Costumo intitular-me católico em auto-gestão. O que sou como pessoa e cidadão é inseparável da minha formação católica. Foi aí que aprendi o rigor no pensamento, a ética do serviço e a coerência na ação. Infelizmente a Igreja Católica, prisioneira da sua rigidez hierárquica, não consegue praticar institucionalmente aquilo que ensina.
Enquanto me descomprometo duma fidelidade que frequentemente colide com a minha liberdade de consciência não deixo de estar atento às vozes que podem significar uma mudança de caminho e uma retomada do processo transformador desencadeado nos anos 60 pelo concílio Vaticano II. Um processo cuja dinâmica foi em poucos anos controlada pela omnipotente cúria romana, sempre pronta a antepor a segurança da lei à liberdade do espírito profético.
O meu desencanto é tal que nem sequer tencionava assinalar aqui o cinquentenário do concílio. Mesmo assim fui com gosto ao Centro de Cultura Católica do Porto ver um excelente documentário sobre o mesmo, da autoria dum jornalista italiano bem informado e clarividente. E acabei por ter paciência para ler uma entrevista do Cardeal José Policarpo à agência Ecclesia sobre o mesmo tema. Digo bem... paciência. Porque se refugia constantemente em lugares-comuns e na recusa do risco, dizendo por exemplo que um novo Concílio seria um perigo para a Igreja, porque o anterior também causou divisões que ainda não foram digeridas. Revela-se assim o perfeito homem da estrutura, que não acredita no Espírito de Deus; o perfeito conservador, que prefere uma paz podre a um conflito purificador.
Um ou dois dias depois, em Fátima, fez declarações à imprensa que retomaram o pior do seu conservadorismo.
«Até que ponto construímos saúde democrática com a rua a dizer como se
deve governar? (…) O que está a acontecer é uma corrosão da harmonia
democrática, da nossa constituição e do nosso sistema constitucional». (...) «Não se resolve nada contestando, indo para grandes manifestações».
Esta frases trouxeram-me irresistivelmente à memória o "Syllabus", o lamentável catálogo dos erros modernos, publicado há 150 anos pelo Papa Pio IX. Fui reler e lá enontrei o ERRO nº 79:
"É falso que a liberdade civil para todas as formas de culto e o poder dado a todos, de aberta e publicamente manifestar quaisquer opiniões e pensamentos, conduzem mais facilmente à corrupção dos costumes e das mentes do povo e à propagação da peste do indiferentismo".
Foi o Vaticano II que definitivamente quis inverter esta condenação, aceitando todo o conteúdo desta frase como uma conquista da nossa civilização e não como um erro.
O Cardeal Policarpo faz-nos recuar aos velhos tempos, substituindo apenas o poder eclesiástico pelo veredicto periódico das eleições. A rua que se cale. Excepto se o resultado das urnas não convier a certos poderes instalados. Ou será que ninguém se lembra de ver os bispos a apelarem a manifestações?
O Cardeal diz mais à frente:
«Existem sinais positivos (…) e que estes sacrifícios levarão a resultados positivos».
E num rebate de consciência (ou de hipocrisia?):
«Não nos peçam que entremos na balbúrdia das opiniões».
É claro, senhor Cardeal. Isto não é entrar na balbúrdia. Isto é tomar partido e ponto final.
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