quarta-feira, 25 de julho de 2012

Gorduras e mordomias


No relatório de execução orçamental do 1º semestre está em evidência aquilo que as eminências pardas que nos governam não queriam que se visse.

A única coleta de imposto que cresce é a do IRS. Pois claro. À conta das deduções fiscais que foram eliminadas o governo tratou desde já de aumentar a retenção na fonte, conseguindo esse milagre de, com menos contribuintes devido ao desemprego, arrecadar mais receita.

Do lado da despesa, onde esperávamos os efeitos dos famosos cortes nas gorduras do Estado, o que se conseguiu poupar de substancial foi o subsídio de férias dos funcionários do Estado e dos reformados em geral. O mais foi despedir os contratados e pôr os serviços a roer as unhas quanto aos gastos correntes.

Nada de surpreendente para quem não se deixa embalar pela estranha música de que semeando pobreza há-de nascer a prosperidade.

O que é surpreendente é a novela protagonizada por aqueles senhores do Banco de Portugal. Sim, são esses mesmos que, quando o governo anuncia mais austeridade, aplaudem com ambas as mãos. Sim, esses mesmos que estavam distraídos quando o BPN com as suas falcatruas deixou o contribuinte a arder com cinco mil milhões de euros. Sim, esses que vieram a correr dizer-nos que os cortes nos salários públicos não era com eles, que são gente doutro planeta. Sim, esses que, solidários com os "pobrezinhos" dos reformados do seu fundo de pensões, não se conformaram com o parecer das Finanças de que essas pensões também são para cortar.

Ontem fiquei pasmado com o comunicado de Suas Excelências. Escrevo assim por extenso para não dizer: aqueles rapazolas. Pois ficamos então a saber que se foram queixar ao Banco Central Europeu (BCE) de que o Gaspar queria que eles lhe entregassem o 13º e o 14º mês dos seus pensionistas, o que contrariava a proibição europeia de os Bancos Centrais financiarem os Estados. Vejam só. Tão grandes são as pensões que já passam por ser um financiamento bancário ao Estado.

Afinal o BCE respondeu, como era lógico, que não se metia nessas minudências. E os nossos magníficos banqueiros "de Portugal" anunciam-nos a salomónica decisão: enquanto não soubermos o que é melhor para a reputação do Banco, não pagamos os subsídios aos pensionistas mas também não os entregamos às Finanças.

Que sabedoria! O ditado popular é: Guardado está o bocado para quem o há-de comer!

E nós a vê-los a comer sobre as nossas cabeças! Estes e outros mais. 

Ontem também foi anunciado que o governo autorizou membros da administração da RTP a excederem o salário do primeiro-ministro, tal como acontece com as outras empresas do Estado em regime de concorrência. Vejam só! Levam-nos todos os meses a "contribuição audiovisual", levam financiamentos diretos do Estado e ainda acham que estão em concorrência!

Muita lata têm para pedir uma coisa destas. Mais lata tem quem lha concede. 

Conclusão: Gordos, gordos, são apenas os funcionários e pensionistas que ganhem mais de 600 euros. Lá no topo só está gente desgraçadinha e dependente do nosso subsídio. 

 

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