A minha tendência natural é admirar os gestores de topo e atribuir o seu êxito às competências técnicas e à sabedoria humanista que nos habituámos a encontrar nos grandes líderes.
Daí a minha deceção quando vejo algum deles vir à praça pública deitar foguetório pelos seus feitos e, pior do que isso, atirar à plebe as receitas definitivas de salvação para os males do mundo. Precisamente o inverso do verdadeiro líder, que nunca está satisfeito com a sua obra e recusa meter-se em julgador daquilo que não conhece.
Ao sofrimento das vítimas da crise, vêm agora somar-se as conversetas disparatadas daqueles que julgávamos líderes sociais mas se revelam afinal uns empoleirados sortudos a despejar sermões cínicos sobre a desgraça alheia.
Calei-me com o "aguenta... aguenta" de Fernando Ulrich e com os conselhos de Isabel Jonet aos pobrezinhos, porque foram exaustivamente comentados nos media.
Mas não quero calar-me com o pretensionismo de Melo Ribeiro que, talvez por ser administrador duma empresa alemã, se julga investido duma superior clarividência.
“É preciso diminuir 100 a 200 mil funcionários públicos”. Dum gestor conceituado espera-se um mínimo de rigor na proposta. Nem uma palavra sobre quem são e onde estão esses excedentários. Já agora, porque não 300 mil? É um número mais redondinho, é metade do total. Tornava muito mais fácil o despedimento. Ordenavam aos chefes de serviço que reunissem o pessoal num salão. Depois atirava-se uma moeda ao ar. Se saísse cara iam para a rua os que estivessem do lado norte; se saísse coroa iam os do sul. Processo rápido e barato.
A quem
porventura ache uma injustiça tal procedimento, o nosso bom gestor responde com
a sua impagável sabedoria: “Metemos 800 mil pessoas do privado no desemprego. Agora temos de ir ao Estado social e às pessoas”. Como quem diz: Já estão quase um milhão na rua e ainda não
houve uma guerra civil. Vamos lá arredondar isto enquanto o pessoal lambe as
feridas.
E ele sublinha: “Temos de ir ao estado social e às pessoas”.
Percebem? Não é só pô-los na rua. É preciso controlar essa tralha de subsídios e rendimentos mínimos. "Quem beneficia deste apoio estatal, tal como os beneficiários do subsídio de desemprego, devem fazer trabalho social". Não explica o que seja trabalho social. Mas deduz-se que, tal como outras sumidades da nossa praça, pretende pô-los a trabalhar sem contrato.
Ao que me dizem, é isto que distingue os gestores de topo: fazerem milagres com o sangue e suor dos outros.
Voltemos então ao salão onde o chefe de serviço despediu metade dos funcionários públicos. Perguntam os sortudos que ficaram: Como vamos fazer todo o trabalho sozinhos? Responde o chefe: Não há problema; os vossos ex-colegas estão ansiosos por receber um subsídio de desemprego. De modo que eles mesmos vão continuar a fazer o trabalho... Trabalho social, claro! O contrato acabou.
Na Antiguidade isto chamava-se escravatura. Na Idade Média chamava-se servidão. Nos tempos que correm chama-se apostar na competitividade e no corte da despesa pública.
Só mais uma nota sobre o admirável raciocínio de Melo Ribeiro.
“A General Electric (GE) tem o mesmo PIB que o país e funciona com maior produtividade com 360 mil funcionários”. Agora é que os meus neurónios vão entrar em falência. Querem ver que as administrações públicas portuguesas têm de ser geridas pelo modelo do grande fabricante de tecnologias que é a GE?
Deixem-me tentar perceber as contas do Ribeiro. Diz ele, no seu luminoso raciocínio, que o país deveria contentar-se com 360 mil funcionários públicos porque o PIB do país é igual ao da GE, que tem esse número de funcionários.
Ora o PIB do país não resulta apenas do trabalho dos funcionários públicos mas dos quase cinco milhões de pessoas empregadas que o país tem. Deveria então o excelso gestor propor o despedimento não apenas de 200 mil funcionários públicos mas também uns 4 milhões e meio de outros trabalhadores.
Então sim, ficaríamos um país perfeito: 360 mil trabalhadores para produzirem os 170 mil milhões do PIB nacional, tal e qual a GE.
Quanto à maquinaria a produzir pela tal marca "Portugal" nada consta no raciocínio.
Quanto ao que fazer com os 90% que ficariam desempregados também nada consta.
E se estes economistas da treta, que nos estão a levar à ruína com os seus erros, deixassem de tentar enganar-nos com disparates e tratassem este tema com alguma seriedade!...
Revisto em 3/12/2012
Ao que me dizem, é isto que distingue os gestores de topo: fazerem milagres com o sangue e suor dos outros.
Voltemos então ao salão onde o chefe de serviço despediu metade dos funcionários públicos. Perguntam os sortudos que ficaram: Como vamos fazer todo o trabalho sozinhos? Responde o chefe: Não há problema; os vossos ex-colegas estão ansiosos por receber um subsídio de desemprego. De modo que eles mesmos vão continuar a fazer o trabalho... Trabalho social, claro! O contrato acabou.
Na Antiguidade isto chamava-se escravatura. Na Idade Média chamava-se servidão. Nos tempos que correm chama-se apostar na competitividade e no corte da despesa pública.
Só mais uma nota sobre o admirável raciocínio de Melo Ribeiro.
“A General Electric (GE) tem o mesmo PIB que o país e funciona com maior produtividade com 360 mil funcionários”. Agora é que os meus neurónios vão entrar em falência. Querem ver que as administrações públicas portuguesas têm de ser geridas pelo modelo do grande fabricante de tecnologias que é a GE?
Deixem-me tentar perceber as contas do Ribeiro. Diz ele, no seu luminoso raciocínio, que o país deveria contentar-se com 360 mil funcionários públicos porque o PIB do país é igual ao da GE, que tem esse número de funcionários.
Ora o PIB do país não resulta apenas do trabalho dos funcionários públicos mas dos quase cinco milhões de pessoas empregadas que o país tem. Deveria então o excelso gestor propor o despedimento não apenas de 200 mil funcionários públicos mas também uns 4 milhões e meio de outros trabalhadores.
Então sim, ficaríamos um país perfeito: 360 mil trabalhadores para produzirem os 170 mil milhões do PIB nacional, tal e qual a GE.
Quanto à maquinaria a produzir pela tal marca "Portugal" nada consta no raciocínio.
Quanto ao que fazer com os 90% que ficariam desempregados também nada consta.
E se estes economistas da treta, que nos estão a levar à ruína com os seus erros, deixassem de tentar enganar-nos com disparates e tratassem este tema com alguma seriedade!...
Revisto em 3/12/2012
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