Passaram alguns dias sobre o massacre de Oslo e, como é habitual, o assunto já não abre telejornais e já não convoca inflamados comentaristas e especialistas para os holofotes dos estúdios. Daqui a pouco será apenas uma vaga memória periódica para todo o mundo, excepto para os familiares e amigos das vítimas.
Depois de uns vinte anos de Al-Qaeda, as nossas cabeças estavam feitas para o modelo. Custou-nos a acreditar que o terrorista fosse alto e louro, e viesse advogar que era necessário espalhar sangue e morte para erradicar da Europa o marxismo e o multiculturalismo.
Exactamente a reprodução em espelho do discurso e da prática do fundamentalismo islâmico, que advoga a morte violenta como caminho para eliminação dos "infiéis" e a restauração do grande califado dos adoradores de Alá.
Ficamos com a sensação de a história ser cíclica, de andar sempre a repetir-se nos seus erros, em vez de nos encaminhar para um horizonte de perfeição de que fala o cristianismo e, noutro registo, o marxismo.
A velha máxima de Plauto "o homem é o lobo do homem" persegue-nos dramaticamente. Nenhuma outra espécie animal consegue ombrear com o homem em agressividade e destrutividade para com os seus semelhantes.
A capacidade simbólica que nos superioriza é também a nossa perdição. Com ela cavalgamos a mais brilhante estrela da generosidade e da entrega aos outros; com ela descemos ao inferno mais negro da eliminação de companheiros na nossa casa-mãe, a Terra.
O assassinato intencional de alguém é sempre uma tragédia, uma perversão civilizacional. Sejam quais forem as razões.
Pode ser um vulgar bandido que mata a vítima do seu assalto. Pode ser o ditador que mata o resistente ao seu poder. Pode ser o guerreiro que limpa a cidade conquistada. Em todos estes exemplos a ambição pessoal de bens e de poder está patente e torna particularmente execráveis os seus autores.
Pode ser um chefe religioso que purifica o seu rebanho das ovelhas tresmalhadas, como aconteceu com a inquisição e hoje com regimes fundamentalistas islâmicos.
Pode ser um chefe de partido que promove a eliminação dos dissidentes. Pode ser o militante duma ideologia ou o crente duma religião que, enquanto não tem instrumentos de poder, trata de programar individualmente ou em grupo assassinatos de mensagem.
Será este o caso dos atentados da Al-Qaeda e do massacre de Oslo.
Estas situações são particularmente chocantes porque a bandeira justificativa é imaterial. Há um aparente desprendimento pessoal e um ideal superior que mobiliza estes assassinos. É chocante pensar que na cabeça destas pessoas uma ideia cresceu tanto, tanto que encobriu como uma cortina o rosto dos seus semelhantes e os converteu em meros calhaus de arremesso dum suposto projecto transcendental.
A cabeça humana é um artefacto perigoso. É aconselhável ter bastante cuidado com o que despejamos lá dentro desde a infância. Crise de valores não pode ser ausência ou menosprezo de valores. Se não, os valores regressarão sob formas inchadas e grotescas.
Armemos as nossas mentes com boas ideias. Só assim dispensaremos armarmos as mãos de boas e más armas.
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