sábado, 8 de setembro de 2012

Empobrecer a toda a velocidade


Ainda estou em estado de choque com a comunicação de ontem do primeiro-ministro, anunciando as novas medidas de austeridade para 2013.

Em resumo: 

1) Os funcionários públicos e os reformados continuarão a ser privados de 14% dos seus rendimentos, apesar do juízo de iniquidade emitido pelo Tribunal Constitucional;
2) Todos os outros trabalhadores vão ver descontados mais sete por cento na sua remuneração ilíquida para a Segurança Social, dos quais 5,75% serão generosamente devolvidos ao patrão.
3) Segundo a estranha gramática do governo isto não é aumento de impostos mas sim diminuição da despesa e fomento do emprego.

Há mais de um ano que o governo nos ensina persistentemente a doutrina do empobrecimento e da purificação dos nossos vícios gastadores, com o aplauso dos moralistas de serviço. Atacou em força os rendimentos do trabalho e das pensões, dizendo que era por razões de urgência. Com tempo e com calma, diziam eles, haveria de carregar pesadamente sobre as grandes fortunas e os grandes interesses instalados.

 Afinal, o tempo e a calma revelaram-nos não o prometido Robin dos Bosques mas o insaciável Príncipe João. O governo saca por igual um imposto extra a todos os que trabalham, quer ganhem pouco ou muito, e entrega-o aos empresários guardando apenas uma comissãozinha para si.

Já estou à espera de ouvir algum dos "grandes senhores", Catrogas, Mexias, Soares Santos e outros que tais, virem dizer que são os sacrificados, vão pagar vinte ou trinta vezes mais que os seus sortudos colaboradores. 

Sei que algumas pequenas empresas vão respirar melhor. Mas a maioria vão engordar despudoradamente à custa do suor dos mais pobres. 

Não sei o que se ensina nas escolas de economia. O que sei é que os economistas que apoiam o governo não parecem ter vindo duma escola mas duma seita religiosa. Eles acreditaram que se aumentassem o IVA e cortassem salários e pensões reduziam o défice. Mas saiu-lhes mais défice e mais desemprego e mais recessão. Agora acreditam que se tirarem dinheiro aos trabalhadores para o darem aos patrões, estes aproveitam o bónus para criar mais empregos e não para comprar carros de luxo ou transferi-lo para paraísos fiscais.

Esta seita tem uma fé inabalável nos milagres da livre iniciativa dos ricos e da austeridade dos pobres.

P. S. Alguém me comentou, com finíssima ironia, que o governo apenas está a cumprir o que prometeu: cortar nas rendas que o Estado paga aos grandes grupos económicos. Os funcionários públicos são um enorme grupo económico, mais de 500.000 consumidores. Os reformados são outro gigantesco grupo económico.  Os cortes nas rendas destes dois grupos retém este ano nos cofres do estado uns dois mil milhões de euros. Que maravilhosa poupança! 
Agora aproxima-se o tempo dramático em que o governo também quer apropriar-se de alguma renda das empresas. Com o devido respeito (o respeitinho é muito bonito!) trata primeiro de lhes entregar de mão beijada as rendas dos trabalhadores. Depois, sim, anunciará com grande aparato que os ricos também vão pagar a crise.


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