domingo, 30 de setembro de 2012

Cobardes e ignorantes?


Isto está a ficar feio. Enquanto parecia que o governo tinha um rumo,  embora mau, as nossas críticas de cidadãos alimentavam-se daquela secreta  esperança de que, mais cedo ou mais tarde, as más decisões seriam revertidas.

Agora estamos dentro dum pesadelo. 

O governo recuou na reforma da taxa social única (TSU). Julgávamos que era o abandono normal dum projeto disparatado. Mas não. O primeiro-ministro não perde ocasião de se mostrar ressabiado.

Num tosco discurso de improviso  perante empresários saíu-se com uns mimos de antologia. Chamou-lhes cobardes por não aceitarem a oferta que o governo lhes fazia do salário dos trabalhadores. E foi  mais longe. Disse que era preciso voltar ao assunto quando eles percebessem o conceito moderno de empresa. 

A sua lição de sociologia empresarial foi bastante confusa. Percebe-se que abomina o conceito marxista de oposição entre o capital e o trabalho, mas também aquelas tretas dos anos 60 e 70, da empresa como comunidade humana, envolvendo a auto-realização dos trabalhadores. Agora, neste novo mundo de Passos Coelho, compete aos empresários guardarem os lucros como justa recompensa dos seus riscos e do favor que fizeram de criar empregos, e compete aos trabalhadores pagarem os prejuízos, para que o empresário generosamente lhes mantenha os postos de trabalho.

Ele estava nitidamente enjoado com os empresários que não aceitam este fantástico código de conduta.

Fazendo eco da voz do dono, veio o Miguel Macedo dizer que não passamos dumas cigarras truculentas que arranjamos todos os pretextos para fugirmos ao trabalho.

Mas o mais afoito em dar a cara ao desconcerto foi o famigerado  António Borges que disse com todas as sílabas a um seleto auditório empresarial que os críticos da reforma da TSU são os empresários ignorantes que não passariam do primeiro ano dos seus sapientíssimos cursos.

A resposta mais adequada veio do seu ouvinte e presidente da CIP, António Saraiva, que retribuíu o mimo, dizendo-lhe que ele não passaria na seleção para trabalhador das suas empresas, por falta duma visão integrada da economia.
O primeiro-ministro habituou-nos desde o princípio ao desprezo pelas nossas "pieguices" e vícios gastadores. Mas ficou desorientado pela quebra dos apoios da elite poderosa e bem pensante.

O primeiro-ministro zanga-se com o seu povo que supostamente não o deixa governar em paz. O primeiro-ministro parece esquecer-se de que, nos termos da constituição, o soberano é o povo e que o governo é apenas o servidor do soberano (significado original de ministro). Se  o servidor não está contente com o soberano, não tem que barafustar mas sim ir-se embora.

Infelizmente, isto não é divertido. O governo enreda-se no seu labirinto  e nós é que vamos pagar a conta.


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