Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os versos de Sofia traduzem soberanamente a força encantatória dos dias que, há 39 anos, mudaram Portugal.
Passada a euforia daquele tempo primordial veio a estabilização. Uma democracia cada vez mais cansada e formal como a dos demais países do chamado "primeiro mundo". Com eleições e abstenções. Com um "arco" de partidos de governação que se alternam no poder e um "arquinho" de partidos de protesto que se cristalizam numa crítica contundente mas inconsequente.
Enquanto a crise financeira internacional não ameaçou as dívidas soberanas fomos vivendo sem sobressaltos esta rotina democrática. A efeméride da "Revolução dos Cravos" chegou a ser, nos anos 90, um feriado quase banal, uma memória distante de algo já displicentemente arrumado nos manuais de História.
Hoje a desesperança dos tempos que vivemos suscita-nos a urgência de recuperar, nas palavras de Sofia, "o dia inicial inteiro e limpo".
Em surdina primeiro, em voz alta depois, em grito rouco de quem se vê tratado como um desperdício da crise, os cantos de Abril estão de volta. O "Grândola" da fraternidade, os "Vampiros" com que o Zeca nos ensinou a exorcizar o capitalismo galopante, a "Trova do Vento que Passa", com que o Alegre e o Adriano nos alumiaram a escuridão do tempo antigo.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Foi desta quadra que me lembrei quando ouvi um manifestante desabafar que das liberdades já só nos resta a de expressão. E, acrescento eu, até esta liberdade de pouco vale porque os media estão quase monopolizados pelos pregadores do "não há alternativa".
Ontem o presidente Cavaco Silva foi, em discurso oficial, a voz da demissão e da submissão. No Dia da Liberdade atreveu-se a dizer que de nada serve ir as eleições. Só interessa o consenso para o cumprimento de tratados... que, vemo-lo agora, estão desenhados para nos esfolarem.
Escolheu mal o dia para se proclamar o nosso Pétain. Vou lembrar-me disso.
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