Artur Baptista da Silva é um homem maduro e informado. O seu pecado foi enfeitar-se com uma função que não tinha, de funcionário da ONU, para as suas opiniões serem escutadas.
Aliás, não sei se foi um pecado ou se foi antes uma hábil estratégia de incursão no palco mediático, monopolizado pelos jornalistas, comentadores e seus convidados do costume. Opiniões que doutro modo teriam sido deitadas ao lixo com desprezo foram admitidas a um contraditório sério e os críticos não tiveram tarefa fácil a enfrentá-lo no debate do "Expresso da Meia-Noite".
Nicolau Santos é um experimentado jornalista sobre o qual assenta grande parte da credibilidade do Expresso e da SIC-Notícias. O seu pecado é o de muitos dos seus colegas. Uma inchada vaidade leva-os a julgarem-se o centro do mundo e não toleram que alguém se arme em esperto e os faça cair numa vulgaríssima armadilha.
Quando eu, numa caminhada distraída, escorrego e bato com o rabo na calçada a minha reação é dissimular, fingir que estou a apanhar uma moeda, lançar a dúvida naqueles que julgaram terem visto a minha triste figura.
Parecia-me que seria essa a atitude sensata de Nicolau quando soube do falso cartão de visita do Artur. Ao invés, fez um espetáculo de vitimização e contaminou todos os media com a história da esparrela em que caíu.
Curiosa foi a atitude dos seus pares.
Uma parte deles juntou à presunção da classe jornalística a inveja mais rasteira e exigiu em coro a demissão do incompetente Nicolau, que não soube reconhecer um impostor. A outra parte juntou à presunção da classe a fúria justiceira e exigiu à Procuradoria a condenação exemplar do execrável burlão.
Enfim, a impostura do Artur não revelou apenas o seu caráter dúbio. Revelou também o caráter dúbio de muita outra gente que se toma, e que nós tomamos, demasiado a sério.
Sem comentários:
Enviar um comentário