segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mães que pedem colo

Há dias foi noticiado, como um fait divers, que um grupo de 17 adolescentes duma Escola dos Estados Unidos, com idades até 16 anos, fizeram o pacto de engravidarem na mesma altura e criarem os filhos juntas.
Talvez por ser do outro lado do mar os opinadores do costume ignoraram a notícia ou arrumaram-na como mais uma "americanice".
Quem lida profissionalmente com adolescentes pode espantar-se com a dimensão do grupo envolvido, mas não com o desejo precoce da maternidade, partilhado com amigas e levado à prática em simultâneo.
Sabe-se que o nosso país é campeão das gravidezes adolescentes. A explicação fácil e barata é a ignorância ou a irresponsabilidade. E toda a gente reclama ao governo que despeje por aí toneladas de contraceptivos e invada as ruas com um exército de educadores sexuais.
A verdade é que muitas adolescentes se "descuidam" por desfastio e outras simplesmente querem ser mães.
Porquê? É difícil percebê-lo. São razões emocionais em que vários sentimentos se misturam e confluem.
Querem introduzir a ruptura numa existência entediante, entre a casa e a escola, que ameaça eternizar-se por muitos anos. Querem assumir o estatuto de centro de atenções e de cuidados, num mundo em que são um número para a escola e um estorvo para a ocupada agenda dos pais. Querem ter alguém a quem se devotar inteiramente, mas também alguém obrigado a retribuir-lhes o amor. Querem pela via do estatuto maternal conseguir a emancipação social e económica doutro modo inatingível (geralmente com ideias distorcidas sobre o volume dos apoios à maternidade). Querem ingenuamente aprisionar o "fabuloso" namorado que acabaram de conhecer.
Felizmente já não estamos no tempo das lamúrias sobre os desvarios desta juventude estouvada. Mas interrogo-me sobre o que falhou e está a falhar entre os pais e os avós destas adolescentes que procuram um caminho tão perigoso e arriscado para crescerem e se fazerem mulheres.

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