Li no "Público" de 05 de Maio esta notícia, que merece alguma reflexão.
Vamos por partes.
1. Os professores duma escola do 1º ciclo tiveram
a iniciativa de criar uma "patrulha de segurança".
A patrulha é constituída por alunos, identificados por uma t-shirt e coordenados por professores, competindo-lhe a prevenção de situações críticas entre os colegas no decorrer do recreio.
Propósito sensato e pedagógico. Trata-se da idade
em que as crianças fazem o percurso de internalização das normas morais,
passando da mera obediência à autoridade para a compreensão dos fundamentos e
das vantagens da existência de normas.
Assim, a experiência de as normas lhes serem lembradas pelos seus pares pode seguramente acelerar a compreensão
do valor intrínseco da norma, independentemente do poder de quem verifica o seu cumprimento.
2. Um grupo de pais de
alunos de 10 anos (uma turma do 4º ano), achou que este era um projeto
perigoso.
Segundo a notícia, os pais invocam três óbices:
1) A iniciativa é propiciadora de "situações de bullying".
Ou seja, advertir o colega que está a cometer "agressões verbais ou físicas" pode levar a que ele responda com dois tabefes a quem o está a advertir. Ou será que a advertência é que é um acto de bullying?
2) As crianças não devem ser incentivadas a espiar e denunciar colegas.
Ou seja, tomar nota, de forma pública e ostensiva, dum comportamento inadequado é um inaceitável ato de espionagem.
Ou seja, tomar nota, de forma pública e ostensiva, dum comportamento inadequado é um inaceitável ato de espionagem.
3) As crianças têm direito ao intervalo para brincar.
Sem dúvida. Só que a brincadeira não é incompatível com a responsabilidade. E depreende-se que as crianças não eram forçadas a inscreverem-se nas "patrulhas".
Sem dúvida. Só que a brincadeira não é incompatível com a responsabilidade. E depreende-se que as crianças não eram forçadas a inscreverem-se nas "patrulhas".
Estas três objeções trazem-me irresistivelmente à lembrança os encontros quotidianos com a exemplaríssima cidadania que estes pais representam e que querem cultivar nos seus filhos.
- O meu vizinho dá pancada de criar bicho na
mulher e nas crianças. Ainda por cima é um desses espertinhos que meteu o subsídio de desemprego e continua a ir trabalhar para o mesmo patrão.
- E tu não lhe dizes nada?
- Era o que faltava? Ainda apanhava também por conta.
- Então comunica às autoridades.
- Que ideia! Não sou nenhum bufo! Prezo muito a minha dignidade. Além do mais, não sei porque te conto isto. Tenho é de tratar da minha vidinha.
Curioso é o resultado da queixa dos pais de Portimão. A Inspeção de Educação recomenda à escola que seja cuidadosa no envolvimento dos pais nos seus projetos. A escola respondeu à advertência suspendendo o projeto nesta turma, e só nesta.
Do mal o menos. Mas dá para pensar porque é que tanto nos queixamos de que os funcionários públicos ficam no seu cantinho a fazer os mínimos. É o "sistema" que lhes pede que não façam ondas...
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