No passado sábado estive na Noite de Fados, organizada pela Cerci-Lamas no salão do Lions Clube de Santa Maria da Feira.
Este formato de eventos para angariação de fundos tem uma forte marca anglo-saxónica, onde o envolvimento nas causas e projetos comunitários é assumido como uma dimensão normal da cidadania, em contraste com a maior tradição individualista dos países latinos.
É saudável que o velho sistema da pedincha esteja a ser substituído por este modelo de entrelaçamento entre os atores das obras sociais e os seus apoiantes, dando-se as mãos para a realização dos objetivos institucionais.
Não estou a criticar as campanhas de donativos. Longe disso. Mas não podemos esquecer que o ato de dar representa uma relação assimétrica. O poder está do lado de quem dá. Quem dá pode arrogar-se pretensões de intromissão no uso dos seus donativos, à sombra de outros interesses que não os valores da instituição.
No tradicional associativismo de beneficência há uma evidente distinção entre dois blocos, os benfeitores e os beneficiários, sendo que o poder está apenas num dos lados.
As Cerci's, ao assumirem a forma cooperativa, procuraram desde o início ultrapassar esta assimetria e cultivar uma relação paritária entre todos os interessados nos seus objetivos. Uma ideia que hoje se encontra disseminada pela maioria das instituições de solidariedade.
Ao decidir organizar um jantar de arte, a Cerci-Lamas conseguiu muito mais do que angariar perto de dois mil euros. Mais importante do que isso foi:
- Contar com a disponibilidade e generosidade dos fadistas e dos músicos cuja qualidade é reconhecida na região;
- Mobilizar a comunidade a ponto de esgotar a capacidade da grande sala do Lions;
- Congregar a boa vontade dos colaboradores da Cerci-Lamas que, independentemente das suas funções profissionais, puseram mãos à obra de confeccionar e servir o jantar;
- Perceber a sensibilidade dos fornecedores, que doaram grande parte dos produtos alimentares;
- Juntar à mesma mesa os técnicos, os clientes, os artistas e os amigos, sem barreiras ou preconceitos.
Ouvimos por aí os comentadores fazerem balanços sobre a resposta do público às campanhas de solidariedade. Por mim tenho uma impressão muito clara e tive ocasião de a dizer neste jantar. As pessoas sensatas rejeitam o discurso dominante que nos enreda a pretexto da crise. Rejeitam a ideia do homem duma só dimensão: produzir e consumir. Rejeitam que as decisões de governo dum país ou duma empresa se baseiem apenas no cálculo dos custos e benefícios financeiros. As pessoas de bom senso aproveitam ocasiões como esta para mostrarem a sua crença na pessoa multidimensional que se afirma pelo trabalho, pela cultura, pela arte, pela convivialidade e pela solidariedade.
O que nos há-de salvar da presente crise é esta crença na pessoa que tem por motor da sua existência a Sabedoria, o Amor, a Estética e a Ética.
Por tudo isto, foi bom estar ali.
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