Isabel Jonet impôs-se ao respeito da comunidade pela sua capacidade de liderança dum grande projeto de voluntariado que são os Bancos Alimentares contra a Fome.
As pessoas aderiram ao projeto porque era bom, porque era eficaz, porque era necessário. Não lhe faltaram colaboradores e doadores.
Jonet tem todo o direito de falar das razões da sua ação, dos conceitos de sociedade que alimentam a sua intervenção social. Acrescentarei mesmo: é bom que o faça, por uma questão de transparência, um termo tão usado e abusado nos dias de hoje.
Mas ao fazê-lo expõe-se inevitavelmente às críticas e a causar mal-estar no pluralismo ideológico dos que colaboram e beneficiam dos Bancos Alimentares.
Já tive ocasião de escalpelizar aqui os perigos do pensamento isabelino.
Volto ao tema porque a entrevista que deu recentemente ao jornal i permite uma perspetiva mais ampla do seu perfil. Faz um esforço visível por não se desviar da apresentação das práticas do Banco Alimentar. A meio da entrevista eu já estava quase pronto a renegar a minha anterior diatribe. Mas quando as perguntas passaram das ações para as ideias, logo os preconceitos emergiram.
Não lhe levo a mal que queira reabilitar a palavra "caridade". Diz bem: "Na acepção de São Paulo, caridade é amor, é espírito de serviço".
Mas é um disparate opô-la ao conceito de solidariedade: "A solidariedade é algo mais frio que incumbe ao Estado e que não tem que ver com amor, mas sim com direitos adquiridos".
Isabel Jonet é aqui a triste imagem dos cristãos auto-satisfeitos, incapazes de dar a mão à palmatória e de reconhecer que o conceito de caridade foi assassinado pelas práticas paternalistas e humilhantes dos seus pretensos praticantes.
A solidariedade é o nome universal da atenção do ser humano ao seu semelhante. É uma palavra limpa de conotações religiosas. Significa "reciprocidade", "dependência mútua". Fundamenta a legislação de apoio social dos estados modernos. Mas de forma alguma se esgota aí. Os cidadãos individualmente e em grupos formais e informais são todos solicitados a manterem-se nesta onda de cuidado recíproco. Pelo gosto de ser humano, pelo gosto de ser solidário. Porque é que haveríamos de acreditar, com Jonet, que a solidariedade é "fria"? Os cristãos podem à vontade dar à solidariedade o nome teológico de "caridade" e dizer que assim retribuem o amor gratuito de Deus. Mas isso não os torna superiores às demais pessoas solidárias.
Mais adiante, interrogada sobre as suas perceções da visita que fez à Grécia, emerge de novo o lado negro do seu pensamento alinhado. A situação é muito má e, claro, os gregos são os culpados,"põem tudo em causa… E é muito difícil governar assim".
Mas não é tudo. "Há o problema dos imigrantes que entram todos os dias pelas ilhas da Grécia, sobretudo os curdos e os afegãos. Pessoas miseráveis que não têm ambição nenhuma de trabalhar, porque vêm a fugir da guerra nos seus países".
Vamos lá ver se percebo a sua indignação, D. Isabel. "Vêm a fugir da guerra" e em vez de se colocarem diligentemente na fila do centro de emprego, ficam ali pasmados à espera de abrigo e de pão.
Que raio de preguiça e de falta de ambição! Se calhar aproveitaram a guerra para se pirarem do trabalho...
Mas ao fazê-lo expõe-se inevitavelmente às críticas e a causar mal-estar no pluralismo ideológico dos que colaboram e beneficiam dos Bancos Alimentares.
Já tive ocasião de escalpelizar aqui os perigos do pensamento isabelino.
Volto ao tema porque a entrevista que deu recentemente ao jornal i permite uma perspetiva mais ampla do seu perfil. Faz um esforço visível por não se desviar da apresentação das práticas do Banco Alimentar. A meio da entrevista eu já estava quase pronto a renegar a minha anterior diatribe. Mas quando as perguntas passaram das ações para as ideias, logo os preconceitos emergiram.
Não lhe levo a mal que queira reabilitar a palavra "caridade". Diz bem: "Na acepção de São Paulo, caridade é amor, é espírito de serviço".
Mas é um disparate opô-la ao conceito de solidariedade: "A solidariedade é algo mais frio que incumbe ao Estado e que não tem que ver com amor, mas sim com direitos adquiridos".
Isabel Jonet é aqui a triste imagem dos cristãos auto-satisfeitos, incapazes de dar a mão à palmatória e de reconhecer que o conceito de caridade foi assassinado pelas práticas paternalistas e humilhantes dos seus pretensos praticantes.
A solidariedade é o nome universal da atenção do ser humano ao seu semelhante. É uma palavra limpa de conotações religiosas. Significa "reciprocidade", "dependência mútua". Fundamenta a legislação de apoio social dos estados modernos. Mas de forma alguma se esgota aí. Os cidadãos individualmente e em grupos formais e informais são todos solicitados a manterem-se nesta onda de cuidado recíproco. Pelo gosto de ser humano, pelo gosto de ser solidário. Porque é que haveríamos de acreditar, com Jonet, que a solidariedade é "fria"? Os cristãos podem à vontade dar à solidariedade o nome teológico de "caridade" e dizer que assim retribuem o amor gratuito de Deus. Mas isso não os torna superiores às demais pessoas solidárias.
Mais adiante, interrogada sobre as suas perceções da visita que fez à Grécia, emerge de novo o lado negro do seu pensamento alinhado. A situação é muito má e, claro, os gregos são os culpados,"põem tudo em causa… E é muito difícil governar assim".
Mas não é tudo. "Há o problema dos imigrantes que entram todos os dias pelas ilhas da Grécia, sobretudo os curdos e os afegãos. Pessoas miseráveis que não têm ambição nenhuma de trabalhar, porque vêm a fugir da guerra nos seus países".
Vamos lá ver se percebo a sua indignação, D. Isabel. "Vêm a fugir da guerra" e em vez de se colocarem diligentemente na fila do centro de emprego, ficam ali pasmados à espera de abrigo e de pão.
Que raio de preguiça e de falta de ambição! Se calhar aproveitaram a guerra para se pirarem do trabalho...
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