Cresci com uma educação católica aprofundada. Daí que acompanhe com atenção as incidências da Igreja Católica no mundo contemporâneo, às quais reajo com o aplauso ou o distanciamento crítico como é próprio de pessoas livres.
Dos entusiasmos com que na minha juventude acompanhei, com muitos outros, os trabalhos do Concílio Vaticano II, passei gradualmente ao desencanto pelo progressivo enterramento do seu élan renovador. Hoje comemora-se o cinquentenário dessa magna assembleia como se fosse um arquivo morto onde se vão respigar umas frases bonitas para ornar palestras e homilias.
Da Igreja colegial que o Concílio pretendeu, rapidamente a Cúria romana fez uma conveniente domesticação, chamando a si as agendas dos Sínodos dos Bispos e transformando-os em veículos de amplificação do centralismo doutrinário, pastoral e disciplinar da Cúria ao invés da afirmação criativa das igrejas locais.
Tudo isto se perpetua pelo intocado controlo hierárquico onde qualquer irrupção profética tem poucas hipóteses de vingar.
A chave desta solidez hierárquica, que tanto agrada aos portadores duma fé fraca e aos saudosistas duma igreja poderosa e influente, está no absoluto controlo da Cúria e dos seus embaixadores na escolha dos bispos e dos diretores das faculdades de teologia, e no acompanhamento sistemático da sua atuação.
Uma hierarquia rígida tem de ter um rosto forte. O culto da personalidade do Papa teve aligeiramentos pós-conciliares; passou o tempo do beija-pés e do transporte em ombros, como um santo na procissão. Mas as encenações públicas continuam espetaculares e as suas encíclicas e discursos continuam a ser referências obrigatórias de ortodoxia nas argumentações dos católicos.
Colocada nesta desmesurada dependência da figura papal, a Igreja Católica sente um sobressalto dramático a cada sucessão. Mais ainda. A cada fase de declínio do vigor do Papa pululam os rumores sobre as manobras de bastidores dentro da Cúria. Tudo facilitado pela ausência de qualquer instância colegial formal a quem ele deva explicar-se. O dogma da infalibilidade não é apenas redundante (porque tem como condição que o papa interprete o sentir geral da Igreja); ele é utilizado abusivamente para obstaculizar a criação de órgãos independentes que assistam o governo ordinário do Papa e dêem alguma transparência à Cúria.
Lembro-me dos rumores de jogos de poder que corriam nos últimos anos de Paulo VI, falecido em 1978. Depois o longo pontificado de João Paulo II fez com que o seu declínio fosse aparentemente mais pacífico porque toda a Cúria estava já na mão dos seus indefectíveis. Daí que para seu sucessor tenha emergido naturalmente o seu braço direito doutrinário, o cardeal Ratzinger, com o nome de Bento XVI.
Se alguma diferença tem com o seu predecessor é a de um conservadorismo revestido de rigor intelectual, face ao anterior conservadorismo popular e devocional. As diferenças no intervencionismo político parece-me terem mais a ver com a abissal diferença de contextos em que atuaram.
É ainda nesse distinto rigor intelectual que radica, em meu entender, a diferente reação à decadência física que, como mostra o episódio do mordomo, já estava a provocar agitação nos bastidores.
Foi penoso observar a obstinação de João Paulo II no exercício do seu cargo no meio do sofrimento e da doença.
Bento XVI, que privou com João Paulo II tanto no vigor como na decadência, vem agora declarar no seu discurso de renúncia:
"Estou consciente de que
este ministério, pela sua natureza espiritual, deve ser levado a cabo
não apenas por obras e palavras mas também, em menor grau, através do
sofrimento e da oração".
Eis aqui uma crítica certeira à obstinação do seu antecessor e uma recusa de se prestar ao mesmo triste espetáculo.
Em harmonia com a "papolatria" reinante, os mesmos devotos católicos que teceram panegíricos à perseverança de João Paulo II no seu posto, vão agora cantar loas ao desprendimento de Bento XVI.
O certo é que este gesto constitui uma ruptura importante numa antiquíssima tradição que tem prejudicado a vitalidade da Igreja. E é sem dúvida a melhor herança que ele deixa num pontificado relativamente breve e bem recheado de problemas e dilemas.
Só pela coragem deste gesto o seu pontificado já valeu a pena.
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