sábado, 12 de janeiro de 2013

O relatório dos pantomineiros


A minha mãe era uma mulher resiliente, não tivesse ela levado a bom porto a criação de dez filhos com um rigor educativo que, se bem lembro, não precisou de recorrer a palmadas. Mas havia ocasiões em que a sua paciência atingia os limites e a fazia descambar para a linguagem vulgar. Tal era o caso dos bem-falantes de qualquer espécie que a quisessem enrolar ou simplesmente a fizessem perder tempo.

Os qualificativos que ela usava variavam consoante os  casos. O fala-barato inofensivo, que discorre infindamente sobre tudo sem nada dizer, é o caga-lérias. O emproado que esmaga o ouvinte com o seu discurso rebuscado é o bacharel (sem dúvida uma certeira avaliação do povo ao ensino universitário tradicional). Estas duas categorias de pessoas podem ser chatas ou agradáveis, conforme a disposição do ouvinte. Mas são inofensivas.

Perigoso é o pantomineiro. O pantomineiro não se limita a debitar palavras; tem uma comunicação encenada e articulada para capturar o ouvinte. O pantomineiro armadilha-nos para nos impingir uma coisa ou uma ideia. Um vendedor honesto diz: tenho um produto que talvez lhe seja útil. O vendedor pantomineiro diz: eu não lhe quero vender nada mas há uma série de coisas que você ignora e que eu quero generosamente ensinar-lhe.
Curiosamente há pessoas tão distraídas que não se importam de ser insultadas de ignorantes por um estranho que simplesmente lhes quer ir ao bolso. Mas a minha mãe importava-se. E por isso me lembrei tanto dela quando li o relatório duns pantomineiros do FMI com o título "Repensando o Estado - seleção de opções para a reforma da despesa" (Rethinking the state - selected expenditure reform options).

Os autores tratam de esclarecer que a encomenda do governo era, em português, a "refundação do estado" (cf. nº 22). Pelos vistos tiveram a modéstia de não assumir em inglês tamanha ambição: "State's re-foundation".

Como bons pantomineiros definem logo à partida um objetivo fantástico: ensinar o governo a gastar menos, e a distribuir os mesmos benefícios com mais equidade.

O receituário é tão simples que qualquer taxista conseguiria algo parecido (certamente de modo menos sádico!).

Então porque precisaram de 3 meses para escrever o relatório? Porque foi preciso muita imaginação para descobrir factos e números que dessem às propostas uma aparência de cientificidade.

Eis uma amostra do famoso milagre que vai equilibrar as contas do país:

1) Despedir 10 a 20% dos funcionários públicos (sem indemnização, porque fica muito cara);

2) Baixar até 7% todos os salários da função pública;

3) Baixar em média 10%  as pensões acima do salário mínimo, ou cortar definitivamente o 13º e 14º mês;

4) Aumentar as taxas moderadoras da saúde para um terço do custo real do serviço;

5) Incentivar a transferência da educação para as escolas privadas; subir as propinas universitárias;
 
6) Reduzir o valor e a duração do subsídio de desemprego;

7) Rever todos os benefícios sociais e cortar o abono de família do 3º escalão (rendimentos acima do salário mínimo, que aliás eles dizem ser demasiado elevado) e a todos os que têm mais de 18 anos (como se sabe, já têm corpo para trabalhar).

O relatório não diz uma palavra sobre como arranjar empregos para todos estes irradiados da "mama" do estado. Mas alonga-se em fundamentações das suas sábias medidas. Na minha rápida (e única) leitura houve duas fundamentações que me encantaram pelo seu "rigor".

1. As escolas privadas são melhores porque, nas 50 escolas com melhores médias, há 40 que são privadas e apenas 10 são públicas. Que esperteza! Comparar escolas que selecionam os alunos com aquelas que são de acesso universal.

2. Sobre os apoios à maternidade e à infância, o relatório refere dois estudos de países onde o reforço dos apoios não aumentou significativamente a natalidade. Conclusão fantástica: não é pelo dinheiro que as pessoas querem ter filhos; podem cortar à vontade para não desincentivarem as mães de procurar emprego.

Mas, atenção, estes pantomineiros não são insensíveis. Advertem duas vezes que as poupanças com o subsídio de desemprego e com o abono de família devem em parte ser canalizadas para uma rede de apoio social. 

Conclusão: abaixo a subsidiodependência! Viva a sopa dos pobres!

1 comentário:

Anónimo disse...

Isto é mesmo uma pantominice pegada!

http://pantominocracia.blogspot.pt/
Um espaço de opinião que nos leva da Democracia à Pantominocracia