domingo, 16 de dezembro de 2012

Carnificina na escola


O massacre na escola de Newtown, estado do Connecticut, Estados Unidos da América (EUA), é uma tragédia mais impressionante do que outros assassinatos coletivos por ser dirigido a crianças pequenas, dos 5 aos 10 anos.

Não pensamos apenas no sofrimento terrível dos que perderam os seus. Pensamos também nas crianças que escaparam e carregarão, talvez para a vida, uma profunda ferida psicológica que lhes afetará a confiança nos seus semelhantes e a qualidade das relações sociais.

Neste momento não há informações sobre as motivações do assassino. É possível que tenha agido por força duma grave perturbação psicótica. Mas a violência induzida por um delírio paranoico não é objetivamente diferente da violência dos criminosos. Ambas se exprimem pelas formas culturalmente toleradas ou facilitadas no seu ambiente social. Se não tiver acesso a armas pesadas, o violento atacará a soco, a pontapé, a varapau ou a caçadeira. A intenção é a mesma mas as consequências são muito mais benignas.

Os EUA são pioneiros das democracias modernas. Talvez a solidez da sua democracia resulte duma necessidade intrínseca de se defender das pulsões violentas das suas origens, moldadas por aventureiros de toda a espécie embarcados da Europa.

Esta minha conversa não é de um perito em história americana. É de um simples consumidor das fitas de cow-boys, em que a vitória final dos bons assenta inevitavelmente na sua melhor pontaria contra os fora-de-lei.

E assim, ao invés do que se passa na Europa, as leis americanas continuam a dar cobertura aos que reclamam estar armados para se defenderem dos bandidos. Continuam a punir com o assassinato de Estado (a pena de morte) os crimes mais graves. Desta maneira o Estado faz a pedagogia da violência. Ensina a responder com violência à violência, alimentando uma perigosa espiral. É que o agressor, seja ele um doente mental ou um vulgar assaltante, nunca acha que está a usar de violência gratuita. Acha sim que está a antecipar-se à reação da sua vítima.

O incremento da não-violência exige não apenas que o Estado desarme os cidadãos. Exige que o Estado seja eficaz no combate ao crime. Exige que a prisão seja uma escola de reabilitação e reinserção social e não um depósito de marginalizados que autoalimentam os seus ódios e projetos destrutivos.

À medida que a não-violência física e a tolerância social guiarem a nossa vivência comunitária, também do mesmo passo se reduzirão as reações violentas inerentes a certas perturbações mentais.

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