"Esgotou o medicamento para a concentração" - titulou há dias um jornal.
"Falta de medicamento para concentração pode levar crianças a chumbar" - corroborava outro.
Esmiuçando a notícia, fiquei a saber algo mais prosaico. O fármaco psicoestimulante denominado metilfenidato, comercializado há mais de 50 anos com o nome de Ritalina, tem a patente livre e está no mercado com outros dois nomes: Concerta e Rubifen. Este último é o mais barato e o que está temporariamente ausente das farmácias. Com natural indignação dos utilizadores que vêem comprometida a continuidade do tratamento.
O metilfenidato é há dezenas de anos a escolha farmacológica para a Perturbação da hiperatividade e défice de atenção (PHDA).
Trata-se duma designação quase tão extensa como o caudal de energia que transborda das crianças que a têm. Só que o diagnóstico não é fácil, e esta medicação é um recurso que só deve ser adotado depois duma cuidadosa abordagem pedagógica, psicológica e psicoterapêutica e em apoio temporário dessa abordagem.
Fiquei por isso assarapantado quando ouvi um pai dizer ao jornalista: "Agora vou ter de guardar o Rubifen para a época dos exames". Assim à moda dos nossos conhecidos que dizem: "Pois, estou em baixo, quando chegar a casa vou tomar o meu Prozac".
O jornal acrescentava que o consumo do fármaco aumentou muito nos últimos anos e rondará atualmente as 200.000 unidades por ano. Arrisco-me a fazer as minhas contas. Se cada embalagem dá para um a dois meses, então haverá em permanência umas 30.000 crianças a tomá-lo. O que poderá corresponder a 5% das crianças entre os 6 e os 12 anos, a faixa etária mais afetada pela PHDA.
Considerando que a medicação deve ser periodicamente revista e ensaiada a sua retirada, este número inquieta-me (ressalvando que a minha estimativa assenta em dados muito precários).
O certo é que as afirmações de médicos e pais, da forma transcrita na imprensa, me deixaram a sensação de que o medicamento é (quase) tudo.
Que a tranquilidade doméstica e escolar possa ser adquirida na botica é o sonho dourado da sociedade moderna. (Bem, na sociedade antiga o panorama não era melhor: ia-se aos curandeiros e às mulheres de virtude e, em recurso menos envergonhado, faziam-se promessas aos santos mais cotados).
As crianças muito ativas e distraídas não cabem todas no diagnóstico de PHDA. Mas todas, em muitos momentos, põem os cabelos em pé aos seus pais e educadores.
E em tais momentos é natural que sintam não ser a âncora de tranquilo afeto que a criança requer. É natural que se interroguem sobre se os problemas da criança são uma consequência da sua inabilidade como pais. Tudo junto e continuado pode gerar uma nebulosa de culpabilidade, percebida subliminarmente pela criança e que vai agravar o seu problema.
É neste contexto que a intervenção médico-psicológica é chamada à liça. Um exercício difícil para todas as partes. Com o objetivo de servir o desenvolvimento integral da criança.
Pode haver eventualmente recurso a fármacos para a criança ou os pais. Mas o que é de longe o mais importante é o reencontrro de cada um com a sua verdade interior, a preservação duma relação afetiva a toda a prova e a adoção de estratégias relacionais em conformidade com uma rigorosa avaliação contextual.
São as crianças difíceis que fazem crescer para a maturidade os pais e os professores. A farmácia pode ser um ponto de passagem. Mas não o ponto de partida ou de chegada.
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