quarta-feira, 9 de maio de 2012

Patrulha escolar


Li no "Público" de 05 de Maio esta notícia,  que merece alguma reflexão.

Vamos por partes.

1. Os professores duma escola do 1º ciclo tiveram a iniciativa de criar uma "patrulha de segurança". 

A patrulha é constituída por alunos, identificados por uma t-shirt e coordenados por professores, competindo-lhe a prevenção de situações críticas entre os colegas no decorrer do recreio. 

Propósito sensato e pedagógico. Trata-se da idade em que as crianças fazem o percurso de internalização das normas morais, passando da mera obediência à autoridade para a compreensão dos fundamentos e das vantagens da existência de normas.

Assim, a experiência de as normas lhes serem lembradas pelos seus pares pode seguramente acelerar a compreensão do valor intrínseco da norma, independentemente do poder de quem verifica o seu cumprimento.

2. Um grupo de pais de alunos de 10 anos (uma turma do 4º ano), achou que este era um projeto perigoso.

Segundo a notícia, os pais invocam três óbices:

1)  A iniciativa é propiciadora de "situações de bullying". 
 Ou seja, advertir o colega que está a cometer "agressões verbais ou físicas" pode  levar a que ele responda com dois tabefes a quem o está a advertir. Ou será que a advertência é que é um acto de bullying?

2) As crianças não devem ser incentivadas a espiar e denunciar colegas.
Ou seja, tomar nota, de forma pública e ostensiva, dum comportamento inadequado é um inaceitável ato de espionagem.

3) As crianças têm direito ao intervalo para brincar.
Sem dúvida. Só que a brincadeira não é incompatível com a responsabilidade. E depreende-se que as crianças não eram forçadas a inscreverem-se nas "patrulhas".

Estas três objeções trazem-me irresistivelmente à lembrança os encontros quotidianos com a exemplaríssima cidadania que estes pais representam e que querem cultivar nos seus filhos.
 
 - O meu vizinho dá pancada de criar bicho na mulher e nas crianças. Ainda por cima é um desses espertinhos que meteu o subsídio de desemprego e continua a ir trabalhar para o mesmo patrão.
 
- E tu não lhe dizes nada?
 
- Era o que faltava? Ainda apanhava também por conta. 
 
- Então comunica às autoridades.
 
- Que ideia! Não sou nenhum bufo! Prezo muito a minha dignidade. Além do mais, não sei porque te conto isto. Tenho é de tratar da minha vidinha. 
 
Curioso é o resultado da queixa dos pais de Portimão. A Inspeção de Educação recomenda à escola que seja cuidadosa no envolvimento dos pais nos seus projetos. A escola respondeu à advertência suspendendo o projeto nesta turma, e só nesta.

Do mal o menos. Mas dá para pensar porque é que tanto nos queixamos de que os funcionários públicos ficam no seu cantinho a fazer os mínimos. É o "sistema" que lhes pede que não façam ondas...

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