segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O circo imperial


 Já foi muito citada e comentada a novela dos últimos dias em torno do alívio financeiro aos PIGS a reboque da catastrófica situação da Grécia.

Para memória futura vou registar aqui a cronologia deste inacreditável espetáculo circense dos dirigentes nacionais e europeus.

1º ato
O balão de oxigénio para a Grécia

27/11/2012 - Os ministros das finanças da Zona Euro alcançaram um acordo político para o desembolso da próxima tranche de ajuda à Grécia, que ascenderá a 43,7 mil milhões de euros, anunciou na última madrugada em Bruxelas o presidente do Eurogrupo.
"Não se trata apenas de dinheiro. Trata-se da promessa de um futuro melhor para o povo grego e para a zona euro como um todo», declarou Jean-Claude Juncker.
Juncker confirmou também o acordo com vista à redução da dívida grega para 124 por cento do PIB até 2020, segundo uma fórmula de recompra de títulos que permitirá «cortar» cerca de 40 mil milhões de euros.
 O Eurogrupo anunciou também uma redução das taxas de juro cobradas pelos empréstimos à Grécia, incluindo com efeitos retroativos, e extensão das maturidades.

2º ato
Um intervalo para o pensamento lógico
 
27/11/2012 - À saída da reunião do Eurogrupo que aprovou a ajuda à Grécia  Jean-Claude Juncker não hesitou em afirmar:
"Tomámos a decisão há meses, ou mesmo há mais de um ano, que temos que  aplicar as mesmas regras aos outros países sob programa, e iremos abordar  isso na próxima reunião. Se há alguém nesta sala que é amigo de Portugal  e da Irlanda, que fazem parte dos meus países preferidos na Europa, por  razões óbvias, sentimentais e pessoais, sou eu".

De regresso a Lisboa, para encerrar o debate sobre o OE 2013, Vítor Gaspar deu a feliz notícia  na Assembleia da República: 
"Portugal e Irlanda, países de programa, serão, de acordo com o princípio de igualdade de tratamento adotado na cimeira da área do euro, em julho de 2011, beneficiados pelas condições abertas no quadro do Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira".

3º ato
A fúria do imperador

 3/12/2012 - Respondendo no Parlamento Europeu, o ministro das finanças alemão Schauble  tratou de cortar pela raiz as veleidades dos pobres PIGS. Que horror, - pensou ele - querem privar-nos dos magníficos juros que cobramos àqueles preguiçosos e das jóias que podemos sacar-lhes a preço de saldo.
Para consumo público, o seu discurso foi paternalista e ardiloso:
"Não aconselho Portugal a tentar obter a mesma coisa (...) Seria “um sinal terrível para os mercados".
"Eu não gostaria de ser comparado com a Grécia”, reforçou Schäuble, insistindo para o político eleito pelo CDS-PP: “não vos aconselho a ir mais longe nessa reflexão”.

4º ato
O coro dos escravos

O que se seguiu às palavras de Schauble foi de uma obscenidade acima de todos os limites.

Ainda no mesmo dia, fazendo-se eco do ministro alemão, Passos Coelho  reiterou que uma parte das novas condições de financiamento da Grécia não se aplicam a nenhum outro país.
E continuou: «Portugal não está a reclamar um tratamento igual ao da Grécia no acordo que foi obtido para a Grécia».

Por sua vez, Gaspar  não perdeu tempo a decorar a nova cartilha.
Falando no final de uma reunião de ministros das Finanças da zona euro, em Bruxelas, Vítor Gaspar argumentou que “Portugal não é a Grécia".
E considerou “muito mais importantes e centrais” a estabilização da zona euro e o sucesso da implementação do programa de ajustamento português “do que saber se Portugal irá ou não beneficiar da extensão de prazos e período de diferimento de juros”.

Mas a síndrome da amnésia coletiva perante o grunhir do chefe chegou mais longe.
O presidente do eurogrupo Jean-Claude Juncker, disse hoje acreditar que os ministros das Finanças da zona euro não estão preparados para dar a Portugal e à Irlanda as mesmas condições recentemente acordadas para o empréstimo grego.
Juncker disse ainda que percebeu mal a questão que lhe foi colocada na semana passada sobre a possibilidade de Portugal vir a beneficiar da mesmas condições do que a Grécia, salientando que o que quis dizer era que Portugal e a Irlanda não iam participar no novo programa grego.

Faltava ainda uma voz para o coro ficar completo.
Durão Barroso  presidente da Comissão Europeia, afirmou hoje (8/12/2012), esperar que Portugal não reclame a aplicação do princípio de igualdade para obter as mesmas condições da Grécia, porque isso faria baixar a confiança dos investidores em Portugal. 
 Exatamente a mesma conversa do ministro alemão. O eco perfeito da voz do dono. 
Ora está à vista desarmada que o que baixa a confiança dos investidores é o empurrar para a frente os problemas. E os investidores nervosos correm a refugiar-se na dívida alemã, a juro zero. 
Merkel e Schauble sabem-na toda. O coro dos escravos finge que não vê.

5º ato
A máscara da rendição

Confrontado, no debate parlamentar de 7/12/2012, com a sua submissão incondicional aos ditames externos, Passos  reafirmou que "Portugal não é a Grécia".
Mas acabou por admitir que se baterá no quadro europeu por um alongamento das maturidades dos seus empréstimos e pela possibilidade de diferir o pagamento de juros. Só não disse como nem quando. Receio que seja apenas quando Portugal for igual à Grécia...


Há um ano inquietava-me com os sinais da síndrome de Vichy. Pouco depois vi os sinais confirmados na cena da vassalagem.
Pelo meio tivemos alguns intervalos em que julgávamos ser ouvidos pelos nossos governantes. 
Mas com uma regularidade atroz os generais do império tocam o clarim e logo estes governantes se alinham na formatura para ouvirem as palavras de ordem das majestades imperiais.

Quando terminará esta tristeza sem esperança?

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