sábado, 2 de março de 2013

Que raio de trajetória!


Passaram dois anos desde o fatídico março de 2011 em que, acossado pela turbulência dos juros da dívida soberana, Sócrates levou à imperatriz Merkel e ao seu tesoureiro o Banco Central Europeu (BCE) um pacote de austeridade que grangeasse a sua complacência e obtivesse deles uma mensagem de tranquilização para os mercados.

Mas a corda partiu-se cá dentro. O parlamento recusou o PEC IV por ser insuportavelmente penoso. O país foi a eleições ao mesmo tempo que negociava o resgate financeiro da troika.

A coligação vencedora prometeu uns sacrifícios provisórios e, no prazo de dois anos, um país em glória. Tudo devidamente avalizado pela sapientíssima trindade: FMI, Comissão Europeia e BCE.

O novo governo (agora velho e caduco) proclamava entuasiasmado que era preciso "ir além da troika", ou seja, fazer sacrifícios maiores para os resultados serem mais rápidos.

Estão a esgotar-se os dois anos da promessa da salvação, e tão trágica é a nossa situação como o discurso delirante do primeiro-ministro Passos Coelho:

 "Estamos na direção correta. Não existe necessidade de alterar a trajetória".

 Passemos então em revista os principais indicadores da gloriosa trajetória.

Trajetória do Produto Interno Bruto (PIB)

É só abrir o site do Banco de Portugal (o tal que antigamente servia para alertar o governo e agora parece que serve para o amparar), e consultar o histórico dos boletins trimestrais de previsão.

Em março de  2011 registava o crescimento de 1,4% em 2010 e previa a queda de 1,4% em 2011 e a recuperação de 0,3% em 2012.

Em março de 2012 registava a queda de 1,6% em 2011 (mais tarde retificada para 1,7%) e previa a queda de 3,1% em 2012 e a recuperação de 0,3% em 2013.

No momento atual, a queda de 2012 está fixada provisoriamente em 3,2% e a previsão de queda em 2013 agravou-se para 2%.

Como se vê, uma fuga para a frente, sempre a cair...

Trajetória do desemprego

Em Março de 2011 o desemprego atingia o número dramático de 12,3%. A previsão no programa de ajustamento era de que ele ainda subiria até aos 13%. 

Depois seria sempre a descer. Lembram-se? Com a reforma das leis laborais as empresas desatariam numa correria louca às contratações! E com os cortes no subsídio de desemprego o pessoal saltava da sua zona de conforto e criava o seu próprio emprego!

Hoje o desemprego está oficialmente em 17,6% e ninguém se atreve a fazer previsões.

Mas o governo e a troika lá vão dizendo que ainda há demasiados incentivos para as pessoas ficarem inativas. Que insuportável delírio!
 
Trajetória da dívida pública

 No final de 2010 a dívida pública atingiu 93,5% do PIB.

Com o programa de ajustamento previa-se que ela que ela atingisse o pico de 115%. Lembrem-se de que a recapitalização da banca é feita com o dinheiro do empréstimo da troika e consequente agravamento da dívida pública.

Pois mal! No final de 2011 a dívida era de 108% e no final de 2012 ultrapassou os 120%. 

Outras trajetórias

Podia falar da trajetória dos nossos rendimentos de assalariados e pensionistas e da trajetória dos rendimentos dos bancos e das grandes empresas. 

Podia falar no meu IRS comparado com os 7,5% que o banqueiro Ricardo Salgado teve de pagar sobre os milhões de rendimentos pessoais que se tinha esquecido de declarar.

Podia falar dos lucros do BCE com a compra da dívida dos países periféricos no mercado secundário.

Mas fico-me por aqui...

Hoje é dia  de sair à rua e dizer: 
 É preciso parar a corrida para o abismo!

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