Subscrevi um dos abaixo-assinados que circulam na net a dizer à chanceler alemã Ângela Merkel que não é bem vinda a Portugal.
Os meus motivos não são originais. Mas vou procurar fazer o meu resumo.
1. O governo alemão lidera ostensivamente a União Europeia, pressionando previa e publicamente as decisões a tomar nas reuniões do Conselho Europeu.
A UE tem a aparência dum império germânico, que se aproveita das cumplicidades, das cobardias e dos conflitos de interesses dos demais líderes e da Comissão.
2. O governo alemão utiliza o seu ascendente para impor a política que melhor serve os seus interesses económicos e financeiros.
Os desequilíbrios estruturais da zona euro, que causam défices externos nos países periféricos e excedentes na Alemanha, são habilmente explorados perante o eleitorado alemão como indicadores da preguiça e do desgoverno destes povos.
3. O governo alemão tem assim o apoio eleitoral interno para recusar a revisão do papel do Banco Central Europeu (BCE) em relação às dívidas soberanas e impor programas austeritários e recessivos.
Destes programas resulta necessariamente a pilhagem dos recursos e poupanças dos povos que se lhes submetem, devido à diferença abissal entre os juros a que se financia o governo e as empresas alemãs e os juros a que se financiam os governos e as empresas dos países em crise.
4. Há pouco tempo a chanceler Merkel afirmou, salvo erro num discurso ao seu partido, que o ajustamento português está a correr bem porque o salário médio já baixou mais de 100 euros.
A senhora não disse quanto mais ele terá de baixar para o sucesso ser completo. Para um número crescente dos nossos compatriotas o salário já é zero e não vejo que tal faça ressurgir a economia.
5. A afirmação anterior perante uma plateia alemã é um sinal claro de que o nosso governo mora em Berlim. Em Lisboa temos apenas comissários.
6. Mas se dúvidas houvesse sobre o estado a que chegou a nossa soberania olhe-se para o aparato desta visita.
A chanceler segue um itinerário confidencial desde o aeroporto até Belém e confina-se durante umas horas naquela quadrícula, fazendo apenas uma curta deslocação junto ao Tejo para o almoço num forte militar.
Que melhor retrato duma visita imperial a um país ocupado?
Diz-se que os gladiadores romanos, recrutados entre os escravos e os prisioneiros de guerra para os combates de morte no Coliseu, iniciavam o seu combate com a saudação: Ave, Caesar, morituri te salutant! (Viva, César, os que vão morrer saúdam-te!)
Os historiadores acham que uma saudação tão paradoxal terá apenas acontecido pontualmente. Mas se aconteceu, parece-me que foi um grito de dignidade. Aqueles corpos nús e mudos, prestes a serem despedaçados num delírio sanguinário, contrariam por um momento o olhar das gentes que os contemplam como coisas, falam-lhes na sua língua e gritam: Avé César, como quem diz: Somos iguais a vocês, podíamos estar sentados ao vosso lado a aplaudir o imperador, se vocês fossem suficientemente grandes para o consentirem.
As manifestações dos portugueses tiveram até agora este cunho duma afirmação de dignidade. Mas faz bem a Srª Markel em passar ao largo desta arena. Uma mão ferida pode controlar mal o gládio. A afirmação da dignidade exige ser correspondida com uma resposta também digna, e esta tarda perigosamente.
Por isso eu digo, com a multidão: Só serás bem vinda, Merkel, quando vieres por bem. Inequivocamente.
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