domingo, 23 de setembro de 2012

Contra os subsidiodependentes marchar marchar...


Nos meus grupos de jovem militante católico, nos longínquos anos sessenta, assestávamos baterias contra os mecanismos de perpetuação das desigualdades sociais, tão habilmente cultivados pelas estruturas do "Estado Novo".

Um desses mecanismos era uma certa forma de caridade cristã, de que se apropriavam as senhoras-bem das paróquias como uma máscara de legitimação da estratitificação social e tentativa de controlo da consciência dos pobres.

José Barata-Moura satirizou exemplarmente esse fenómeno na cantiga: "Vamos brincar à caridadezinha". Mas já antes dele nós fazíamos nos nossos grupos resumos cáusticos de histórias reais.

- D. Ifigénia, estou saturada da viúva pobre que tenho a meu cargo! Farto-me de levar roupa e comida que as minhas amigas me dão e mal me agradece. E agora teve a lata de me pedir dinheiro para levar ao médico o miúdo mais novo que está com umas febres ou coisa assim. O raio da criatura pensa que o dinheiro não nos custa a ganhar. Tive de lhe falar claro: "Trate-o em casa e confie em Deus. Se Ele lho levar ainda fica com outros três à sua conta"!
Sorte tem a D. Ifigénia com a sua Micas, que traz sempre os dois miúdos tão limpinhos.

- Engana-se, D. Gertrudes. A Micas é uma criatura perigosa. A filha mais velha fez agora a 6ª classe e eu disse que lhe arranjava uma senhora de confiança onde ela ia aprender a ser uma mulher; tinha cama e mesa em troca duma ajudinha às outras empregadas. Pois sabe a resposta da atrevida?! Que eu lhe arranjasse algum dinheiro para os livros porque queria que a menina fosse para o liceu! Veja a lata desta gente! Sem um palmo de terra onde cairem mortos sonham com filhos doutores!
Este mundo está doido, D. Gertrudes!

Pensava eu que as Ifigénias e as Gertrudes estavam bem mortas. Mas esta semana li três discursos que me desenterraram os seus fantasmas.

Isabel Jonet, que me habituei a respeitar pela sua capacidade de liderança e de mobilização, teve esta declaração inglória, defendendo que o recente pacote de austeridade (subida da TSU) é um mal menor, que não vem agravar as desigualdades sociais. Que raio de economia é que esta senhora estudou? Ao ler estas declarações senti de volta o bafo das velhas Ifigénias das nossas paróquias.

Alguns blogs mais atentos trataram de ir buscar ao arquivo uma entrevista da mesma Isabel, em Junho de 2011, em que o seu pensamento se torna mais perigosamente explícito.

 "As pessoas passaram a achar que têm direito a todas as prestações sociais e dão-no como adquirido. E portanto muitas vezes - isso verificou-se nos últimos anos - preferem até ir para o subsídio de desemprego do que ter um emprego, ainda que ele seja menos bem pago. Porque sabem que vão ter essa prestação no final do mês: ou o rendimento social de inserção ou o subsídio de desemprego. Ora, isso veio trazer alguma perversidade neste tipo de fórmulas, que são fórmulas de emergência e que deviam ser reduzidas ao máximo. Mas sobretudo para fazer com que este montante que é afectado a estas prestações sociais não atingisse níveis incomportáveis e insustentáveis para o Estado. (...) [o Estado] mete-se demais em coisas em que não deve».

É assim tal e qual. O Estado"mete-se em coisas em que não deve". As pessoas habituaram-se a ter direitos sociais. A D. Isabel Jonet tem a teoria toda para ser a ministra da (falta de) solidariedade deste governo. 

Eu já dei para o Banco Alimentar. Eu não confundo a D. Isabel com os milhares de voluntários que trabalham no BA. 

Eu pensava que o BA existe para levar uma ajuda pronta onde a burocracia do Estado não consegue chegar a tempo e na justa medida das necessidades reais.

Eu pensava  que o BA respeitava as pessoas e promovia a sua autonomia e dignidade, que incluem quando necessário o encaminhamento para as prestações sociais consignadas na Constituição e nas leis.

Eu não pensava que o BA andasse a fazer um show a pretexto das necessidades das pessoas. 

Eu não pensava que o BA quisesse que o Estado se ponha à distância para fazer brilhar as estrelas das novas damas da caridade.

Eu não pensava que o BA se posicionasse como a ponta de lança daquela dinâmica "sociedade civil" que pretende libertar o Estado das suas gorduras redistributivas  e tomar a seu cargo as funções sociais, ressuscitando a caridadezinha, agora com o pomposo nome de "responsabilidade social".

O terceiro discurso sobre a matéria veio do outro lado do Atlântico. Mitt Romney, o candidato republicano à presidência dos EUA, afirmou num jantar de angariação de fundos que 47% dos americanos não lhe interessam porque não pagam impostos, acham-se vítimas da sociedade e ainda se consideram com direito aos apoios do Estado... 

Não vale a pena comentar. Lá como cá, as Ifigénias e as Gerturdes estão de volta. Cuidado com elas!

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