O prof. Michael Marmot, reputado investigador britânico em saúde pública, direcionou há muito tempo os seus estudos para o impacto do nível sócio-económico na saúde e na qualidade de vida das populações.
Marmot esteve recentemente em Portugal, e o jornal "Público" de ontem traz uma notável síntese das conferências do especialista, com um título bem apropriado: Do nascimento à morte o que mais conta é a classe social.
Quando, aqui e agora, o espaço mediático se encontra sobre-ocupado pelos arautos da austeridade, do empobrecimento obrigatório, da desregulação laboral e do salve-se quem puder, é bom encontrar alguém que nos mostra os números da vida e da morte e não os sacrossantos números do dinheiro e da dívida.
Nada de surpreendente em relação ao que os psicólogos e os sociólogos andam a publicar há dezenas de anos em estudos avulsos.
O grande mérito de Marmot é pegar nas estatísticas públicas, cruzar os dados e atirar-nos à cara aquilo que está escondido.
Para quem não tiver oportunidade de ler aquele artigo, respigo alguns tópicos.
Esperança de vida
Todos sabemos que a esperança média de vida é mais elevada nos países desenvolvidos. Mas não nos ocorreria verificar que num bairro rico de Londres a esperança de vida é 17 anos mais elevada do que num bairro pobre situado a escassos quilómetros. Fenómeno idêntico acontece em Washington, onde a diferença é de 18 anos.
A situação agrava-se na cidade escocesa de Glasgow, onde os homens da zona pobre atingem apenas 54 anos, um valor terceiro-mundista face aos 82 anos da zona rica da cidade.
Alguém sabe o que se passa nas cidades portuguesas?
Educação
Todos queremos acreditar que nos estados modernos a escola é um espaço de igualdade de oportunidades. Mas há estudos suficientes que demonstram que não é bem assim, ou que não é nada assim. As crianças mais abastadas têm mais oportunidades de estimulação e de desenvolvimento pessoal e isso reflete-se na carreira escolar. Crianças que aos 2 ou 3 anos obtêm baixas pontuações numa escala de desenvolvimento cognitivo vão ter uma carreira escolar diferenciada em função da origem social: as abastadas vão recuperar significativamente do seu atraso enquanto as pobres vão estagnar num baixo perfil de desempenho escolar.
Saúde e emprego
As pessoas de elevado estatuto sócio-económico são mais saudáveis. E os números não se referem apenas às doenças somáticas, mas sobretudo à saúde psicológica. O stress, a ansiedade e a depressão afetam mais os trabalhadores menos qualificados, mesmo em empregos estáveis como o funcionalismo público.
Os indicadores agravam-se em situações de emprego precário e de desemprego.
É fácil encontrar aqui os efeitos deletérios da falta de controlo sobre os resultados do seu trabalho na organização em que se inserem e, no caso dos desempregados, a falta de reconhecimento social e de projeto de vida.
Inversamente verifica-se que os autoproclamados sacrifícios dos detentores das mais elevadas funções na sociedade são afinal uma excelente fonte de saúde e de bem-estar psíquico. Liderança, controlo e dinheiro valem mil ginásios e terapias.
A destrutividade em ação
Os números são de Marmot: 1% de desemprego faz subir os suicídios em 0,8% e os assassínios também em 0,8%.
O tabagismo, bem como o alcoolismo, afetam significativamente mais as classes pobres.
É fácil concluir que os pobres têm poucas razões para evitarem a autodestruição de vidas que percebem como inúteis e sem horizontes.
A civilização numa encruzilhada
Marmot evoca o cinismo ou a ignorância dos economistas que tentam inverter o círculo de causalidade patente nestes dados repisando o argumento de que são pobres e doentes porque não aproveitam as oportunidades duma sociedade aberta. Ou seja, começam preguiçosos, seguem precários e terminam doentes e desempregados. Como se as oportunidades estivessem ali à esquina, à espera de que os preguiçosos saltem do seu conforto.
Importa abordar este tema como de direitos humanos. Do direito mais básico, que é o direito à vida.
Estamos num caminho perigoso enquanto pensarmos que o equilíbrio orçamental, o combate ao défice externo e o controlo da inflação justificam a destruição de milhares ou milhões de vidas.
Marmot esteve recentemente em Portugal, e o jornal "Público" de ontem traz uma notável síntese das conferências do especialista, com um título bem apropriado: Do nascimento à morte o que mais conta é a classe social.
Quando, aqui e agora, o espaço mediático se encontra sobre-ocupado pelos arautos da austeridade, do empobrecimento obrigatório, da desregulação laboral e do salve-se quem puder, é bom encontrar alguém que nos mostra os números da vida e da morte e não os sacrossantos números do dinheiro e da dívida.
Nada de surpreendente em relação ao que os psicólogos e os sociólogos andam a publicar há dezenas de anos em estudos avulsos.
O grande mérito de Marmot é pegar nas estatísticas públicas, cruzar os dados e atirar-nos à cara aquilo que está escondido.
Para quem não tiver oportunidade de ler aquele artigo, respigo alguns tópicos.
Esperança de vida
Todos sabemos que a esperança média de vida é mais elevada nos países desenvolvidos. Mas não nos ocorreria verificar que num bairro rico de Londres a esperança de vida é 17 anos mais elevada do que num bairro pobre situado a escassos quilómetros. Fenómeno idêntico acontece em Washington, onde a diferença é de 18 anos.
A situação agrava-se na cidade escocesa de Glasgow, onde os homens da zona pobre atingem apenas 54 anos, um valor terceiro-mundista face aos 82 anos da zona rica da cidade.
Alguém sabe o que se passa nas cidades portuguesas?
Educação
Todos queremos acreditar que nos estados modernos a escola é um espaço de igualdade de oportunidades. Mas há estudos suficientes que demonstram que não é bem assim, ou que não é nada assim. As crianças mais abastadas têm mais oportunidades de estimulação e de desenvolvimento pessoal e isso reflete-se na carreira escolar. Crianças que aos 2 ou 3 anos obtêm baixas pontuações numa escala de desenvolvimento cognitivo vão ter uma carreira escolar diferenciada em função da origem social: as abastadas vão recuperar significativamente do seu atraso enquanto as pobres vão estagnar num baixo perfil de desempenho escolar.
Saúde e emprego
As pessoas de elevado estatuto sócio-económico são mais saudáveis. E os números não se referem apenas às doenças somáticas, mas sobretudo à saúde psicológica. O stress, a ansiedade e a depressão afetam mais os trabalhadores menos qualificados, mesmo em empregos estáveis como o funcionalismo público.
Os indicadores agravam-se em situações de emprego precário e de desemprego.
É fácil encontrar aqui os efeitos deletérios da falta de controlo sobre os resultados do seu trabalho na organização em que se inserem e, no caso dos desempregados, a falta de reconhecimento social e de projeto de vida.
Inversamente verifica-se que os autoproclamados sacrifícios dos detentores das mais elevadas funções na sociedade são afinal uma excelente fonte de saúde e de bem-estar psíquico. Liderança, controlo e dinheiro valem mil ginásios e terapias.
A destrutividade em ação
Os números são de Marmot: 1% de desemprego faz subir os suicídios em 0,8% e os assassínios também em 0,8%.
O tabagismo, bem como o alcoolismo, afetam significativamente mais as classes pobres.
É fácil concluir que os pobres têm poucas razões para evitarem a autodestruição de vidas que percebem como inúteis e sem horizontes.
A civilização numa encruzilhada
Marmot evoca o cinismo ou a ignorância dos economistas que tentam inverter o círculo de causalidade patente nestes dados repisando o argumento de que são pobres e doentes porque não aproveitam as oportunidades duma sociedade aberta. Ou seja, começam preguiçosos, seguem precários e terminam doentes e desempregados. Como se as oportunidades estivessem ali à esquina, à espera de que os preguiçosos saltem do seu conforto.
Importa abordar este tema como de direitos humanos. Do direito mais básico, que é o direito à vida.
Estamos num caminho perigoso enquanto pensarmos que o equilíbrio orçamental, o combate ao défice externo e o controlo da inflação justificam a destruição de milhares ou milhões de vidas.
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