domingo, 15 de junho de 2014

As novas certezas


Habituámo-nos aos excessos de linguagem dos políticos, às afirmações definitivas e tonitruantes das suas verdades pessoais ou partidárias.

Sei que, uma vez por outra, os políticos aproveitam cuidadosas entrevistas para mostrar a sua face de cidadãos comuns, com as suas dúvidas e ansiedades.

O que eu desconhecia é esta nova moda das afirmações peremptórias de coisa nenhuma. Fartos de serem justamente acusados de mentirosos, inventaram a fórmula que lhes permite dizer e não dizer.

Complicado? Para nós, sim! Para um político, não!

No mesmo dia leio dois exemplos.

O ministro Poiares Maduro responde numa entrevista: "Não tenho dúvida nenhuma, podemos ganhar as próximas eleições". Estão a ver como é fácil? O adepto rejubila e o adversário treme. O Maduro não tem dúvida, as próximas eleições estão no papo. A mensagem passou. Mas ele só disse podemos, uma afirmação inteiramente verdadeira para qualquer partido que concorra a eleições democráticas.

Do outro lado da barricada, António José Seguro alinha pela mesma prudência socrática (de Sócrates, o grego: só sei que nada sei). Verberando o atrevimento do camarada António Costa em disputar-lhe a liderança, Seguro atira-lhe à cara com a sua certeza absoluta: "Agora que o PS tem quase a certeza absoluta de que ganhava as eleições". Há momentos em que Seguro mede bem as palavras. Outros nem tanto. Nesta passagem, excedeu-se na contenção. Aquele quase virou-lhe a frase do avesso. Uma quase-certeza é obviamente uma dúvida. A frase lógica é esta: "Agora que o PS tem dúvida de que ganhava as próximas eleições". Ou muda a afirmação, ou entrega o partido ao concorrente, ou não faz uma coisa nem outra e transforma a dúvida em pesadelo.



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