domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vassalagem


Anda nas bocas do mundo
o filme do diálogo "privado" entre o ministro Gaspar e o ministro alemão Schauble, captado pelo repórter antes do início da reunião do eurogrupo.

Os nossos arautos da austeridade rejubilaram com o paternalismo de Herr Schauble, a prometer ao Gaspar que terá em conta a sua devoção e sacrifício no caso de se tornar necessário um empréstimo adicional. Mas lá foi avisando que será uma enorme generosidade da sua parte já que terá de enfrentar a incompreensão do seu parlamento e da opinião pública germânica.

Fiquei atónito com a cena. Não que me espante a substância. Mas porque ainda pensava que os actores cuidassem de manter algumas aparências.

E a substância é que as instituições europeias não existem. São uma ficção cara que os contribuintes europeus sustentam principescamente: a comissão e os seus infindáveis serviços, o parlamento com o seu exército de eurodeputados e respectivos serventuários.

A cena é de vassalagem pura e simples dum ministro português a um ministro alemão. Teoricamente dois colegas numa União a 27. Não teve a encenação da sala do trono e do beija-mão imperial, que provavelmente só ocorre quando das visitas do governador da província lusitana à imperatriz germânica Ângela I. Mas as palavras e as atitudes estão nos conformes.

Revisito o que escrevi há dois meses sobre a síndrome-de-vichy, então apenas como uma evocação preocupada duma humilhação alheia.

Agora temos esta cena. E vem-me irresistivelmente à memória o currículo nacional de humilhações.

Há 204 anos o general napoleónico Junot foi recebido festivamente em Lisboa pela Junta de Regência, enquanto a corte se escapulia para o Brasil numa manobra para salvar formalmente o trono.

O povo é que não se conformou com a austeridade imposta pelo auto-proclamado regente Junot. A resistência só teve sucesso com o apoio britânico que, após a expulsão do invasor francês, por cá se ficou com a sua tutela mais suave mas não menos humilhante.

Em 1890 foi a vez do império britânico aproveitar o aperto financeiro do reino de Portugal para surripiar territórios ultramarinos, gerando uma duradoira crise de regime e de identidade nacional.

Na II Guerra Mundial a dupla Salazar/Franco ofereceu a Hitler uma obsequiosa neutralidade, que possibilitou à Península Ibérica escapar à ocupação sangrenta dos nazis. O ditador alemão tinha por garantido que a seguir à vitória nas outras frentes, os ditadorzinhos ibéricos iriam com todo o gosto prestar vassalagem ao grande império germânico anunciado para durar mil anos.

Quando menos esperávamos, quando pensávamos que a Europa vivia em paz, em democracia e em solidariedade, o pesadelo germânico volta ao ataque. Não com sangue mas com o suor dos juros, com penitência e com prepotência.

Sou um preocupado cidadão português e europeu.


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