramente, mas também alguém obrigado a retribuir-lhes o amor. Querem pela via do estatuto maternal conseguir a emancipação social e económica doutro modo inatingível (geralmente com ideias distorcidas sobre o volume dos apoios à maternidade). Querem ingenuamente aprisionar o "fabuloso" namorado que acabaram de conhecer.
Felizmente já não estamos no tempo das lamúrias sobre os desvarios desta juventude estouvada. Mas interrogo-me sobre o que falhou e está a falhar entre os pais e os avós destas adolescentes que procuram um caminho tão perigoso e arriscado para crescerem e se fazerem mulheres.
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