Há um ano pus aqui as minhas Janeiras em redondilha maior. Hoje vou ser mais prosaico na formulação dos meus desejos (três, o número perfeito das antigas tradições). São desejos para mim, para os meus amigos, "para a cidade e para o mundo" (como se diz dos discursos do papa).
1º desejo
Participação comunitária
Quando o sofrimento aumenta à nossa volta, o desespero substitui a esperança e o sonho se muda em desilusão, há algo que está ao alcance de todos: ligar-se ao outro.
A ligação ao outro tem várias dimensões. Não é apenas a partilha material dos bens e o serviço solidário a quem precisa de apoio e carinho. Do que precisamos é de apropriar-nos solidariamente do espaço público, descobrir sinergias, trocar ideias e projetos, identificar as disfunções que nos matam enquanto comunidade e alavancar a sua transformação.
Precisamos de aplicar nas comunidades a que pertencemos os conceitos de empreendedorismo e de inovação que os nossos líderes contabilistas nos recomendam para a salvação individual. É que eles pensam que a salvação da comunidade resultará da soma dos sucessos individuais. Mas nós sabemos que a comunidade só cresce quando se pensa a si própria como comunidade.
2º desejo
Clarividência política
A clarividência política é um complemento necessário do desejo anterior.
Só há clarividência quando cada um não se preocupa apenas com a sua sobrevivência e a do seu grupo de interesses, mas com toda a comunidade. Da apropriação do espaço comunitário terá de resultar uma dinâmica de apropriação do espaço mais complexo dos mecanismos de intervenção política, que estão na mão dos partidos.
O modelo novecentista de organização política parece esgotado, mas não há alternativas à vista. É preciso gerá-las a partir das falhas do atual sistema. Daí que o caminho imediato seja obrigar as forças políticas existentes a envolverem os cidadãos mais dinâmicos das comunidades e a darem visibilidade a novas formas de fazer política.
Não precisamos de lideranças salvadoras surgidas do nevoeiro, mas de líderes caldeados na intervenção cívica de base.
3º desejo
Harmonia pessoal
Este desejo faz a coroa dos anteriores. Há outras palavras que poderiam dizer o mesmo: auto-confiança, felicidade, comunhão com os outros, sabedoria.
É um desejo difícil de realizar pelas pessoas que não vejam satisfeitas as suas necessidades básicas. Mas já todos encontrámos pessoas que estão felizes com um mínimo de bens materiais.
Não me refiro à alegria ingénua das pessoas de horizontes limitados. Falo da autêntica sabedoria de quem conhece a vida em múltiplas dimensões e faz a escolha amadurecida da aproximação à plenitude da essência humana. Falo dos que irradiam luz de dentro de si próprios e não dos que pavoneiam virtudes. Falo daqueles que estão na linha de S. Francisco de Assis, de S. João de Deus, de Gandhi, de Albert Schweitzer, do Abbé Pierre, de Agostinho da Silva.
É entre pessoas desta têmpera que poderemos achar os líderes de que precisamos para um mundo novo, assente na dignidade das pessoas e não na subjugação aos impérios económico-financeiros.
É entre pessoas desta têmpera que poderemos achar os líderes de que precisamos para um mundo novo, assente na dignidade das pessoas e não na subjugação aos impérios económico-financeiros.
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