Está na crista da onda a entrevista de Christine Lagarde ao jornal The Guardian.
Numa longa conversa sobre o destino do mundo visto do miradouro onde se acantona, a presidente do FMI semeia recados e ideologias, com o pretensiosismo dos embriagados do poder.
Confrontada com o sofrimento dos filhos dos desempregados gregos, a senhora teve uma saída digna de madre Teresa de Calcutá: "Penso mais nas crianças das escolas
nas pequenas localidades do Níger que
têm duas horas de aulas por dia, que têm uma carteira para três".
Que génio de compaixão! Se acaso a frase saísse da boca de qualquer dos muitos militantes, cristãos, muçulmanos ou laicos, que sujam as mãos nesse sofrido continente africano a tentar a cura para os seus males, ficaríamos certamente emocionados e prontos a enviar a nossa ajuda para a melhoria das tais escolas.
Na boca da presidente do FMI a frase é um insulto a esses militantes. Não sou ingénuo a ponto de pensar que bastaria a Lagarde querer e a miséria seria erradicada. Mas no lugar onde está, com os programas de "assistência" financeira que subscreve, esperava-se naturalmente um mínimo de pudor na exibição de tão inúteis compaixões. O Níger foi intervencionado pelo FMI nos anos 90 e ocupava em 2010 o último lugar do Índice de Desenvolvimento Humano. É mais uma estrela no portefólio daquelas sumidades.
E a ilustre senhora prosseguiu:
"No que se refere a Atenas, penso em
todas as pessoas que evitam os impostos
o tempo todo".
Assim mesmo. Porque há-de ela preocupar-se com as crianças gregas? Os contribuintes gregos ainda não se encontram completamente despojados. Tratem de colocar em cima do balcão das finanças o que ainda possuem, em obediência às sábias reformas austeritárias dos insignes pregadores de moral enviados pelo FMI e pela UE. Quando finalmente não tiverem nas escolas de Atenas carteiras para as crianças saberão que D. Christine se comoverá!
Os gregos sentiram com toda a razão que este arrazoado é um insulto ao seu sofrimento. Ao sofrimento de todo o povo grego. Todo, não! Escapam os do costume. Lá como cá.
Conhecemos bem o filme. Amanhã, quando estivermos ainda mais aflitos e mais saqueados dos nossos direitos, já sabemos o que é que a senhora tem para nos dizer.
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