quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Pingo Descarado


Não gosto de me meter nos ruídos de ocasião e hesitei por isso em falar do golpe "pingo doce".

Com uma só cajadada a empresa do comendador Alexandre matou vários coelhos:

a) Entalou os sindicatos que diziam não haver procura que justificasse a abertura das lojas;

b) Entalou os trabalhadores revoltados com a perda do descanso, obrigando-os a trabalhar mais do que pudessem imaginar;

c) Entalou os partidos de esquerda, pondo-os a criticar um abaixamento dos preços, ao arrepio do seu combate contra a carestia da vida;

d) Conseguiu uma visibilidade superior à duma campanha publicitária formal, possivelmente com menos custos.

Será que ganhou em toda a linha?

Talvez não! 

O cliente que aproveita um brinde não é necessariamente um cliente fiel. Aproveita, mas não deixa de sentir que está a ser humilhado e utilizado para outros objetivos.

O cliente aproveita, mas não é estúpido e percebe a contradição dum comerciante que assentou até agora toda a estratégia em colar-se às cadeias dos "preços sempre baixos". E a contradição abala a confiança.

Falta ainda saber quem foi o principal financiador do desconto. É de temer que, como de costume, tenham sido os produtores, chantageados na sua pequenez e dispersão. 

Declaração de interesses: Falo como espectador. Deixei de entrar em lojas Pingo Doce desde que me saturei dos sermões moralistas e patrioteiros do senhor Alexandre. Provavelmente tenho de voltar a Max Weber para compreender capitalistas como ele que se gabam de ser virtuosos e se envergonham de ser ricos. Perseguidos pelo fisco, explorados pelos trabalhadores e roubados pelos clientes, só prosperam por obra e graça do seu trabalho insano em prol da comunidade.


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