quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Por favor, Ângela


Cara Ângela Merkel,


Sou um vendedor de bolas de Berlim nas praias desta costa ocidental que os seus compatriotas tanto apreciam. O meu negócio tem sido terrivelmente afetado pelo descrédito do nome do produto. 


É assim. O Passos anuncia um aumento dos impostos e dois dias depois aparece V. Exª ao lado dele a dizer que o ajustamento português está a correr muito bem. O Gaspar anuncia um corte colossal de salários e pensões e no dia seguinte vemos na TV o Schauble a dizer que o ajustamento é um exemplo para todo o mundo. O Álvaro anuncia a suspensão dos investimentos; o Relvas anuncia o corte dos feriados e mais umas vendas de empresas públicas; o Mota Soares anuncia mais uma subida do desemprego. E V. Exª vem comer um almocinho ao Forte de S. Julião para jurar sobre as águas do Tejo que o ajustamento está uma maravilha.

E eu a apregoar as bolas de Berlim e a ouvir as bocas foleiras: - A Merkel que tas compre!... O Schauble que as lamba!... O Passos que as leve à patroa!...

Francamente, tenho andado muito irritado consigo. Mas ontem percebi como estava enganado a seu respeito.

Foi quando li a entrevista que deu a um jornal do seu país. Aquilo sim é que é a estratégia de governação de que o meu país precisa.

Destaco três pontos:


1. "A principal missão em matéria de política económica" é possibilitar o crescimento em condições difíceis e garantir os postos de trabalho.

2. Rejeição categórica do aumento de impostos.
Angela Merkel rejeitou, entre outros, a possibilidade de aumentar os impostos sobre a sucessão ou património, já que isso "prejudicaria a classe média alemã, a espinha dorsal da Alemanha".

3. Prolongamento dos fundos do governo federal  para 'Kurzarbeit' (semana laboral com redução de horários) de novo de seis para 12 meses, com o objectivo de que as empresas mantenham "o seu maior tesouro", os seus especialistas, quando ocorrer um pequeno incidente conjuntural".


A minha grande pergunta agora é esta: Como é possível o governo do meu país fazer o contrário de V. Exª e continuar a receber os seus elogios?

Só encontro uma explicação: V. Exª anda a ser enganada pelos tradutores de português-alemão e alemão-porruguês. 

Por favor, D. Ângela, mude de tradutores. As centenas de milhões de euros que pagamos anualmente em comissões, para além dos juros, chegam e sobram para excelentes tradutores e explicadores das suas medidas de bom governo.

Por favor, D. Ângela, não continue a apoiar quem nos governa às avessas da sua sábia estratégia. 

A não ser que V. Exª entenda que as leis da economia funcionam duma maneira no planeta germânico e funcionam de modo inverso no desgraçado planeta dos PIGS.


Por favor, D. Ângela, não permita que esta dúvida subsista na minha cabeça.

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