Há um ano pus aqui uma reflexão natalícia com uma certa coloração neo-realista, baseando-me na descrição evangélica de Jesus deitado na manjedoura.
Hoje retomo a narrativa de Lucas, entrando na parte que perturba o nosso racionalismo:
Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite.
Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor.
O anjo disse-lhes:
Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de David um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:
Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, por Ele amados.
Depois
que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, disseram os pastores uns
com os outros: Vamos até Belém e vejamos o que aconteceu e o que o
Senhor nos manifestou.
Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura.
Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino.
Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores.
Como herdeiro da tradição cristã, tento perceber o que é que o evangelista queria dizer neste texto às comunidades cristãs que tinham aderido à mensagem transformadora de Jesus.
Se assumimos que os anjos a falar e a cantar não são uma realidade física mas simbólica, então também será simbólico que o menino esteja na manjedoura e não houvesse lugar na hospedaria.
É neste contraste entre o menino na manjedoura e os anjos a anunciar a paz e a salvação que se inscreve a mensagem do evangelista. E a mensagem é esta: a transformação do mundo injusto em que vivemos faz-se a partir dos fracos, dos sem-poder.
Hoje esta ideia tornou-se consensual nas teorias da intervenção social. Chama-se empowerment, o dar poder. Um poder que nasce da tomada de consciência da dignidade pessoal e da aliança com os demais marginalizados, com vista a uma distribuição justa do poder e dos recursos por todos os seres humanos.
Os poderosos do sistema são os que açambarcam o poder (económico, financeiro e político) em seu próprio benefício. Esses jamais se empenharão em transformações que lhes diminuam o poder.
A mensagem dos anjos e a sua pronta e festiva aceitação pelos pastores marcam a inauguração do tempo novo que Cristo anunciaria na sua vida adulta. Podemos dizer que estes pastores foram os primeiros a festejar o Natal.
Em tempo de crise, de sofrimento, de desespero e de agravamento das desigualdades, temos muitas razões para festejar o que aconteceu em Belém.
Festejar é arrancar à rotina e à ansiedade um determinado dia e vivê-lo tal qual imaginamos o tempo ideal em que não haverá desigualdade, nem inimizade, nem privações.
Os que censuram os desperdícios dum dia de festa têm vistas curtas. Falta-lhes a dimensão do sonho e da esperança. A menos que os tais excessos não se inscrevam nesta celebração da fraternidade e da igualdade universais. A menos que tais excessos sejam uma exibição insultuosa de poder e de dinheiro.
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