Cara Ângela Merkel,
Sou um vendedor de bolas de Berlim nas praias desta costa ocidental que os seus compatriotas tanto apreciam. O meu negócio tem sido terrivelmente afetado pelo descrédito do nome do produto.
É assim. O Passos anuncia um aumento dos impostos e dois dias depois aparece V. Exª ao lado dele a dizer que o ajustamento português está a correr muito bem. O Gaspar anuncia um corte colossal de salários e pensões e no dia seguinte vemos na TV o Schauble a dizer que o ajustamento é um exemplo para todo o mundo. O Álvaro anuncia a suspensão dos investimentos; o Relvas anuncia o corte dos feriados e mais umas vendas de empresas públicas; o Mota Soares anuncia mais uma subida do desemprego. E V. Exª vem comer um almocinho ao Forte de S. Julião para jurar sobre as águas do Tejo que o ajustamento está uma maravilha.
E eu a apregoar as bolas de Berlim e a ouvir as bocas foleiras: - A Merkel que tas compre!... O Schauble que as lamba!... O Passos que as leve à patroa!...
Francamente, tenho andado muito irritado consigo. Mas ontem percebi como estava enganado a seu respeito.
Foi quando li a entrevista que deu a um jornal do seu país. Aquilo sim é que é a estratégia de governação de que o meu país precisa.
Destaco três pontos:
1. "A principal missão
em matéria de política económica" é possibilitar o crescimento em
condições difíceis e garantir os postos de trabalho.
Angela Merkel rejeitou, entre outros, a possibilidade de aumentar os impostos
sobre a sucessão ou património, já que isso "prejudicaria a classe média
alemã, a espinha dorsal da Alemanha".
3. Prolongamento dos fundos do governo federal para
'Kurzarbeit' (semana laboral com redução de horários) de novo de seis
para 12 meses, com o objectivo de que as empresas mantenham "o seu
maior tesouro", os seus especialistas, quando ocorrer um pequeno
incidente conjuntural".
A minha grande pergunta agora é esta: Como é possível o governo do meu país fazer o contrário de V. Exª e continuar a receber os seus elogios?
Só encontro uma explicação: V. Exª anda a ser enganada pelos tradutores de português-alemão e alemão-porruguês.
Por favor, D. Ângela, mude de tradutores. As centenas de milhões de euros que pagamos anualmente em comissões, para além dos juros, chegam e sobram para excelentes tradutores e explicadores das suas medidas de bom governo.
Por favor, D. Ângela, não continue a apoiar quem nos governa às avessas da sua sábia estratégia.
A não ser que V. Exª entenda que as leis da economia funcionam duma maneira no planeta germânico e funcionam de modo inverso no desgraçado planeta dos PIGS.
Por favor, D. Ângela, não permita que esta dúvida subsista na minha cabeça.
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